Luiz Roberto Alves

29 de novembro de 2019, 22h44

Cultura e cruzada cultural no governo do Sr. Bolsonaro

Luiz Roberto Alves: "O presidente é responsável único e direto por tudo o que essa trupe fizer. Não tem direito de produzir alienação e depois fazer-se de desentendido. É ele que está fazendo sua obra de governo na cultura, pois os agentes públicos são suas mãos e extensões do corpo público"

Roberto Alvim e Bolsonaro - Foto: Reprodução/Facebook

Creio que na saída deste governo olharemos para os fenômenos culturais do país imenso e diremos como Galileu: eppur si muove. E daremos razão a Mário de Andrade, seus mestres e seus discípulos, para quem a cultura floresce sob autoritarismos.

No entanto, sofreremos. Os mais sensíveis e de coração debilitado correrão riscos diante do horror das falas e feitos da trupe de Bolsonaro na direção institucional da cultura. E não venham nos dizer que nada se pode analisar porque eles estão apenas começando… Enfim, cientificamente ninguém pode dar mais do que tem ou se “converter” à construção simbólica da equidade (que é a Cultura) dentro do governo do capitão Bolsonaro, que tem horror à cultura como valor de autonomia, à liberdade de expressão, à imprensa que busca o real e mesmo ao uso estético dos temas extremos do humano, o que implica o amor, o ódio, os gêneros, o sexo, a morte, as grandes transformações e os desejos.

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Vamos entender a coisa claramente: o presidente é responsável único e direto por tudo o que essa trupe fizer. Ele assinou atos de nomeação. Não tem direito de produzir alienação e depois fazer-se de desentendido. É ele que está fazendo sua obra de governo na cultura, pois os agentes públicos são suas mãos e extensões do corpo público.

O jornal Folha de São Paulo nos apresentou em 29 p.p. todo o grupo dirigente da cultura brasileira e breve biografia de cada um, cada uma. Merecem todo o respeito pela sua formação; menos pelo que já saiu de algumas bocas e talvez muito do que ainda sairá.

Se desejássemos o pior, não gastaríamos um minuto com a questão e deixaríamos rolar a nave cultural bolsonarista, até porque os agentes públicos nomeados e em processo de nomeação dão a impressão de que sabem tudo o que irão fazer, o que é o primeiro e brutal engano no país que comporta uma das maiores diversidades culturais do planeta.

Mas, quem vive a cultura como educador e sabe dos males sofridos pela educação no enviesamento da cultura, não deve deixar de refletir a favor de uma ação cultural para um país-continente, assunto jamais bem compreendido, inclusive na obra clássica sobre o tema, a Cultura Brasileira, de Fernando de Azevedo. Tanto o grande mestre como seus seguidores, construíram propostas culturais – às vezes de muito bom nível – porém, com leitura elitista, de certo “Brasil”, de certo povo, de certa tendência. E o fizeram como se tivessem considerado os milhões e suas desigualdades regionais, de geografia, de classe, de gênero, de tradição, de interesses, de acesso aos bens culturais etc

O secretário já nomeado, Sr. Alvim, começou por achar que a atriz Fernanda Montenegro é sórdida e depois avançou para a proposta de uma guerra cultural conservadora. Pois bem, já se tem aí o diapasão para a ação bolsonarista na cultura, ou seja, há um setor “sórdido” e outro setor que se empenhará numa cruzada conservadora, bem ao gosto do chefe maior. A fala de Alvim significa, no mínimo, obediência; no máximo, pura estupidez e nell mezzo del cammin  uma intenção de marcar posição diante de outros governos, de quem não recebera tal posto de comando.

O senhor Alvim propôs a criação de uma “máquina de guerra cultural”. Será que esse cidadão alcançará os ribeirinhos e pescadores para fazê-los soldados da guerra? Os componentes dos movimentos LGBTQ para sentarem praça a favor de sua cruzada? Ou quem sabe aliciará quilombolas para marcharem juntos nessa santa inquisição e ainda os membros das milhares de folias de reis para cantarem a favor da espada e do calibre 38?

Pouco provável, pois há muitas camadas culturais que separam essas dimensões da cidadania brasileira do pensamento da criatura nomeada pelo capitão-presidente, que é do sudeste, branca, classe média, com várias camadas de informação, talvez discípula do guru americano. Então, serão necessárias gerações para tal empreitada, mesmo que conseguisse alinhamento imediato do antiministro da Educação, o sr. Weintraub.

Alguns bons intelectuais já cuidaram do tema das guerras culturais, inclusive o nosso brilhante Prof. Teixeira Coelho. De modo geral, há um cheiro forte de 3ª guerra mundial visibilizada pelos confrontos culturais, que incluem os fenômenos religiosos e suas vertentes armadas. Embora a cultura continue bem definida como construção simbólica entre pessoas, grupos e instituições, essa linha de pensamento vê nela posicionamentos crescentemente radicalizados, pois tal construção trabalha a serviço da conquista do espaço e do poder fundamentada em valores supostos como efetiva cultura de um povo, pelo menos de certas lideranças altamente capazes de persuasão.

Será isso a que se dedicará Alvim, Sérgio Camargo, Katiane Gouvêa e os/as demais?

Veremos acontecer uma ação cultural ao modo talibã, ao jeito olavista, à sombra dos pastores mal chamados de pentecostais ou talvez dos latifundiários e seus trabalhadores escravizados?

Alvim e sua gente terão de fazer a análise do país continente, ensarilhar as armas e atacar. Pode ser que não tenham muito tempo, seja pelos humores do chefe, seja porque é um governo sem destino, incapaz de controlar sequer processos monetaristas de organização da economia.

Continuar a xingar pessoas será um sinal sórdido da cultura familiar e pessoal desses agentes públicos. Martelar sobre a Lei Rouanet e governos anteriores significará incompetência. Esse grupo deve ter pressa em aliciar o número maior possível de conservadores/as, com alguma inteligência e compreensão dos processos de construção, sedimentação e avaliação da cultura, a fim de produzir as grandes transformações que desejam. Se não o fizerem, na saída deste governo (Que o D’s da cultura libertadora nos livre dele! – em menos de um mês não sobrarão nem as cinzas de que geralmente são feitas as cruzadas culturais costuradas pelo ódio, pelos ressentimentos, pelo horror ao outro, pela incompreensão das diferenças e pelo desamor na construção da sociedade democrática. As culturas brasileiras, plenamente pluralizadas, sobreviverão. Elas encontraram formas de vicejar diante do Santo Ofício e do Fascismo. E não olharam para trás a fim de não correrem o risco da mulher do piedoso Ló.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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