Luiz Roberto Alves

23 de agosto de 2019, 21h38

Jair Messias e seu grupo, entre o horror do ambiente e as mensagens de Euclides

Luiz Roberto Alves: “Carecemos de ler e reler Euclides, enquanto as elites e as massas mitificadas da sociedade injusta e desigual do Brasil, capitaneadas pelo turbo-capitalismo de tipos como Trump e Cia, se mantiverem no poder”

Foto: Reprodução

De fato, este texto quer voltar a Euclides da Cunha.  O retorno ao mestre instigante das letras no entre-séculos XIX e XX, mais se justifica pela nova publicação da obra “À Margem da História”, pela UNESP e pela intervenção da Profa. Walnice Galvão na Flip, Paraty. O Festival homenageou o autor de “Os Sertões”, “Contrastes e Confrontos” etc.

O Brasil e o mundo pedem explicações à banda orquestrada e afinada que nega o verdadeiro desenvolvimento do Brasil: Jair Messias, Ricardo Salles (Ambiente), Teresa Cristina (Agricultura) e Nabhan Garcia (Agricultura). Assim como nenhuma ONG meteu fogo na Amazônia, os quatro membros da trupe também não. Mas há uma diferença notável: eles têm o poder da fala e elas não.

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Eles, afinados, supõem e falam que o país necessita expandir a geografia agrícola e a garimpagem para os confins das terras até então preservadas, lar da fauna, da flora e dos povos da floresta. Supõem que indígena deve meter a mão na bateia e se submeter ao arraso do seu lar em troca de pepitas malditas. Estão errados em tudo. Não sabem, ou não querem saber, de agricultura e do mundo físico e cultural indígena. A agricultura deles tem máquinas, mas não tem cérebro ou coração. A concepção que têm dos indígenas está a muitos anos-luz dos antropólogos, dos próprios povos indígenas e de toda a pesquisa universitária. Se eles chamarem Weintraub para percussionista nesta banda, completam o quadro da horrorosa orquestração contra a pesquisa, o conhecimento, a construção do verídico e do verificável a favor do desenvolvimento harmônico, equilibrado, fundamentado na equidade social.

De fato, essa caravana, com sua fala equivocada, generalizante, interesseira e omissa funciona como senha para que o exército difuso de gente ávida pela riqueza rápida avance sobre as matas e rios em busca de seus lucros, custe o que custar.

Os milhões de brasileiros que votaram no líder da caravana, Jair Messias, olham complacentes (com o suporte de pelo menos 400 deputados federais e senadores) para o horror e tentam justificá-lo ao modo mítico: as árvores caem mesmo, os índios não trabalham, o fogo pega por si mesmo, o Brasil precisa de mais terras pra gente comer melhor.

Tudo fora do mínimo conhecimento científico ou, ao menos, de um digno senso comum. Olham, olham e mal percebem que seu olhar mitificado mata o futuro de seus filhos, netos e bisnetos. E o mito deles continua a transformar em sujeira tudo aquilo em que toca. Um anti-Midas.

Não estou a esquecer de Euclides da Cunha. Minha brilhante orientadora de mestrado e doutorado na USP, Walnice Nogueira Galvão, não deixou por menos na conferência de abertura da Flip: trata-se de ler Euclides todo dia enquanto houver a prática do genocídio contra os meninos negros, enquanto aumentarem geometricamente os miseráveis e à medida em que crescer a iniquidade no uso da terra. Esse engenheiro-militar, tão realista quanto visionário, culto e consciente, viveu o Brasil profundo, nos sertões e nas florestas, na grande extensão da geografia e da dor humana brasileiras.

Na conferência da Flip, Euclides foi pensado por Walnice com a maestria de sempre e sua fala permitiu comparações com a interferência dos governos dos EUA no Brasil, com o golpe militar de 1964 e com o nosso momento de mentiras, mandonismo, filhotismo e omissões deslavadas diante do país que queima física e simbolicamente.

