Liana Cirne Lins

28 de julho de 2019, 19h33

Como fomos vendidos pelo Facebook

Campanhas criadas com os dados vendidos pela empresa foram capazes de manipular nosso comportamento

O documentário The Great Hack – Privacidade Hackeada nos mostra uma coisa: o Facebook está nos usando e vendendo nossos dados para empresas que manipulam e mudam nosso comportamento por meio de estratégias de guerra.

Começo explicando a metodologia que levou à aprovação do Brexit com a campanha “Leave.EU”, a eleição de Trump, a campanha “Do So!” em Trinidad & Tobago e, enfim, a eleição de Bolsonaro.

A metodologia consiste no armazenamento de dados pessoais sobre nossos perfis psicológicos e pessoais, por meio do Facebook, do Google e dos aplicativos correlatos. Esses dados foram vendidos para a Cambridge Analytica, que desenvolveu o algoritmo e a tecnologia que está definindo a política e a economia do mundo, hoje.

O que eles sabem sobre nós? Tudo. Tudo, tudo mesmo. A Cambridge Analytica disse dispor de mais de 5 mil dados pessoais sobre cada eleitor norte-americano.

Eles sabem que eu sou doutora em direito e professora da UFPE, porque eu forneci esses dados gratuitamente, eles sabem os livros que eu leio e compro, os filmes a que assisto. Eles conhecem meu pensamento político, meu perfil psicológico.

Os algoritmos desenvolvidos pelos maiores especialistas do mundo em comportamento, em matemática e em tecnologia permitem que eles tracem um perfil tão exato sobre mim que eu mesma não tenho. Com dados que cedi, sem saber no que estava me metendo.

E eles fizeram isso também com a ajuda de meus 4.700 amigos virtuais, que toda vez que usam um aplicativo qualquer, um aplicativo para definir a personalidade, para simular o envelhecimento, descobrir qual princesa da Disney seriam, qual vilão de Star Wars, qual a música fazia sucesso no dia em que nascemos, cedem seus dados e cedem acesso aos dados de seus amigos.

Logo, mesmo que eu não tenha aceitado ceder meus dados para simular meu envelhecimento, tive meus dados cedidos pelos meus amigos, que aceitaram cedê-los, obviamente sem saber o quanto estavam pagando para poder entrar na brincadeira.

O fato é que o custo de entrarmos nas redes sociais é muito alto. Parece ser gratuito, correto?

Mas nós estamos falando da indústria mais lucrativa do mundo.

Sabe o que isso significa? Que o ativo mais valioso do mundo não é o petróleo ou algo do gênero. É o banco de dados que fornecemos (in)voluntariamente, sem fazer a menor ideia do quanto isso nos custa do ponto de vista particular e, menos ainda, do ponto de vista coletivo, político, econômico e social.

A metodologia é simplesmente impressionante.

Lembrem que eles possuem também nossa geolocalização.

Logo, eles conseguem fazer um mapa extremamente preciso, dispondo de nossos perfis psicológicos, nossa faixa etária e todas as informações necessárias para alterar nosso comportamento.

Nas palavras da Cambridge Analytica, o Santo Graal da comunicação é obter a modificação comportamental dos usuários das redes sociais.

Naturalmente, é mais fácil fazer isso com o grupo de indivíduos classificados como persuadíveis ou suscetíveis, ou seja, pessoas que podem mudar sua inclinação política de modo mais fácil.

Logo, o grupo alvo da Cambridge Analytica era o grupo considerado apático, ou seja, o grupo de pessoas a princípio indiferentes à política.

E como funciona a metodologia de uso de nossos dados pessoais? Depois de identificar quem são as pessoas do grupo suscetível a ter seu comportamento modificado por propaganda e mapeado pela geolocalização, eles iniciam propriamente a campanha.

Grosseiramente falando, a campanha se subdivide em duas.

A primeira é voltada ao grupo mapeado. A segunda se dá pelo bombardeamento de posts de conteúdo individualizado.

Trump gastava um milhão de dólares por dia com anúncios de Facebook. Mas não eram anúncios da campanha de Trump. Eram sobretudo anúncios da campanha anti-sistema. Cada pessoa era bombardeada por conteúdos desenvolvidos exclusivamente para ela, voltados a deixá-la mais suscetível a mudar seu comportamento.

