Luiz Roberto Alves

09 de abril de 2019, 19h26

A memória fragmentada do presidente

Em sua coluna na Fórum, o professor Luiz Roberto Alves aponta como o discurso de Bolsonaro sobre a memória não passa de retórica momentânea, um fenômeno emocional que também cairá rapidamente no esquecimento

(Foto: Reprodução)

O presidente da República, depois de visitar o Muro das Lamentações e o Memorial do Holocausto, manifestou-se a favor da memória e contra o esquecimento. Correto. O discurso de Jair Bolsonaro é uma composição de vários textos similares e que circulam há séculos no Oriente Médio. Outro é mais forte: A memória é o pilar da redenção e o esquecimento o começo da morte. Meu preferido, exige pensar que esquecer implica começar a morrer. Poetas e artistas sabem disso.

Quem dirige um governo composto por ministros-gestores e auxiliares privados de memória, numa sociedade em que a memória política só serve para delações tratadas como moeda de troca, num país de democracia débil e esquecida e, ademais, farto de ciclos autoritários, de fato não se pode brincar com o tema da memória. No rastro das muitas elites dirigentes do país, o que é mais plausível é que a frase de Bolsonaro sobre a memória não passe de retórica momentânea, um fenômeno emocional que também cairá rapidamente no esquecimento.

Caso contrário, se Bolsonaro levasse a sério os sentidos da sua fala em Jerusalém, seu governo já não estaria como está, decadente depois de 100 dias. Como decadente está a maior parte das relações políticas do país, portadora inequívoca de uma hipocrisia memorial. E perigosamente em decadência a memória cultural brasileira, que abandona sua história cultural popular, as pulsações de sua diversidade natural e suas fontes de criatividade para cair no vazio do hedonismo e do entretenimento globalizado, a anti-cultura, os lugares vazios de memória.

Bolsonaro não deveria esquecer que uma boa política para o Oriente Médio implica em visitar o Muro das Lamentações com a consciência histórica de que em 1947 se propôs a justa divisão de dois Estados, o de Israel e o Palestino. Não se lembrou. Por isso juntou-se, ali, a um primeiro ministro que o usou em momento eleitoral.

Seu governo não tem nenhuma memória de que as nações indígenas não são tribos, ou restos delas, mas nações, com dirigentes respeitados e que exigem respeito a suas culturas e suas terras. Com as árvores em pé, que agregam mais valores. Seus ministros, via de regra, sequer conseguem meter em suas cabeças ocas que este é um país de máxima diversidade natural e cultural e que cada atitude política exige consideração a isso, especialmente quando o painel do clima mundial se revela verdadeiro para todos os efeitos, inclusive para as desgraças sobre as populações.

Ainda mais: Bolsonaro, articulador do discurso da memória, se esquece todo dia de que todo ato memorial é um ato ético e que um movimento de quartéis e de elites que mata, sistematicamente, centenas de pessoas não pode ter outro nome que ditadura. Lembrar-se implica eticizar-se, como mostrou Paulo Freire. E se Bolsonaro tivesse tido em sua vida a lembrança de ler algumas poucas páginas de cada livro do mestre, não estaria cometendo tantas insanidades contra a educação brasileira, também diversa, desigual, complexa, desde o ensino infantil às universidades. No Israel que ele visitou, e no mundo médio-oriental e africano ali pertinho, dos quais ele se esqueceu, quem fizesse pela educação de sua terra o que Freire quis fazer pela nossa seria reverenciado, lido, homenageado para sempre. Não por alguns, mas pelas maiorias. Nesta terra desmemoriada, até a loucura do lança-chamas o pensador rigoroso, doce e profundo, morto em 1997, tem de enfrentar.

A memória vai se tornando neste país a banalidade do horror. Podemos chegar a um momento sem volta para muitas gerações. Daí a urgência do lembrar, do eticizar o lembrado e da indução ao futuro como ato moral que garanta a beleza de ser e estar na vida do mundo.


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