Luiz Roberto Alves

18 de julho de 2019, 16h29

Agentes públicos terrivelmente ignorantes

Luiz Roberto Alves: “Este, e qualquer país real em desenvolvimento, não é regido por hipérboles, mas por necessidades e desejos indispensáveis, especialmente de justiça e equidade, construtoras da paz social”

Foto: Rogério Melo/PR

A maioria dos dirigentes do país, hoje, não é composta de evangélicos, laicos, crentes, meio a meio, fiéis ou gentios; é, sim, terrivelmente ignorante. Mas não se trata da ignorância de conteúdos escolares ou da condição social de exclusão, marca registrada do Brasil. Trata-se da ignorância como afirmação de supostas verdades associadas à negação dos “outros”, suas ideias e suas propostas. Se o presidente do país e a gente que o bajula têm prazer em anunciar o terrível disso ou daquilo sob conotação de coisa boa, cabe a nós, que sofremos seus disparates e maluquices anunciar sua farta ignorância, aquela ausência profunda de conhecimento associada a nenhum desejo de conhecer. Pior, a impressão disparatada de que já sabem tudo. Como agentes públicos, parece que imaginam poder carregar o país com o que sabem.

Mas não carregarão. Somente destruirão acúmulos de valores, pesquisa, estudo, trabalho, riqueza cultural, criações étnicas e biodiversidade. Não será pouco. Irá muito além das cadeiras de segurança para crianças em viagem, liberação de multas, fim das taxas em Noronha, privatização das instituições federais de educação ou a retirada de crianças da escola para o trabalho ou para a morte. No meio disso tudo, o senhor Jair Messias rirá, brincará, demonstrará prazer e estimulará a piora de tudo o que ele e seus bajuladores ignorantes sabem fazer. Depois de algum tempo – que não demore! –  sairão de cena, porque um povo não pode ser mantido na ignorância por tanto tempo.

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O senhor Jair Messias e seus bajuladores são terrivelmente ignorantes sobre os textos bíblicos que supõem conhecer e que teimam em transportar para a vida civil do governo e do Estado. Inclusive, o conceito de terrível. Segundo obras clássicas da área bíblica, a ideia do terrível é mais comum no antigo do que no testamento nascido a partir de Jesus.

Na leitura de um livro de 1769, de Alexander Cruden (1), o capítulo 45 dos Salmos apresenta a poética dos guerreiros terríveis/aguerridos, mas que lutam exclusivamente em razão da verdade, da pobreza e da justiça. A pobreza, na Bíblia, é o centro da luta, pois mobiliza a justiça e define a verdade do mundo que precisa ser transformada. E não esquecer que os Salmos são poesia, como os profetas são profecia, o que inviabiliza as interpretações ignorantes da família Bolsonaro e seus pastores.

Ora, depois do projeto da “nova” Previdência saído do Planalto e pouco suavizado pela luta dos bons parlamentares, ninguém pode crer que algum agente público de primeiro escalão em Brasília seja terrível na luta pela pobreza ou pela justiça. Ao contrário. Outrossim, o que se lê nos textos bíblicos é que ou o fiel luta pela pobreza, contra a opressão, ou não pode falar em verdade e justiça, porque nesse caso seria um mentiroso. Felizmente, segundo o mesmo autor clássico citado, entre os mais de duzentos nomes ou cognomes que Jesus recebe, nenhum se aproxima do conceito de terrível.

A senhora ministra Damares é terrivelmente incapaz de entender os direitos humanos. Ela e suas comissões enviesadas não conseguem entender os direitos das pessoas que sofreram sob a ditadura cívico-militar de 1964 e, deste modo, vão levando de barriga carros de processos que lhes caem nas mãos. Tudo isso somente para parecerem fieis à loucura imperante. Damares imagina que leva o ministério sob o domínio de sua verdade, incluindo várias viagens, para lá e para cá. Mas tudo não passa de tergiversação.

O senhor Salles é bizarro com seu modo bem elaborado de dizer o nada. Desconhece terrivelmente a cultura indígena, mas é capaz de sacrificar as boas relações com países europeus a favor de arrancar dinheiro de onde não pode, o Fundo Amazônico, para pagar indenizações. Está diariamente desarrumando seu ministério no preparo de novos avanços a serviço do latifúndio, do desmatamento e da suposta inserção dos índios no mundo dos brancos. Se não conseguir, estaremos salvos. Salles não imaginou que tenha existido no planeta o senhor Claude Lévi-Strauss. Se soube, nada leu. Se leu, nada significou para ele.

