Luiz Roberto Alves

15 de novembro de 2019, 14h03

A educação brasileira depois de Jair Messias, Paulo e Abraham

Os três têm nomes bíblicos não são sábios para orientar um projeto educacional para as gerações jovens sob cuidados do Estado brasileiro e muito menos profetas, porque tudo o que fazem é corriqueiro, cartilha liberal do pior tipo e decalque de políticas que já foram revistas, criticadas e superadas há décadas

Bolsonaro e Weintraub (Foto: Foto: Gabriel Jabur/MEC)

Por que não é difícil escrever sobre a educação brasileira após o cataclisma/o dos atuais governantes? Porque eles já enunciaram e evidenciaram o que pensam, o que são e o que lhes interessa. Não seria digno esperar indefinidamente por algo melhor, pois o bom para eles é mau para a educação, isto é, juntos eles farão piorar o que ainda não era sólido desde os documentos dos pioneiros da educação de 1932. A democracia brasileira viveu pêndulos similares a seus sistemas educacionais. Ela e eles tiveram valor sofrível. Agora pior.

Os três têm nomes bíblicos; no entanto, não são sábios para orientar um projeto educacional para as gerações jovens sob cuidados do Estado brasileiro e muito menos profetas, porque tudo o que fazem é corriqueiro, cartilha liberal do pior tipo e decalque de políticas que já foram revistas, criticadas e superadas há décadas. Como responsáveis por uma legislação que normatize e atualize teorias e práticas, barganham com um legislativo pífio que não consegue vislumbrar o que está a ocorrer nem mesmo nos próximos três anos. E la nave và

No caso deles, os nomes não são, pois, motivados e sim aleatórios, tema de antiquíssima discussão linguística. Eles chamam Jair, Paulo e Abraham porque chamam e só.

Agora, o que nos interessa é o que eles estão a fazer no governo da República em educação. Sistematicamente, negam não somente a melhor apropriação das ciências humanas e naturais em nome do deus-mercado imediato como negam, por incultura e insensatez, o pensamento dos pioneiros da educação nova de 1932. Ali, em somente 19 páginas, Afrânio Peixoto, Lourenço Filho, Roquette Pinto, Cecília Meireles, Fernando de Azevedo, Júlio de Mesquita Filho, Anísio Teixeira e outros/as brasileiros/as desenham um sistema educacional para o Brasil. Partem do reconhecimento de que nada é mais importante do que a educação numa sociedade, nem a economia. Mostram que o país tivera reformas fragmentadas e estranhas ao movimento do mundo, inclusive nas relações de trabalho para a juventude. Observam que a universidade é um lugar preponderante de formação e compartilhamento do saber. Refletem sobre a educação como base da democracia e valor para o alcance da autonomia e da liberdade. Apresentam a proposta da educação pública, da infantil à universitária, como laica, universalizada, inclusiva, gratuita, de qualidade social e movida pela participação de família, sociedade e Estado em todas as suas instâncias de presença e colaboração. Terminam o manifesto com este período: “…o dever mais alto, penoso e grave (do Estado) é, por certo, o da educação que, dando ao povo a consciência de si mesmo e de seus destinos e a força para afirmar-se e realizá-los, entretém, cultiva e perpétua a identidade da consciência nacional, na sua comunhão intima com a consciência humana” (mantida a linguagem da época).

Não há como negar que Jair, Paulo e Abraham se amparam (ainda) em alguns milhões de brasileiros/as que se recusam a negar o voto errado nas urnas, ou que não dão a mínima importância para a educação, ou ainda porque são empulhados por pastores vendilhões de pedacinhos da fé por dinheiro e interesses similares.

Digamos, então, que a responsabilidade pela educação censurada, diminuída no seu alcance, que inclui menos e menos jovens pobres e vulneráveis, freada pelos contingenciamentos financeiros, apequenada pelos dirigentes que quase nada sabem do seu significado indutor do progresso social, vai além dos três e seus males serão compartilhados por muitos aficionados deste governo. Idem, por boa parte deste Congresso Nacional.

Na saída de Jair, Guedes e Abraham retomaremos o Plano Nacional de Educação (2014), resultado de muito esforço de educadores e legisladores. Leremos o vazio que ficou, seja na universalização da educação básica, seja no processo de inclusão nos três níveis, no desmonte dos conselhos e órgãos de assessoria, na desvalorização da diversidade dos grupos, povos e etnias; enfim, na transformação do empenhado e sofrido Plano em letra moribunda.

Sentiremos o horror dos sistemas de educação estaduais e locais: de um lado o privilégio de escolas militares de educação básica, mantidas plenamente pelos governos; de outro, a absurda e falsa compra de vagas em escola privada. Basta lembrar que muitos comerciantes da educação ganham dinheiro fácil quando são abertas tais possibilidades, especialmente profissionalizantes, mas também de outras modalidades. As salas ociosas se enchem de gente, os professores são contratados a granel, com preparo mais que discutível, a avaliação do aprendizado e da gestão escolar é quase sempre nenhuma e o resultado volta a negar tudo o que nossos pioneiros escreveram em 1932. Posso deixar Paulo Freire de lado. Nem precisa.

Ao final do tempo bolsonarista, com Paulo e Abraham, a democracia brasileira estará encurtada, sofrida e dividida, entre o pragmatismo dos cortes a serviço do que não é educação/cultura e a perda de direitos de etnias, trabalhadores e pesquisadores, a par dos imensos privilégios do capital centralizado em poucas mãos. Talvez sem canhões ou coisa similar a AI-5, por desnecessário. As democracias são, hoje, corroídas pela desinformação e pela mitigação educativo-cultural mais feroz. Os grandes órgãos de mídia, de seu lado, continuarão a achar que são importantes. Ledo engano! O trio Jair, Paulo e Abraham certamente gostaria de dizer como Hanns Johst: “Quando eu ouço a palavra cultura, eu procuro pelo meu revólver”.  A Secretaria de Cultura vai turistar até o fim do governo e a educação não passará de marketing.

As universidades públicas estarão vendendo o almoço para comprar o jantar. Entre o Future-se e as necessidades básicas. O trio governante tanto não aprenderá os sentidos da ciência e do saber como perturbará quem descobre, encontra e revela tais sentidos.

Naquele tempo, teremos um trabalho de gerações para mover novas conferências de educação, abrir chamadas para rever o arbítrio e os desmontes, reescrever projetos que maculam a Constituição e a LDB, reler livremente Paulo Freire e outros educadores da liberdade e da autonomia (para o horror dos três, do Rogério Marinho e assemelhados), fazer da escola um lugar do debate sobre a democracia efetiva, com leituras a partir do manifesto desconhecido de 1932 e tudo o que interessar à comunidade. Aguçada a inteligência nacional, sem nenhuma exclusão, sem sabichões, salvadores e corporações donas do fazer educativo, tentaremos ser mais competentes para tornar o sistema de educação nacional muito mais que um documento; de fato, um fazer da consciência que se move dos indivíduos que educam e se educam para compor um modo de estar no mundo. Acreditar é preciso. Naveguemos.

 


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