Luiz Roberto Alves

05 de novembro de 2019, 22h46

Diante da encenação farsesca, perdeu o povo brasileiro

Luiz Roberto Alves: “O historiador do futuro não terá por que rir a despeito de trabalhar sobre as farsas. Acabrunhado, anotará até onde um povo pode perder quando se ilude e denomina reforma o que é deformação do que de bom lhe trouxera sua constituição cidadã”

Bolsonaro cumprimenta o presidente do Senado, Davi Alcolumbre - Foto: Marcos Corrêa/PR

Em futuro próximo, o historiador mostrará que este grande país foi o exemplo mais acabado entre as nações da implantação do turbo-liberalismo e, portanto, o país-cobaia do governo que não tem no povo diverso e desigual qualquer sustentação e respeito.

Na manhã do dia 5 de novembro, o senhor Alcolumbre recebeu das mãos da dupla Jair Messias e Paulo Guedes um conjunto desgrenhado e amarfanhado de folhas soltas, sem capa e sem distinção. O volume inédito de papéis soltos era um conjunto considerado muito importante (por eles, os homens ali reunidos) de reformas. Reformas apresentadas sem formas, deformadas. Em seguida à entrega, alguém carregou rapidamente os papéis às costas do presidente e o senhor Jair Messias espichou o pescoço para dizer algo ao burocrata diligente. Sabe Deus o quê.

Depois da cena bufa, o presidente do congresso enfatizou que nenhum outro congresso terá reformado tanto no Brasil. O historiador do futuro também dirá que jamais um congresso rasgou tantos fundamentos da Constituição Cidadã, a fim de transformar o país numa caricatura de que o Chile agora se arrepende e cujas lições estão sendo aprendidas pelos países da América Latina, menos o Brasil. Disse mais o presidente amapaense do Congresso, que o poder legislativo está trabalhando muito. Ora, embora esteja a trabalhar bem menos do que um trabalhador médio brasileiro que ganha dois mil reais por mês, trabalha sim, mas também o teatro farsesco e as óperas bufas exigem bastante trabalho dos seus atores.

Tão farsescas se revelarão as reformas desse infausto ciclo para o historiador do futuro que o pequeno núcleo bolsonarista do Planalto será conhecido pelas gargalhadas que deve dar depois da apresentação das ramas canhestras de papéis sob o foco de toda a grande mídia e de risonhos circunstantes. Ora, pobre grande mídia!

Mas reconheçamos. Pois não é que o simulacro é quase perfeito: segue junto à proposta o que alguns jornalistas chamam de “bode na sala” da dupla Guedes-Jair Messias, isto é, o fim dos pequenos municípios empobrecidos e endividados. Bode na sala é conceito fraco. Baudrillard disse melhor: é simulação, movimento farsesco no jogo de egoísmos. Deste modo, haverá uma gritaria geral contra o fim das cidadezinhas institucionalizadas como municípios, sempre úteis como fornecedoras de cabos eleitorais aos disputantes de eleições. Ao fim e ao cabo, haverá trocas e barganhas, muita conversação e os principais itens da “reforma” passarão, em louvor ao ultraneoliberalismo, que já se buscara superar na Carta Magna em nome da cidadania. Já vimos muitas simulações na reforma trabalhista, mais ainda na previdenciária e se segue a ópera bufa do poder simulador.

De fato, nenhuma cidadania é possível dentro da cartilha liberal, especialmente àquela criada “nas coxas” de supostos intelectuais latino-americanos e que não tem outro apanágio que não seja aumentar a riqueza dos ricos e aprofundar a pobreza dos pobres. Tudo feito de modo legal! E o poder judiciário não será ameaçado, exceto se meter o bico para além do se espera dele.

O que tem faltado no pensamento dos legisladores pode ser um desejo impossível, isto é, alguma reflexão linguística e antropológica. Pois bem: a construção linguística é o sinal melhor do seu construtor, a lembrar de Jakobson e Lévi-Strauss. E como constroem frases e períodos os senhores Guedes e Jair Messias? O primeiro com absoluta volúpia (Quero um trilhão! Me deem um trilhão!), sem pontos e vírgulas como se tivesse medo de cair no oco sem beiras e o seu ouvinte pudesse obstaculizar sua fala em processo de jactância. Um movimento canibalesco de linguagem. O segundo não usa de fato frases, nem períodos; somente tópicos quebrados em nível bastante baixo de linguagem, como se sua garganta quisesse acionar logo as mãos para pegar o pescoço do infeliz interlocutor. A exceção é quando fala com bajuladores, pois neste caso sequer precisa falar; basta agradecer.

Entendamos o processo científico que subjaz no fenômeno antropológico: essa linguagem é o limite desses senhores. Então, é o máximo que eles podem dar, pois ninguém dá o que não tem. Ora, quando eles se juntam para jogar nas mãos e no colo dos legisladores um punhado de papéis chamado de reformas não podem apresentar nada que não seja um decalque de apanhados livrescos aplicados em alguns momentos da vida de distintos países, com resultados duvidosos e muitas vezes alteradas até mesmo por organizações como a OCDE e o Banco Mundial.

O exemplo do Chile é o mais vigoroso e dramático até hoje conhecido contra tais projetos, muito distantes das experiências de Alemanha, França, Áustria, Holanda e Portugal. Há, sempre, elementos liberais na composição legislativa dos países, mas não uma cartilha de simulações que pretende criar uma unidade deformada no pais-continente pleno de desigualdades! Aqui não caberia uma cartilha decalcada de liberalismo para um povo-cobaia. É isso que a história mostrará.

O historiador do futuro não terá por que rir a despeito de trabalhar sobre as farsas. Acabrunhado, anotará até onde um povo pode perder quando se ilude e denomina reforma o que é deformação do que de bom lhe trouxera sua constituição cidadã. E até onde ele sofrerá o único peso e terá a culpa única da incapacidade governamental e legislativa de pensar e discernir sobre o modo de criar progresso social na diversidade.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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