Luiz Roberto Alves

10 de outubro de 2019, 23h53

Fundamentos de Cidadania, hoje

Luiz Alves: “Creiamos que já estamos a viver o tempo do inédito combinado com o acúmulo de história e com o esperançamento de que não vencerá, nas palavras de Paulo Freire, ‘a malvadez neoliberal’”

Paulo Freire, símbolo da cidadania - Foto: Acervo Instituto Paulo Freire

É indispensável que prezemos todas as pessoas e todos os valores que Jair Messias e seus filhos desprezam: Greta Thunberg, as matas e florestas em pé, Raoni, partidos com clara identidade política, o prêmio Camões de Chico Buarque, a pronúncia digna da língua portuguesa em face da boca-suja desses analfabetos funcionais; as ações afirmativas dos movimentos sociais, os direitos plenos de decisão das nações indígenas e organizações quilombolas, a prática pedagógica de Paulo Freire, o debate livre das questões de gênero, a reconstrução dos direitos nas relações de trabalho, a defesa ferrenha da liberdade de expressão artística, política e científica, os investimentos crescentes para educação e pesquisa, a firmeza na luta ecológica em face do cinismo da “pobreza” de estados e municípios e do vale-tudo na exploração das riquezas da terra e do mar.

A criatividade dos cidadãos e cidadãs sensíveis do país pode ir mais longe nas atitudes e disposições contra o progresso do atraso, iniciado com Temer e levado ao extremo nestes dez meses de ganhos estratosféricos para os ricos e crescimento de opressão financeira entre classes médias e pobres.

Por certo impressiona a mediocridade de setores consideráveis da população e grupos de influenciadores, ainda “engambelados” por Jair e sua tropa, quer pelo exclusivo interesse em seus lucros, quer pela manutenção/expansão do poder ou pela vesguice das ideias. São canais da mídia que defendem negócios baseados na exploração da terra de modo plenamente acrítico. Ou que mantêm posições políticas sem considerar o contraditório, os novos fatos e mesmo as evidências.

Impressiona, também, outra variável, isto é, que muitos de nós esperemos algo melhor da velha mídia, que sistematicamente apunhalou Roquette Pinto pelas costas e traiu o projeto de criar uma comunicação social capaz de ser parceira da educação do povo, ampliadora dos falares e da escritura do país e impulsionadora da formação de identidades comunitárias no contexto da diversidade natural, étnica e social do Brasil.

Não, essa velha mídia não tem nada mais a entregar do que fez e faz: produtos enlatados, falas e textos previsíveis, chancelados por editorias rigidamente controladas pelos patrões dos veículos e plataformas. A velha mídia, incluídos os jornalões, é tão infrutífera quanto os projetos que encabrestam a República:  trata-se de fazer aparentes mudanças e construir um lero-lero ornamental para deixar tudo como sempre foi. Diria Machado de Assis, uma história do cambalacho chique. Sem futuro para as maiorias, ou para 90% dos brasileiros e brasileiras.

Mário de Andrade, na conferência de 1942 sobre o Movimento Modernista, afirmou que a cultura é capaz de vicejar sob opressões e imposições. Por analogia, carece acreditar, ainda que ao modo de Galileu Galilei, que pessoas e fatos desprezados pelo desgoverno presente criem e compartilhem valores abertos à construção de novas culturas cidadãs.

Trata-se de uma postura ecológica firme, negadora do blá-blá-blá e que conte uma a uma as árvores, formações de coral e fontes d’água das matas, do mar e das florestas a fim de mantê-las e realizar com elas o intercâmbio saudável e inteligente; que o mundo indígena atue como um conjunto de nações a favor de projetos de longo prazo, sem qualquer subordinação aos desejos insanos do poder político; que as universidades recebam em seus espaços a juventude ansiosa pelo debate livre de todos os temas nacionais e internacionais e que promovam a expressão artística e científica sem rodeios ou receios; que as datas comemorativas de ações afirmativas recolham em seu fazer grupos dispersos e invisíveis socialmente, a fim de que todos e tudo o que se despreza neste país tenha voz ampliada; que nossas contribuições financeiras e intelectuais se somem à criação de mídias alternativas e populares e que a inteligência acadêmica use parte do seu tempo para estar junto a elas, ensinando, mas também aprendendo; que não nos baste que a pedagogia do mestre Paulo Freire fique em mãos de escolas de elite (o aprendizado por interações e autonomizante), mas penetre fundamente na vasta escola pública; que a associação dos jovens a instituições científicas, culturais, educacionais e sindicais leve a ampliar o diálogo social e frear as violências legais e normativas contra o trabalho decente, a educação de qualidade, a expressão livre das culturas e das pesquisas básica e aplicada; que se reorganizem profundamente os partidos políticos com vistas a enquadrar  seus supostos “donos”, arejar discursos em face de todo o quadro cultural e econômico do mundo e anular o vale-tudo, o moralismo e a farsa dos municípios que vivem de pires na mão diante dos poderosos; que o teatro, o cinema, o artesanato, as literaturas erudita e popular, as artes pictóricas, a dança, a poética em geral, a fotografia, as comunicações e os que se envolvem nessas carreiras destruam, pela ação ampliada, todos os controles moralistas (ao conhecido modelo fascista), o Twitter canhestro e mal-educado, o papo interesseiro dos pastores vendilhões do templo e as normas da ordem unida.

Não é possível mais que a leitura falseada de João 8.32 sirva de trincheira para a burla e a enganação, ou que a pátria amada seja valhacouto para o atraso do país belo, verde, diverso e viável. Creiamos que já estamos a viver o tempo do inédito combinado com o acúmulo de história e com o esperançamento de que não vencerá, nas palavras de Paulo Freire, “a malvadez neoliberal”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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