Luiz Roberto Alves

28 de maio de 2019, 06h00

“Eu quero um trilhão. Me deem um trilhão…”

Luiz Roberto Alves: “Guedes representa o progresso do atraso. E seus estudos em Chicago de modo algum atenuam o atraso, pois o pensamento universitário, as leituras e as pesquisas se movem a cada minuto”

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro - Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Se o fato ocorresse numa brincadeira de rua, pais iriam se alarmar com seu filho, pois Paulinho jogou na cara da meninada que, caso não ficasse com a bola, a camisa 10, a bomba de enchimento e o campo por ele escolhido, largaria todos na mão e iria embora. Para evitar apelos e ruídos, talvez viajasse para uma temporada na casa da tia.

Com certeza, Paulinho seria amplamente chamado de chantagista, pressionador, manda-chuva etc. No entanto, mutatis mutandis, a calmaria geral da mídia, as desculpas de sempre diante do impacto do discurso do ministro Guedes e as explicações dos aduladores sobre as frases fora de contexto deram o tom diante da reportagem da revista distribuída nacionalmente.

A maioria dos comentaristas da grande mídia se dirigiu para a outra perna das notícias do dia, aquela que trata dos radares a serem retirados das rodovias só porque o presidente quer fazê-lo, sem qualquer razão ou sentido. Ou por ter sido multado muitas vezes. Pior, deu-se credibilidade a uma fala do presidente acerca de alguém ficar ou não ficar ministro de seu governo, sucedida da rota palavra de ordem: se não for aprovada a reforma, será o caos. O armagedom.

A dupla Bolsonaro-Guedes é a criadora do caos, porque a palavra usada para amedrontar (com sucesso!) não dá conta do que ela mesma diz noutras situações, isto é, a base monetária e o tesouro nacional são fortes e a sociedade se move bem no interior dos diversos fundamentos socioeconômicos. Portanto, a teoria do trilhão visa outras coisas que não o cuidado social dos brasileiros.

“Quero a bola! Me deem a bola! Quero um trilhão! Me deem um trilhão!”

Que coisa feia está a suceder nesta terra grilada por Cabral em 1500. O discurso canônico da OCDE e do Banco Mundial dos anos de 1990, que ensejou o ultraliberalismo capitalista e que teve o seu ocaso na crise de 2007-2008 ainda é novidade por aqui e se presta a chantagear povo, parlamento e demais instituições republicanas por causa de uma reforma, a última panaceia brasileira dos tempos míticos. Mesmo quem diz que não se sente pressionado, obedece, porque iria obedecer de qualquer modo. Um berro a mais…

Ora, estritamente em razão dos movimentos demográficos de qualquer país, cabe de quando em quando alterar regras e normas instituídas na vida previdenciária, ainda que constitucionais, preservando a dignidade da pessoa que envelhece e estimulando novos modos de poupança dos jovens que se iniciam no mundo do trabalho. De fato, o fenômeno é parte do diálogo social das gerações mediado pelas representações eleitas. Mas nada disso justifica os berros ridículos em espaço público acerca do trilhão, pois se neste momento histórico a sociedade empobrecida e recalcada do país não pode oferecer o trilhão sob pena de ficar nua, o que fará além de se lembrar do Com que roupa eu vou, de Noel Rosa?

O senhor Guedes não quer reformar, mas ganhar um troféu de 1 trilhão para as demais fases do projeto turbo-liberal. De fato, seu nervosismo se enquadra nos riscos de não obediência aos supostos consensos do capital nos anos de 1990, ou seja, o dinheiro é um fetiche monetarista e não o móvel que impulsiona o que a economia deveria fazer, cuidar da casa e da gente da casa, especialmente da casa dos mais pobres, conforme sua acepção original. Guedes trabalha com estratégias e instrumentos de 20 anos atrás e faz parecer que tudo é novo nesta terra sofrida e que ainda aceita salvacionismos e mitos. O senhor Guedes representa o progresso do atraso. E seus estudos em Chicago de modo algum atenuam o atraso, pois o pensamento universitário, as leituras e as pesquisas se movem a cada minuto. Milhares de especialistas brasileiros muito bem formados (não somente na intenção) em Yale, Berkeley, Oxford, Harvard, Columbia etc não têm o direito de mover uma palha no galpão cuja dona é a dupla Guedes-Bolsonaro.

Deus, como foi possível que grupos formadores de opinião perdessem o orgulho! Há décadas, a criação jornalística, as diversas expressões estéticas e o humorismo, pela radicalidade de suas manifestações, produziam enunciados que eram compartilhados no país aberto, em que tanto estava por fazer. Num dos desenhos de Péricles, a personagem-tipo reagia: “Por cima de mim só a VASP”

Agora, um seguidor de modelos econômicos carcomidos, presente em nossa altura e com um poder confuso e contraditório, berra sobre nossos representantes, pretendendo ser ouvido no STF, nos demais ministérios e em todos os lugares onde pingam as gotas de suor e sangue dos brasileiros do eito, da bancada de trabalho ou da compra e venda de serviços. Berra e exige um trilhão. Se não lhe derem o trilhão, pega o avião, que não é mais da VASP, e vai morar fora dessa terra que ele pretendeu salvar por um trilhão. Vai para uma de suas propriedades espalhadas pelo velho e pelo novo continente.

Mas eu, eu mesmo, vou reler Navio Negreiro, de Castro Alves, enquanto o Congresso Nacional delibera sobre o trilhão, sob os olhos curiosos e interesseiros de governadores, ministros de todas as esferas, donos dos bens e meios de produção, OCDE, Banco Mundial e várias “aves de rapina”. Tudo por um trilhão, sem projeto, sem estratégias, sem objetivos claros. No grito!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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