Luiz Roberto Alves

01 de janeiro de 2020, 18h30

A Cultura como futuro: horror para Jair e Olavo

O fascismo não tem como destruir a cultura, o que também se deu com Hitler, quer queimando livros, quer proibindo, quer atulhando obras de arte para que ninguém as visse. Tudo ilusão. Meses após o tsunami fascista, sorriem as faces da cultura

Bolsonaro e Olavo de Carvalho (Arquivo)

Pois bem, amigas e amigos deste país de vida sombria, muita xingação pública e inteligência econômica completamente desnorteada, o guru do Jair Messias, que é uma fraude de vida para a própria filha, disse algo que é uma rara verdade em sua boca suja: que o fracasso do governo está em não ter destruído a cultura.

O pensamento comum aos regimes brutais e autoritários, nós os conhecemos na reflexão de Euclides, Machado, de alguns historiadores das guerras, Furtado, Lima Barreto, a literatura de folhetos, Paulo Freire, Darcy Ribeiro etc, assim como na antropologia que pensou nativos e invasores, nas exigências economicistas de agências bancárias internacionais e nos relatos das muitas diásporas. Tudo isso é intuído (mas não conhecido) pelo guru às avessas como indicadores do maior relevo no projeto de governo das laias de plantão, isto é, antes de tudo sufocar a cultura.

O problema é que o suposto guru de Bolsonaro, este próprio e os grupos que os cercam não conhecem nada disso e se lessem não fruiriam nada que lhes permitisse fazer ou perpetrar o contrário.

Em consequência, o pai e os filhos da ignorância vão tateando por aqui e ali, na suposição de que destruirão a cultura brasileira e tomarão o país em suas mãos asquerosas. Debalde. Toda a estratégia será um ledo engano e nós, que pesquisamos por toda a vida os processos de constituição da cultura contribuiremos com as trilhas contrárias à suposta destruição.

Isso não quer dizer que não haverá nesse governo canetadas destrutivas, mas nada passará de malefícios contra as instituições que abrigam dimensões materiais da cultura, como na universidade, no teatro e no cinema. Talvez, numa fraquejada, figuras brilhantes dessas áreas farão alguma confusão entre as dimensões da cultura e imaginarão que esse governo está ganhando terreno. Trata-se de um conjunto de erros, seja sobre o tempo da cultura, sua complexidade, suas faces claras e suas silhuetas, seus subterrâneos e suas teorias eivadas de um cotidiano que a ignorância não é capaz de entender na proporção de 1%.

Como na brincadeira infantil, o guru atarantado e seus discípulos estão mais frios que as calotas polares no processo de destruição da cultura. O residente na América não consegue passar de duas ou três táticas: mentir repetidamente, negar recursos, acusar sem qualquer base e xingar copiosamente os que lhe chegam à frente. Não há pior caminho para destruir os processos culturais!

Pela sua própria natureza, o fascismo não tem como destruir a cultura, o que também se deu com Hitler, quer queimando livros, quer proibindo, quer atulhando obras de arte para que ninguém as visse. Tudo ilusão. Meses após o tsunami fascista, sorriem as faces da cultura, reconstituem-se as pesquisas, dialogam o cultural e o educativo e a criação arranca das entranhas o que fora pensado e acalentado.

As nuances culturais que se tocam com os saberes econômicos, jurídicos e políticos sofrem um pouco, porque essas áreas vivem de conluios, arranjos e às vezes o desejo senil de equilibrar o desequilíbrio, arranjar o desarranjo, dar uma pancada no cravo e outra na ferradura. Via de regra, tais áreas são as mais difíceis de recuperação após a varredura de governos fascistas, como vimos tanto nos colaboradores do eixo na segunda guerra mundial, nos “panos quentes” diante de casos exemplares como Marielle e Queiroz, na consecução de reformas inúteis como a trabalhista (em todo o mundo) ou nos horrores dos desmembramentos do leste europeu e arredores.

Mas tais faces são os elos mais fracos da cultura, exatamente porque economia, estrutura jurídica e política não nasceram do essencial do fazer cultural, que são os grandes acordos simbólicos que definem o humano no interior do progresso social e seus empecilhos. A imensidão de acordos simbólicos que preenche a sociedade complexa (ainda mais como a brasileira!) são liames, cipós, cordas invisíveis, linguagens complexas, movimentos de racionalidade e de emoção que superam bastante a visibilidade da universidade, da indústria do cinema e das montagens comerciais do teatro e similares. Estão no mundo e na vida como dados do que de mais complexo o humano construiu nos últimos dez mil anos de expressão direta junto à natureza.

Não será um guru magoado, metido em meio a rifles e isolamentos vociferantes, ao lado de governos que ignoram tudo, exceto seu umbigo, que irão entender a complexidade da cultura para então destruí-la. Que venha 2020 e com ele os subterrâneos das culturas brasileiras, tão jacentes quanto pulsantes, aqui e ali dando sinais como pequenos furacões de criatividade.

Obrigado, Mário de Andrade e Paulo Freire, por nos fazerem compreender que a cultura viceja sob autoritarismos. Arre!


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