Esse grupo citado, que manda na República sofredora do Brasil (apesar de oposição até entre produtores rurais conscientes e dignos) não poderá viajar mais para nenhum lugar sem ser cobrado de estar, pela ação ou pela omissão, estimulando a transformação do antigo inferno verde em inferno cinza, ou fazer da exuberância a fumaça. Mas a trupe ainda pode aumentar com o ministro Guedes, que exige trilhões para enfiá-los em políticas mais que duvidosas do neoliberalismo capitalista, o qual, lembrando Walnice, não permitem construir uma sociedade democrática e justa, sem morticínios e mesmo genocídios.

Na obra “À Margem da História”, sobre o trabalho de Euclides da Cunha no apoio à demarcação de terras brasileiras no Alto Purus (1905), Euclides reflete posturas de “Os Sertões”. Lá exigia que o Brasil construísse educação, sob pena de não sair nunca do atraso, da pratica de crimes hediondos (como foi em Canudos) e da justificativa fácil do direito de matar os mestiços pobres como abelhas feridas pelos venenos dos agrotóxicos. A última imagem é minha. Talvez Euclides concordasse.

A ministra Teresa e o governador Witzel, do Rio, jamais leram “Os Sertões”. Se leram, nada entenderam. Muito menos sentiram. A literatura também quer nos transformar, ampliar em nós a humanidade. Na obra sobre a Amazônia, Euclides se encontra com o rio-mar, que “come” terras e as leva para o Atlântico norte, a floresta mediadora da geografia e do clima do mundo, com caucheros (que derrubam árvores para extrair uma espécie de borracha) e com nossos seringueiros, escravizados pelos patrões desde sua contratação nos estados nordestinos, destinados a não voltar para sua terra por não poder pagar a dívida da vida sob os grilhões.

Euclides intui e afirma, a despeito dos limites científicos com que trabalha, três mensagens centrais para o Brasil de então e de sempre. A primeira: não se mete a mão no mundo amazônico sem total respeito à delicada e difícil natureza. Euclides a chama de natureza “revolta e volúvel”, onde tudo é efêmero e vacilante, até as vilas e estradas, criadas e logo desaparecidas. Noutras palavras: o mundo amazônico, embora possa abrigar o humano, exige cuidado e respeito para não chegar ao estágio de não retorno na consumação da natureza.

A segunda mensagem euclidiana: a vida escravizada dos seringueiros exigiria que leis de proteção ao trabalho fossem capazes de fazer os brasileiros de fato sentirem a Amazônia como sua, mas como lugar do encontro natureza-cultura e não como “conquista” exclusiva, a qualquer custo. A Amazônia não é conquistável; por isso não é sedutora. Vide o “Macunaíma”, de Mário de Andrade. Dificultou a todos, inclusive aos sábios estrangeiros e aos religiosos, que a entendessem na totalidade. Seus mistérios pertencem à ordem de regulação do mundo e não às normas da devassa dos grupos e hordas, como falas e omissões da trupe citada permitem ocorrer.

A última, tão relevante quanto, é que os amazônicos têm importante contribuição a dar (Viva Chico Mendes!!), na medida em que toda a sua atividade econômica e cultural considere a árvore em pé; jamais deitada e transportada. Euclides se horroriza com os estranhos ao mundo amazônico que ali chegam “para matar e ferir o homem e a árvore” em meio à total impunidade.

Seria pedir demais que a trupe afinada em direção contrária conhecesse as mensagens de Euclides?

Walnice tem plena razão. Carecemos de ler e reler Euclides, enquanto as elites e as massas mitificadas da sociedade injusta e desigual do Brasil, capitaneadas pelo turbo-capitalismo de tipos como Trump e Cia (e similares de ontem), se mantiverem no poder. À medida em que o lemos, aumenta a força de oposição e a justa ira a favor do nosso oikos, da nossa casa, da democracia frágil e tristemente inacabada que temos.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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