Luiz Roberto Alves

24 de setembro de 2019, 23h41

Brasil, um país que se apequena. Até quando?

O discurso de Jair Messias na ONU é o exemplo maior do pais diminuído e amesquinhado pela grupo que domina o país

Bolsonaro no "gabinete de crise" sobre a Amazônia, com o filho, Eduardo, o chanceler Ernesto Araújo e o assessor, Filipe Martins (Reprodução/Twitter)

A família Bolsonaro e seus associados são capazes de enganar ainda por um bom tempo setores da sociedade brasileira.  Há fatos na história republicana que comprovam a afirmação, como as mentiras sobre iminentes golpes comunistas, as notícias implantadas nas redes que fabricaram inimigos e o lengalenga jurídico que trabalhou a favor da injustiça e levou à cova um número jamais contado de cidadãos à espera da parte que lhe cabia. As experiências criminosas da ditadura 1964-1985, os exílios e as aposentadorias forçadas de muitos ajudam a completar os cenários da burla e dos símbolos do mal. O discurso de Jair Messias na ONU é o exemplo maior do pais diminuído e amesquinhado pela grupo que domina o país.

Quantas famílias brasileiras, geralmente mudas e destroçadas, poderiam narrar suas verdades duras e negadas pela família Bolsonaro?

A violência simbólica bolsonarista tem método. Neste São Cosme e Damião não haverá doces para Ágatha, Kauê, Kauãn, Jenifer e tantos outros e outras, crianças e adolescentes, mortos na mais pura condição de inocência por balas nada perdidas. Como diria João Cabral de Melo Neto, estas foram as balas que lhes couberam. Sem nenhum açúcar. Ocorre que imediatamente a uma nova ocorrência de injustiça, a família no poder da República joga mensagens para cobrir de fumaça os olhos e a consciência dos incautos, seguidores e indefinidos, que são alguns milhões. Talvez até em certas instituições de ensino e pesquisa, especialmente de parte de quem esquecer do discurso arrogante do presidente na ONU, que supervalorizou o que fez na Amazônia (o que de fato não fez!) e não teve uma palavra sobre o excelente sistema de pesquisa que foi criado no Brasil antes do seu governo, agora em xeque.

A pequena Ágatha foi sepultada. Ao mesmo tempo de seu sepultamento correspondem duas emissões de Twitter, uma de Eduardo e a outra de Carlos Bolsonaro (Deus, que pena que temos de tratar deles!). O enterro da criança teve algum protesto e a perspectiva de um grupo de juristas ir mais longe do que já se foi nas balas que encontraram os corpos dos demais inocentes. As emissões postas nas redes pelos dois tratam do MEC, do senhor Weintraub, de pesquisa, nada a ver com a vida interrompida da última criança martirizada sob o poder do juiz que ora se candidata a qualquer coisa, inclusive a ditador, menos a governador, senhor Witzel.

Os dois textos da família Bolsonaro são parentes na expressão formal e nas supostas mensagens. Eduardo busca desmoralizar os que falam de modo bonito e roubam, que empurram goela abaixo ideologia de gênero e feminazismo(?) no ENEM. Usa o verbo falar no infinitivo. Nega qualquer ritual para o cargo de ministro do MEC e conclui com a louvação da “banda q. de bermuda e chinelo fazem (sic) as coisas acontecerem”. Carlos escreve para ele mesmo, noutra língua. Com esforço e generosidade (será que o inominável de Virgínia também foi professor de Português dos quatro senhores?) se pode depreender que ele vê o governo do seu pai a investir na pesquisa que promove o bem do país. O resto do texto não guarda qualquer organização de sentido.

