Luiz Roberto Alves

20 de abril de 2020, 22h09

Aquele que despreside

Leia na coluna de Luiz Alves: "O despresidente do país está a nadar de braçada, por enquanto"

Foto: Marcos Corrêa/PR

Hoje, no vigésimo dia de abril do centésimo trigésimo ano da República e 32 anos da promulgação da Constituição democrática, desvelou-se o que se acumulava nos porões do Planalto e desentranhou-se o desapego a qualquer valor que não obedeça ao desatino. O despresidente desdisse as desidratadas promessas de democracia e só cabe, a partir de agora, que os movimentos das pessoas democráticas carreguem o Brasil como ainda não se tinha pensado em fazer. Não é uma crise de representação, mas de razão.

A desrazão virou totalidade discursiva e nada, absolutamente nada, pode ser suposto no desmonte daquele cargo naquele lugar de poder. Ele não pode ser mais que o despoder.

É verdade que alguns setores da população brasileira brincam com fogo, inclusive muita gente que se supõe “evangélica”, mas isso é comum quando a biruta religiosa se vira na direção do mito: a fé se despede, destruída. Especialmente quando a liderança religiosa é medíocre.

A nave da desrazão acelerou, descontrolada, e nos pegou confinados/as, exatamente porque nós nos assumimos como seres de razão, que racionalizamos os fatos e fenômenos que afetam o mundo. Confinados, mas não desarrazoados.

O despresidente do país está a nadar de braçada, por enquanto. Cutucou, do fundo de seus transtornos já senhores de sua personalidade, os poderes de qualquer ordem e encontrou uma claque que descortinou e claqueou um sonho mítico: a ditadura do desarrazoado, do desatino. Certamente dirigida pela pessoa eleita para desmantelar a democracia. Portanto, nada desprezível no desapego de quaisquer valores democráticos. Infelizes os que o acompanharem, militares ou civis, exceto os que não vivem neste mundo senão para se aproveitar do fogo fátuo de alguma vantagem.

A cutucada rendeu discursos racionais, certamente desprezados por ele, o destudo de bom. O trôpego desatinado (não o ouvi falar ao vivo, mas as reações dizem tudo) conseguiu o que desenhava desde antes da eleição de 2018: desbragar e descontinuar a já algo claudicante democracia que temos.

Ao menos aquela entendida como a sociedade de direitos efetivos, que não permitiria a existência de 50 milhões de miseráveis.

Desdenhados estão todos os que trabalham pela vida. Todos e todas os/as que trabalham com medicina, enfermaria, ambulâncias, equipamentos médicos, limpeza, saneamento hospitalar, serviços essenciais e aqueles que exercem liderança política a favor da verdadeira economia, a vida no oikos.

O desatino atentou contra todos, sem distinção. Desdenhados especialmente os idosos e as crianças, de quem se exige o sacrifício ritual.

Teremos, pois, de entender que o despresidente não existe, não é. Mesmo neste domingo, debalde foi a racionalidade feita discurso de autoridades daqui e dali, pois supôs outra racionalidade no circuito da comunicação.

Não, do outro lado não há nada além da descomunicação, que é o gesto desenfreado dos que nada ouvem, nada leem e tudo desconsideram.

As imagens deste 19 de abril superaram quaisquer expectativas ruins e só o desapego nacional ao despresidente poderá iniciar algo novo na República Brasileira, pois temos a obrigação ética de fazer da democracia não uma lei, ou um arcabouço de lei abocanhado pela estultice, mas uma práxis, a rigor ainda pouco experimentada, pois porta contradições do sistema partidário e revela antipatia ao poder judiciário, dada a multidão dos injustiçados que esperam, esperam e morrem de esperar pela justiça. A democracia terá de ser movimento, como foram os indispensáveis os movimentos estéticos e literários do mundo, que sempre tiveram bandeiras à frente do seu tempo.

Já houve uma submissão nada recomendável, também desdenhável. O senhor Alcolumbre sugere ao estulto, no mesmo domingo, um desatino, uma nova PEC, chamada de verde-amarela, que não poderá fazer outra coisa senão humilhar a juventude e enfiá-la no subemprego e na desilusão diante do ato de estudar e se aperfeiçoar em troca de nada. Ora, senhor Alcolumbre, também o senhor é um dos desarrazoados ou não sabe com quem está a buscar comunicação e razão?

O despresidente não participou de ato contra o isolamento social. Teríamos de ser tontos para pensar assim. De fato, liderou a única ação que sabe fazer (e muitos não viram antes): a desobediência desatinada ao direito, à justiça e à razão.

O prefixo latino des (usado no texto à exaustão) foi o que melhor coube ao momento, pois quebra, desmancha, fracciona e até inverte fatos e fenômenos, como o Brasil se acostumou a ver e sofrer nesses dezesseis meses de desgoverno.

Quem só sabe fazer desatinos, aglutinar despossuídos de razão e fazer desandar direitos, não deve ir além da condição de despresidente. O Brasil não merece essa desGraça. E a graça de tudo é que o país se recrie como democracia por um movimento de sociedade organizada em cada lugar da nação mobilizada. Mais que nunca, unidos na separação. É hora do tino e não de qualquer destino.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum 


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