Do senhor ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, o que dizer, que a terra é plana? Ou que estudos, pesquisas e larga experiência nada significam para ser embaixador? Basta ser terrivelmente qualquer coisa?  Já não basta que pai e filho tenham jogado na mídia o tema das fritadas de hambúrguer para que houvesse crítica, memes ou gozação e em seguida o pai entrasse, terrivelmente sério, a confirmar a embaixada para seu rebento? Será que já não conhecemos os métodos antigos de autoritários? A mãe do colunista diria: essa gente joga verde prá colher maduro.

Agora surge a notícia de que no ministério da saúde suspendem-se contratos de produção de medicamentos fundamentais para os pobres desta terra. A despeito de tímidos desmentidos, o que se deve acompanhar, pelo congresso, pelo judiciário e pelos movimentos sociais é se os necessitados receberão nos próximos meses e anos os medicamentos que lhes garante a vida. O discurso do ministério é terrivelmente insuficiente.

Terrível e terrivelmente são modos e atos positivos dentro da gramática do poder enlouquecido no Brasil. Contra a lógica e contra a história. Tudo o que é pensado de modo amalucado é bom e toda a reflexão acadêmica, que dura muitos anos para chegar a conclusões, é bobagem. Especialmente se vier de instituição pública.

Este colunista enviou carta aberta ao senhor Weintraub com sugestões do que já existe no MEC e no Conselho Nacional de Educação para a retomada e o avanço de projetos matriciais a favor da educação básica. Algumas semanas atrás veio este senhor a público para tratar de creches, escola de tempo integral, escolas militares e base curricular. A crítica imediata feita por educadores (entre os quais Weintraub não se encontra) nada significou, pois o ministro e seu presidente já conhecem a “verdade” e estão liberados de qualquer oitiva às críticas e ponderações de educadores e pesquisadores do país. No entanto, o jornal Folha de São Paulo de 15 de julho informou que houve cortes significativos nos investimentos para a mesma educação básica. Ora, que coisa de fato terrível! Anuncia-se um programa decalcado, apressado e nada original e, ao mesmo tempo, revela-se o corte que inviabiliza o mesmo programa. Será que os milhões de eleitores do senhor Jair Messias se interessam por este fato? Ou ainda não acordaram do seu sono? Cabe acompanhar, além dos dados do programa proposto, da possibilidade de construir os colégios militares, para os quais certamente o senhor Jair Messias se empenhará terrivelmente. Outro fenômeno nonsense no governo sem sentido humano para as maiorias do país desigual e injusto.

A essa proposta se segue o Future-se, também do MEC. Uma colagem sedutora de documentos da OCDE, para onde quer ir Bolsonaro, com apoio do Trump. No entanto, faltam os componentes principais de um projeto universitário: o ensino e a participação dos corpos docente/discente, a pesquisa e a diversidade brasileira e a extensão de serviços para situações tão diversas e desafiadoras.

Nesse ponto, cabe afirmar que o Future-se é inferior aos documentos da OCDE, que buscam centrar-se na pesquisa e no ensino e, em torno desses valores, pensam a gestão universitária. Será importante que os reitores e a Andifes localizem os documentos-fonte do MEC e reflitam neles à luz de suas missões como instituições ao mesmo tempo muito distintas no espaço e no tempo e com projetos regionais e nacionais a realizar. As explicações cheias de luz e pompa que os agentes públicos do MEC deram não são mais do que balão de ensaio da terrível ausência de proposta de educação. Ademais, elas servem muito mais para organizações do que para instituições. A universidade não é mera organização.

O adjetivo e o advérbio estão a causar delírios de bajulações, palmas e vivas. A semântica bolsonariana do terrível/terrivelmente deve ter ainda um tempinho de vida e ser assunto de púlpitos, celebrações e talvez orações midiáticas. Mas passará como as contradições inúmeras já em fogo-morto desde o início de janeiro. Terrível mesmo é suportar a citação repetida, mas essa é uma obrigação cívica necessária para construirmos a consciência de que o governo no poder não tem como dar certo. A hipérbole como forma de governo vai, continuamente, ampliando a consciência popular de que a gente que hoje reina não tem nada a ver com o país real em que vivemos. Este, e qualquer país real em desenvolvimento, não é regido por hipérboles, mas por necessidades e desejos indispensáveis, especialmente de justiça e equidade, construtoras da paz social.

(1)”A Complete Concordance to the Old and New Testament”. London: Frederick Warne and Co., 1769

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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