A campanha de Trump associou Hillary Clint ao sistema. Ou seja, a tudo que estava errado. Ao sistema financeiro, ao sistema político velho, ultrapassado e corrupto. E o encerramento da campanha obviamente se dava com a apresentação de Trump como solução salvacionista contra “tudo o que está aí”.

A gente conhece bem esse enredo. Nós vimos isso acontecer com nossas famílias e amigos. Nós vimos “pessoas normais” acreditarem em mamadeira de piroca, que o Brasil era comunista, que tudo era culpa do PT.

Já a campanha de grupo atua de modo diferente. O melhor exemplo é a campanha “Do So!”, realizada em Trinidad & Tobago.

A Cambridge Analytica foi contratada para conseguir a vitória do partido indiano sobre o partido afro-caribenho, numa eleição extremamente equilibrada.

Então lhes bastou calcular o fator de desequilíbrio. Nos Estados Unidos, a diferença era de apenas 70 mil votos para mudar o fator de desequilíbrio a favor de Trump, para se ter uma idéia.

Em Trinidad, era suficiente atingir 40% de um grupo específico do eleitorado, o grupo jovem afro-caribenho, mais apático e descrente com a política.

Então, o que a Cambridge Analytica fez? Campanha na base do segmento jovem dos eleitores do grupo adversário.

A campanha parecia um movimento independente e espontâneo criado organicamente para mostrar o quanto a política institucional não representava a juventude afro-caribenha e que por isso a resposta era não participar daquela forma ultrapassada e insuficiente de manifestação. A resposta era não votar.

A campanha foi um sucesso e o grupo-alvo aderiu em peso, deixando de votar. E bastou isso para garantir a vitória ao partido indiano. É uma estratégia de guerra com base em operações psicológicas.

As redes sociais foram criadas para conectar pessoas, mas o ódio é um fator de enorme ligação: basta que elas odeiem algo ou alguém em comum, como Durkhéim bem explicou em sua tese sobre solidariedade orgânica.

As campanhas criadas com os dados vendidos pelo Facebook e Google foram capazes de manipular nosso comportamento, em especial através da repulsa, ódio ou rejeição, sem que soubéssemos que estávamos sendo usados e manipulados, sem nosso consentimento ou informação sobre o que estava e está acontecendo.

Foi por isso que o Professor David Carroll iniciou uma guerra judicial contra a Cambridge Analytica para que ela entregasse todos os dados que possuía sobre ele. Se você está achando um mero gesto simbólico, pense duas vezes.

Com esses dados nas mãos, Carroll, professor especialista em redes sociais, poderia analisar como nossos dados estão sendo usados e traçar mecanismos de segurança para não sermos manipulados.

Entretanto, a CA preferiu se declarar culpada e não entregar os dados disponíveis. Declarou falência e encerrou suas atividades logo após a famosa investigação no Senado norte-americano, o que lhe assegurou sigilo sobre os dados disponíveis.

Importante dizer que essa metodologia, segundo os especialistas ouvidos no documentário, ainda tem o poder de influenciar eleições e comportamentos pelos próximos dez anos, no mínimo.

E apesar da Cambridge Analytica ter encerrado formalmente suas atividades, seguramente a metodologia está em pleno uso, com a eleição de Bolsonaro aqui no Brasil, com a ascensão de Matteo Salvini, na Itália, de Marine Le Pen na França e na campanha contra o Papa Francisco, por trás das quais está a figura nefasta de Steve Bannon.

Somos ratos de laboratório num experimento com mais de 2 bilhões de usuários. E não temos a menor ideia de como sair dessa ratoeira tecnológica.

O mínimo que podemos fazer é saber onde estamos e que estamos sendo usados e manipulados, por mais que ainda não saibamos como e quando.

Mas minha maior preocupação não é essa. Minha maior preocupação é que essa metodologia só tem funcionado para ascensão de programas de extrema direita baseados no ódio, no racismo, na homotransfobia, na misoginia.

Em todo o mundo, seus efeitos tem sido devastadores. Mais do que desenvolvermos mecanismos de segurança para que não sejamos manipulados, minha pergunta é: conseguiremos algum dia usar a tecnologia para que ela faça aquilo que se propôs a fazer? A conectar pessoas, no lugar de afastá-las?

 

 

Liana Cirne Lins
Professora Associada da Faculdade de Direito da UFPE. Mestra e doutora em Direito. Advogada.


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