Luiz Roberto Alves

20 de dezembro de 2019, 19h54

Marielle, Anderson e a expiação política

Luiz Roberto Alves: “Este país não tem e não terá o que comemorar até que solucione, muito antes das novas páscoas e novos natais, o assassinato de Marielle e Anderson”

Marielle Franco - Foto: Guilherme Cunha/Alerj

Como se sabe, expiar não é espiar. Mas carece-se de espiar bem a cultura política para ver melhor como se expia na história contemporânea do Brasil. Embora a expiação seja tema central da fé e da religião, talvez por isso mesmo é fenômeno político fundante.

Por enquanto, Marielle e Anderson expiam erros do sistema político-judiciário-policial brasileiro, que, por sua vez, reflete um dos mais graves defeitos desta sociedade, a covardia, uma mistura de omissão, silenciamento, distanciamento, lavagem de mãos e esquecimento da verdade. A covardia brasileira tem laços com a covardia do ser humano, mas acrescenta componentes da subordinação herdada do estatuto colonial, tão bem retratada desde Padre Vieira e Gregório de Matos, a passar por Graciliano e Lins do Rego e a chegar no Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, para citar muito pouco. Há analogias desse pensamento literário em muito do que se lê no Tortura Nunca Mais, nos depoimentos dos grandes juristas sobre a ditadura e na correspondência entre Mário de Andrade, Paulo Duarte e Alceu Amoroso Lima.

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A fala e a escritura sobre esse fato político-cultural são tão fartas quanto a sua manutenção no país especializado em mudar bastante para não mudar quase nada, exatamente o nosso Brasil. Noutras palavras, produzir muita formalidade e manter as mesmas estruturas injustas, produtoras da miséria social e dos privilégios, o que põe em xeque falas impregnadas do velho positivismo na boca de ministros do STF, também um lugar dos privilégios físicos e simbólicos. Muito provavelmente é isso que ocorrerá com as reformas de Jair-Guedes-Marinho, que terão como acólitos Alcolumbre e Maia.

Marielle e Anderson expiam. Não haveria melhor momento que no tempo do Advento para trabalhar o conceito associado às mortes, ao lado de tantas outras mortes em expiação. E devemos fazê-lo no contexto laico e político, porque a atual religiosidade predominante no Brasil e sua pretensa fé encontram-se completamente incapazes de dar um único passo novo nessa direção. Essa gente está completamente ausente de sentidos físicos e morais dos ensinamentos de 2.000 anos. Ela somente espia a expiação. O Advento dá os primeiros sinais da expiação pascal, seja na morte dos inocentes, seja no sofrimento do menino-migrante e sem-teto rumo ao Egito.

Duas pessoas encarnam indícios da solução para o caso Marielle, mas definitivamente não há coragem de fazer a boa análise da semântica jurídica capaz de elucidar as mortes expiatórias.

São elas o ex-ministro Jungmann e a Sra. Raquel Dodge, aqui citados como portadores de informação a ser trabalhada por quem quisesse elucidar o mal feito e julgar todos os malfeitores. Ou seja, por cabeças não colonizadas e corajosas.

Em 23 de novembro de 2018 Jungmann afirmou num simpósio da FGV: “A procuradora-geral da República teve acesso a duas testemunhas, uma do Orlando Curicica e a outra que permanece no anonimato, em que são feitas gravíssimas acusações a agentes públicos do Rio de Janeiro. Que existiria uma grande articulação envolvendo agentes públicos, milicianos e políticos em um esquema muito poderoso que não teria interesse na elucidação do caso Marielle. Até porque estariam envolvidos neste processo. Se não tanto na qualidade daqueles que executaram, na qualidade de mandantes”. Em seguida, o que diz o ex-ministro sobre o que afirmou: “Eu diria que é mais que uma certeza”.

Com efeito, no Summit Brasil de 30.10.2019 a Sra. Dodge confirmou suas ações não só em torno dos supostos executores como dos intervenientes que buscaram atrapalhar o processo. Mostrou os movimentos processuais, as linhas de atuação dos agentes encarregados dos processos e os lugares em que estes se alocam, STJ e Polícia Federal.

Portanto, somente espíritos colonizados não avançam celeremente na elucidação da expiação a partir dos dados de Jungmann e Dodge, fato que poderá ir além do próximo Natal, o que na história religiosa é um pecado. Já são dois natais de covardia e completa falta de real desejo de resolver, de submissão. Mesmo assim todo mundo envolvido na colonização da consciência espera comer um peru gordo e talvez uma cabeça de porco, sem saber dos símbolos que se escondem atrás desses atos.

A nossa consciência colonizada, trabalhada brilhantemente por Sérgio Buarque, Josué de Castro, Ariano, Paulo Freire e tantos outros e outras, superou a modernidade e está mais viva do que nunca. Mete-se também no meio do sistema jurídico e mata friamente a figura feminina de olhos vendados.

Este país não tem e não terá o que comemorar até que solucione, muito antes das novas páscoas e novos natais, o assassinato de Marielle e Anderson, que arranha, com razão, a República. Na esteira dele, deve criar um sistema de justiça jamais visto e vivido na sociedade mentalmente colonizada.

Em linguagem de velho e bom conceito oriental, não somente um sistema mishpat, a estrutura do direito, mas uma verdadeira tsedaqah, a justiça efetiva e equitativa.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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