Luiz Roberto Alves

11 de setembro de 2019, 12h12

Família e governo para não serem considerados

Luiz Roberto Alves: “Quando a sociedade organizada (oxalá muito em breve) crescer em consciência e volume de massa crítica verá que os dilemas postos serão inferiores a suas forças”

Foto: Reprodução/Twitter

É evidente que as orientações de como negar a democracia de Steve Bannon, a boca suja do inominável morador do estado de Virgínia e os diversionismos do ventríloquo Trump foram profundamente assimilados pela família do senhor Jair Messias e seu governo. Acrescente-se a histeria e a volúpia de poder de alguns pastores do falso pentecostalismo e o quadro se fecha.

O país dos pobres, dos educadores, dos estudantes, dos pesquisadores, dos trabalhadores e trabalhadoras dos campos público e privado sofre diariamente a sanha do mal, que consiste em jogar sujeira pelo ventilador bucal, chamar a atenção da mídia e das redes e, por trás dessa farsa, operar a efetiva destruição dos laços que unem o Brasil à sua Constituição de 1988 e ao já difícil acúmulo democrático-republicano.

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Todo o plano segue essa lógica e os títeres executam somente os movimentos e a vociferação, por vezes associados ao texto curto em sofrível língua portuguesa, impossibilitada de superar a métrica do Twitter para não se perder no oco sem beiras.

A Amazônia arde insistentemente e eles dizem disparates a cada momento: eis a lógica diversionista do mal.

Há um erro de nossa parte, como sociedade de grupos, indivíduos e instituições, isto é, dar atenção aos títeres. Por enquanto, ainda se justifica o erro, pois os que negam a democracia a botinadas, revólver no coldre, ofensas e palavrões têm o poder da caneta do Planalto e seu plano traçado de fato faz mal.

No entanto, quando a sociedade organizada (oxalá muito em breve) crescer em consciência e volume de massa crítica verá que os dilemas postos serão inferiores a suas forças, que os discursos de redes sociais só servirão para mobilização, que os textos e falas da grande mídia ficarão perdidos no cotidiano insosso e que a nova palavração social e o novo esperançamento dependerão exclusivamente da nossa voz e dos nossos gestos.

Deixaremos a oitiva dos títeres para o Congresso Nacional e parte do judiciário, pois eles têm interesses mútuos a defender num discurso que eles conhecem. Circunstancialmente, alguns membros desses setores estarão ao lado do povo. Não pelo fato desses ouvintes dos títeres terem a ensinar algo ao povo, mas o contrário: as gentes, em seus consensos, terão projetos capazes de abrigar representantes do campo legislativo e judiciário.

Parcialmente a mobilização também dependerá de os partidos políticos da oposição não errarem tanto como têm errado na história e não realizarem análises de conjuntura maniqueístas, incapazes de dialetização de si e dos outros. Ou se tornarem fazendeiros do ar, a contar seu rebanho imaginário e suas novas demarcações de fronteiras. Os partidos no Brasil têm enorme semelhança a latifúndios e se realizam como um modo de produção capitalista ainda quando quebram a cara. Por isso, as melhores análises econômicas, sociológicas e educacionais os deixaram de lado. Os partidos muitas vezes partem os homens e as mulheres. Toda a razão a Drummond.

Chega a hora em que os temas operados pelos títeres – à luz dos ventríloquos – não devem ser analisados em si mesmos, mas como um processo de encaixes a favor de tramas que precisam ser crescentemente compreensíveis no seio da sociedade diversa e plural do Brasil. Visto que eles não obedecem a nada que interesse ao campo republicano e democrático do país, e, portanto, nada que interesse a nossos filhos e netos, devemos excluí-los das nossas mais sérias conversas, dos nossos textos mais criativos, dos nossos projetos mais audaciosos.

Destarte, rumar para outras agendas e outras pautas altamente mobilizadas em todos os lugares do trabalho humano, do estudo, da pesquisa, da criação e do compartilhamento do conhecimento. Nós nos encontraremos num chão que de fato se chama Brasil, sem qualquer diversionismo.  E nossas ações, multiplicadas em grandes grupos, dirão da inteligência de um povo que, enfim, se organiza desde o fundo de sua mais rica herança, a diversidade cultural.

Não daremos mais respostas ao diversionismo dos títeres, mas sim às políticas do mal, à ampliação da miséria, ao depauperamento da educação e da ciência, à negação do nosso mundo vegetal, ao assassinato das mulheres e dos meninos mestiços, aos crimes contra os povos tradicionais. Respostas massivas, fortes e consequentes. Teóricas e práticas, isto é, uma nova práxis.

Os títeres não nos servirão sequer ao entretenimento. Ninguém mais dirá que não somos um país sério.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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