Luiz Roberto Alves

29 de julho de 2019, 19h23

Ciência para superar o escárnio do governo Bolsonaro

Luiz Roberto Alves: “Galileu Galilei sempre teve razão: a terra não é plana, como não é medíocre o cérebro das novas gerações de brasileiros e brasileiras”

Foto: Divulgação

Cerca de trinta mil pessoas, entre inscritos e curiosos, transitaram pelos espaços da UFMS-Campo Grande para ver, fazer e compartilhar Ciência entre 21 e 27 de julho, embora o senhor Jair Messias não veja produção científica nas instituições federais de ensino, pesquisa e extensão. Ninguém tem culpa da cegueira e da atrocidade interiores. Malgrado isso, a ciência eppur si muove.

Quem acompanha a SBPC, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, desde os tempos da ditadura cívico-militar, pode observar que suas reuniões anuais se abrem continuamente para a difusão científica entre estudantes dos vários níveis, famílias e demais cidadãos que acreditam na educação e na ciência como fundamentos da sociedade democrática e do progresso social.

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Nesta 71ª reunião, primeira no Mato Grosso do Sul, estiveram lado a lado ciência, cultura e política. A apresentação de seiscentos pôsteres de todas as áreas do conhecimento nos fizeram lembrar que mestres das universidades brasileiras estão a orientar estudantes sem o preconceito que exala do governo central, capaz de separar ciências da natureza e ciências da cultura. Ora, suas diferenças não são de valor, pois se complementam na busca de explicações para os fenômenos da vida e do mundo, mas sim de métodos, procedimentos, estratégias e objetos de trabalho. Por isso, já não vemos a hora em que termine esse ciclo brutal de mando político capaz de conspurcar o que a história da educação e do ensino já tinham estabelecido como fundamentos. Como se sabe, um pôster, quer de menino/a do ensino fundamental, quer de acadêmico/a, significa longo tempo de trabalho, com observações, levantamento de dados, experimentos, análises e sínteses, o que vale para todas as ciências.

Ocorreu nessa reunião que os espaços dedicados à juventude estavam próximos aos palcos, onde foi possível ver e ouvir quer a música regional matogrossense, quer o rap/hip hop, ou encenações clássicas, sempre com a participação de estudantes, professores, funcionários e pessoas interessadas na vida universitária. Ademais, as muitas instalações de instituições científicas com mostras do seu mister profissional e orientações para as diferentes áreas do conhecimento se transformaram numa grande mostra da cultura científica brasileira.

Não nos enganemos, o que não pode ocorrer quando se trata de ciência e cultura é que haja contingenciamentos estéreis, que sinalizam sempre a existência de privilégios contábeis em governos barbaramente liberais, como o atual no Brasil. Se a juventude tiver bolsas de estudo para iniciação científica desde o ensino médio e sequência, fará até chover, por via de seus desejos e competências científicas.

Por esta razão, pareceu insuportável à juventude reunida no teatro Glauce Rocha, dia 21, que o representante do indesculpável ministro da Educação, sr. Weintraub, viesse com seu canto de sereia a apresentar o Future-se, projeto de auto-venda da universidade pública brasileira, que sugere diminuição de financiamento governamental e a corrida atrás de patrocínios capazes de desequilibrar as relações entre pesquisa básica e pesquisa aplicada e, enfim, pesquisa, ensino e extensão de serviços à comunidade num país imensamente desigual.

Felizmente, o tal Future-se já foi competentemente criticado e deve ter o mesmo destino do Pacto que seria firmado entre Executivo, Legislativo e Judiciário, isto é, o nada. O MEC ainda voltará a ser sério, dirigido por pesquisadores e educadores. Aí serão construídas políticas de educação nos termos dos documentos das CONAES, das Diretrizes do CNE, do PNE e dos que encaminham o Sistema Nacional de Educação.

Tomara a inteligência brasileira não fique de joelhos, ou cócoras, diante das pressões, do escárnio, do deboche e dos crimes verbais dos plantonistas de Brasília. Por enquanto, vários segmentos dos poderes estão nessas posições vexatórias. Por isso, cresce a violência física e simbólica em todos os cantos do país. De fato, este país nunca conseguiu oferecer garantias de que significativos blocos de elite e mesmo inteligência e poder não se submetam aos plantonistas, eleitos ou indicados, e esse é o único “jeito” pervertido de existir na sociedade brasileira. Os “jeitos” dos pobres são, de fato, frutos da violência construída na história.

Mas a SBPC de Mato Grosso do Sul produziu mensagens para as próximas reuniões científicas. Foram aprovadas 22 moções pelos quase trezentos sócios presentes. Elas caminharam entre proposições de política científica, repúdio a desmonte de programas e projetos, uso de medicamentos, respeito às terras indígenas e quilombolas, ampliação de sócios jovens e dignidade das instituições de fomento à pesquisa diante da competência dos jovens em acelerar a ciência a favor do desenvolvimento econômico, social, cultural e educacional. Tais moções e proposições já serão conhecidas da sociedade brasileira nos próximos dias. Convém ficar atento a elas.

As próximas reuniões científicas do Brasil, em quaisquer áreas do saber, estarão preparadas para agendas e pautas capazes de dar continuidade aos sinais e valores estabelecidos pela SBPC. Em primeiro lugar, ampliar a presença de jovens, a fim de que eles próprios ganhem estímulos e confiança na criação e compartilhamento dos conhecimentos e saberes. Do mesmo modo, muita atenção às leituras críticas diante das informações desencontradas e mesmo censuradas que advêm dos organismos governamentais e das mídias que visam somente o lucro e se valem dos acadêmicos exibicionistas. Em terceiro lugar, com a mesma importância, destaque máximo para os sentidos da educação, da ciência e da cultura na construção dos saberes e seu papel de investimento para as mudanças sociais.

Os nossos dilemas não terão de ser maiores do que as nossas forças. Galileu Galilei sempre teve razão: a terra não é plana, como não é medíocre o cérebro das novas gerações de brasileiros e brasileiras.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


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