Digamos que essa gente teve uma educação escolar precária. Muitos brasileiros também a tiveram. Mas as universidades conhecem milhões de rapazes e moças que buscam tanto escrever melhor como trabalhar dignamente dentro da ciência e da área escolhidas, pois há igual importância nos saberes denominados ciências da natureza, ciências humanas, ciências sociais aplicadas, artes e matemática. Esses quatro senhores, com poder oferecido por uma população que ainda considera “verdade” o texto grafado da mídia repleto de violência contra o “outro”, não revelam nenhuma intenção de se comunicar melhor, pois continuam a crer que o entulho produzido na campanha eleitoral continua a valer no governo da nação.

Ademais, há milhões de brasileiros que escrevem bem (o bonito não importa; uma bobagem do Eduardo) e não roubam e não praticam nada do que ele afirma em sua generalização bruta, ignorante e cáustica. Com certeza, hoje este senhor está a garatujar para um terço dos seus eleitores, pois a parte mais sensível já escapou dele por não suportar tanta asneira, como feminazismo e ideologia de gênero. Qual ciência daria guarida a neologismos nem de longe trabalhados com o rigor da pesquisa? Ora, trata-se do caso típico de fuga da escola e de acomodação na ignorância.

De onde tiraram esses rapazes a ideia de que suposta ciência que “dá resultados” está a receber recursos do seu pai? Em primeiro lugar, seu pai não oferece recurso nenhum, pois o dinheiro é nosso, povo trabalhador. Ele tem a obrigação de coordenar a distribuição, o que faz de modo absurdo e lamentável, o que, nesse ritmo, levará a ciência brasileira como um todo a vários anos de atraso. O Future-se, proposto por um membro da banda, o senhor Weintraub, é cortina de fumaça para alguns setores incautos da universidade brasileiro, que existem, embora em número decrescente. Se o governo Bolsonaro pretendesse, de fato, investir verdadeiramente em ciência, até por razões simbólicas investiria nas ciências da linguagem, pois ampliaria o repertório de conhecimento dos próprios filhos, melhoraria sua expressão ora canhestra e, por extensão, faria das várias outras ciências um conjunto de projetos com maior competência e performance na comunicação para o país-continente. O Brasil ganharia muito, embora os varresse mais cedo do poder. Mas se deve reconhecer que, governado por essa gente, nossa terra a cada dia fica menor. Quem sabe a grandeza roubada pela ignorância permitirá melhor conhecimento e maior mobilização.

Não tem, pois, valor nenhum afirmar que o governo do pai está a investir em resultados científicos para o bem do país, pois toda ciência tem, necessariamente, resultados, marcando suas diferenças nos métodos, nas formas de sistematização, na diferenciação de objetos e na distinção de alvos. O estudo do genoma e das etnias, que integra vários saberes científicos, é um par de destaque na luta pelo conhecimento. Trabalhar sobre as linguagens e sobre a fisiologia do cérebro tem levado, e levará, a novos saberes da maior importância. Complementam-se muito bem (para quem estudou ao menos dois anos de história em escola digna do nome) a física e antropologia, a sociologia e os estudos biológicos, as artes e as matemáticas. O desamor, o preconceito e a ignorância ficam por conta de quem fugiu da escola. O que o mundo conhece, de fato, é que Bolsonaro está a sufocar o sistema científico brasileiro, que já incluiu milhares de pesquisadores e realizou trabalhos indispensáveis a favor da saúde, da educação, da cultura, do saneamento e dos transportes dos brasileiros.

Ágatha, Jenifer, Kauê, Kauãn, marias e josés do mundo amado pelos educadores e pelos pais, arrancados da vida pela força dos que não operam o cérebro quando apertam seus gatilhos, além de figurarem na lista que não terminou (porque a corja está presente em nossas vidas), ainda servem como derivativo para o arremedo de linguagem besta e mentirosa que os não-educados teimam em jogar sobre nós. E não nos venha o senhor Mourão com sua inverdade sobre os policiais mortos. Todo o pais sempre esteve preocupado com a segurança dos que fazem a segurança, muitas vezes mortos por erros de estratégias e táticas no enfrentamento do crime.

Até quando o esforço concentrado de enganar e burlar consciências continuará?


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