Luiz Roberto Alves

09 de agosto de 2019, 12h21

Jair Messias, o Evangelho e os 30 milhões de evangélicos

Luiz Roberto Alves: “Ou o evangelismo nacional provoca mudanças no comportamento do presidente ou se agarra a ele como Frankenstein e afunda com ele”

Foto: Reprodução/Instagram Jair Bolsonaro

Este não é um artigo sobre religião. É, mesmo, sobre o Evangelho e o Governo brasileiro.

Sua premissa consiste no fato de que manter fidelidade ao pensamento e à pratica do presidente Jair Messias, que se afirma cristão, implica negar o Evangelho. A opção de fidelidade é, pois, um ato político dos irmãos, igrejas e pastores, especialmente se interessados em diminuir impostos de igreja, nomear parceiros em postos do governo e granjear outros benefícios puramente materiais, do mundo da política.

Não há alternativa possível. A fidelidade é a negação.

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Não seria necessário conhecer exegese, ter estudado a história judaico-cristã, experimentar a leitura do Novo Testamento em relação a cada ruína, cada vilarejo, cada cenário da chamada Terra Santa (Israel e Palestina) para apresentar esta premissa. Mas essas experiências vividas pelo autor deste texto ajudam, e ajudam muito. O Evangelho tem pensamento, história e encarnação.

Jair Messias, eleito para governar o Brasil, governa pelo ódio e pelo maldizer. Governa para grupos que obedecem a ele e o bajulam. Vinga-se a cada dia de alguma crítica, especialmente das críticas sérias, que têm base no estudo e na ciência. Ele não tem, nem de longe, aquele espírito infantil de confiança, pureza de alma e disponibilidade, que é ponto fundamental do Evangelho na boca de Jesus.

Ao contrário, quando o assunto é criança, ele até estimula que as crianças brasileiras troquem o estudo pelo trabalho. Ele e deputados que o seguem querem matar o Estatuto da Criança e do Adolescente, que não foi feito para a Suíça, ou para a Finlândia (que já não precisam mais de nenhum estatuto), mas para o Brasil real de 5 milhões de crianças fora da escola, de muitas crianças presas (internadas) e alto índice de assassinato infanto-juvenil.

Jair Messias, o presidente, não tem compromisso com a verdade. Diz o que vem à cuca, numa vociferação que busca confundir e fazer acreditar no que não é e não existe. Em breve estará mostrando ao mundo que somos um paraíso antes do pecado original na preservação das florestas, que cuidamos dos idosos doentes e crianças dentro e fora da escola, que os nossos agrotóxicos não causam qualquer doença. Ainda que ocorram desgraças naturais resultantes do desequilíbrio climático, que aumente o suicídio de idosos e crianças/adolescentes por frustração e desamparo e que os hospitais fiquem atulhados e empilhados de gente como resultado de doenças diversas, cuja complicação aumenta pelo uso de produtos agrícolas aqui permitidos e proibidos em muitos outros países. De fato, a verdade do Sr. Jair Messias não é a de João 8.32, mas sim a verdade encoberta do superliberalismo tipo Trump e companhia limitada, que mostra o gogó e esconde os fatos. Essa verdade não liberta ninguém e coisa nenhuma.

O Sr. Jair Messias quer aparecer ao povo evangélico, dizer coisas que agradem pastores e gente importante das igrejas, receber salvas de palmas e sair dando risadas como quem leva vantagem em alguma coisa. Em seguida, a aparecer aos dirigentes evangélicos, ele vai louvar seus “deusinhos”, os torturadores, que assassinaram homens e mulheres a quem tinham a obrigação de respeitar como agentes do Estado.

E tudo isso ele faz gritando, em mau português, aos trancos e barrancos, estridente e violento. Não tem a discrição e a atitude simples de quem prefere se recolher no silêncio para a reflexão e para pensar, sempre, no bem-estar de 209 milhões de pessoas do país muito diverso e muito desigual, de pobreza entre os campeões do mundo, inclusive entre o povo evangélico. Prefere aparecer e prometer, ostentar, violentar desafetos e críticos. Jair Messias prefere metralhar a dar a outra face, mesmo que simbolicamente.  A última coisa que pode existir em sua vida é a humildade, virtude máxima cristã, que surge quase em cada página dos evangelhos.

O que querem os líderes das igrejas evangélicas? Somente granjear benefícios?

O que querem os fiéis evangélicos? Ver o país ser entregue aos que têm mais dinheiro e capitais, ver os filhos cada dia mais longe das boas universidades, morrer muito antes da aposentadoria, constatar que a escola pública de crianças e adolescentes fica a cada dia mais medíocre e que crescem as escolas para ricos ou sacrificar a vida pelo que mete na boca?

Conheci na Terra Santa cristãos que oram pelo mundo e do mundo não querem nenhum bem. Aprendi a respeitá-los. Conheci ruínas de pequenas cidades muito prósperas antigamente, como Cafarnaum (Kfar-Nahum), cujo destino sinaliza o que podemos fazer de nossas cidades. Conheci e visitei dezenas de vezes o Muro Ocidental do Templo (Kotel ha-Maaravi), cuja persistência humana levou a construir e reconstruir como promessa de futuro. Conheci também centenas e milhares de brasileiros e brasileiras, nos campos e nas cidades, que entenderam muito bem esses sinais e valores e lutam pela dignidade, pela vida e pela Paz, o Shalom que significa a integridade do humano no mundo.

Nada disso se vê no presidente, Sr. Jair Messias. Ao contrário. Mas a maioria dos que se denominam evangélicos votou neste senhor, nosso presidente. Lembrar que os apóstolos oraram pelos dirigentes políticos, mas exigiram profeticamente que eles mudassem seu comportamento e fizessem uma gestão a favor de todo o povo, especialmente os que necessitam do Estado, da cidade. Um fato está ligado ao outro e não é justo separar.

Portanto, o desafio está dado: ou o evangelismo nacional, cerca de 30 milhões de conterrâneos, provoca mudanças no comportamento do presidente ou se agarra a ele como Frankenstein e afunda com ele. Mas isso já não é um assunto evangélico. É unicamente político. Não tem mistério. É a lógica da política.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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