Luiz Roberto Alves

17 de agosto de 2019, 14h40

Não há vacina contra o ódio

Luiz Roberto Alves, em sua coluna na Fórum: "O governo da República em exercício nasceu do ódio e em seu nome o exerce"

Foto: Reprodução/Instagram Jair Bolsonaro

Lembro-me de antigas falas de Albert Sabin sobre o ódio. Embora o cientista criador da vacina contra a temida paralisia infantil – ao lado de Salk –  afirmasse que infelizmente não haveria vacina contra o ódio, também é dele o discurso profético: nada o deixou mais feliz que oferecer à humanidade a vacina salvadora de crianças à luz de outro fenômeno, isto é, a atrocidade nazista contra os pequenos, que morreram como morrem as abelhas sob venenos agrícolas. A poliomielite grassou fortemente depois da Segunda Guerra Mundial e a Ciência nas mãos de Sabin salvou gerações a partir de 1957. E continua a salvar, em todo o mundo.

Por que não uma vacina contra o ódio? Porque, talvez, o ódio seja uma construção social e histórica. Realiza-se na profundidade do preconceito, da ignorância, da frustração, da não-aceitação do outro, na afirmação da uniformidade contra as diferenças e nas práticas do mandonismo. O que não é novo no Brasil, mas por desgraça se atualiza.

Provavelmente o trabalho terapêutico ajude nas relações interindividuais, assim como uma grande amizade e a fruição artística. Mas o ódio se fabrica e se move aos montes, como enxurrada, nos corações e mentes, desafiando remédios, como a provar nosso inacabamento como seres que se projetam no inacabamento das nossas instituições. Por exemplo, a sociedade democrática, que também suscita ódios contra ela, que vêm da ignorância, dos preconceitos, do poder confrontado. A família é outro lugar que tenta enganar e se enganar, mas porta muitos ódios com origens semelhantes. Ou as igrejas, onde os gritos de Amor e de Jesus mal escondem relações degeneradas que movem ódios. Nem precisa dizer de corporações e poderes como esses construídos em nossa história.

O governo da República em exercício nasceu do ódio e em seu nome o exerce. O ódio tenaz de uma base política cultivada pelo Sr. Jair Messias, seus 3 filhos, seu guru estrangeiro e ministros especialmente convidados pela capacidade de odiar (e escarnecer, parente do ódio) tomou conta das políticas públicas, dos programas de governo, das relações entre governo e distintos setores da sociedade, das conversas entre governante e mídia, do horror nutrido pelo poder contra opositores de qualquer idade e qualquer categoria social. Prova irrefutável disso é a expansão geométrica dos que não mais suportam serem governados pelos senhores do ódio e, de outro lado, o enraizamento do grupo odiento, composto de núcleos de interesse nas coisas do Estado e nas riquezas do país, de oportunistas de plantão, de cabeças feitas para a destruição dos feitos “dos outros” (que supõem que o outro é o mal, o inferno) e de divulgadores da mentira repetitiva elevada a verdade social.

Erram feio os ingênuos que supõem estar diante de agentes públicos espontâneos, que falam o que lhes dá na língua e que vão aprender a governar com o tempo. Não há vacina ou aprendizado para quem persegue, para quem nega escolta a desafetos desprotegidos, violenta simbolicamente sem conhecer, impõe sem freios e não aceita um não, chama de mentira a pertinaz, paciente e efetiva criação científica, propõe com absoluta arrogância ideias educacionais levianas, superadas pelo saber e pelas práticas. O ódio ao que é público e pode ser aperfeiçoado vai, de imediato, a leilão, como se fosse à fogueira, sem qualquer preocupação com o preço social, o preço do trabalho precário, o preço dos corações humanos postos no emprego e na família para sustentar. Não há remissão de tempo para o ódio de hoje, o que está acontecendo.

Não há vacina para nada disso, nem a evangélica, pois esta exige grande mudança, como se viu no drama do apóstolo Paulo, sua queda, a cegueira e a conversão. Em nosso caso, a cegueira e o espírito de ódio grassam fartamente entre os que gritam frases evangélicas, fazem orações públicas e dirigem igrejas. Deste modo, como tais pessoas poderão ter olhos para ver os processos de conversão dos agentes públicos que odeiam se eles não estão convertidos a coisa nenhuma, exceto a seus interesses? Portanto, compõem setores de ódio. No mínimo, buscam vantagens.

A melhor sociologia, a crítica da arte, o direito corajoso, a microeconomia e a educação apresentam sua variante evangélica para o estado de coisas que vivemos. Vai bem além de esperar 4 anos para retirar o governante e todo o seu séquito, pois poucos estão a suportar o que ocorre. Trata-se de apontar, como uma das dimensões da ação, os sentidos profundos desse ódio no cotidiano, abrir os olhos para o aumento impensável da miséria no país, fazer ver que vendas de estatais e reformas não alterarão o quadro econômico, que é movido pelo ódio, pelo (des)recalque dos operadores do poder e suas ideias fartamente superadas. Seguem-se ações mais fortes e decisivas: criar alternativas culturais, econômicas, ecológicas e educacionais por todo o país, com gestão comunitária e inter-étnica, diálogo local-regional e demonstração de que “um outro Brasil é possível” nas brechas saudáveis da coisa pública. Tais ações, em seu crescendo, darão o FORA às práticas do ódio e do sarcasmo, até o momento em que se veja que os bilhões e os trilhões arrancados do lombo do país nas vendas e reformas não têm sentido, não têm valor. Não são capazes de operar o Brasil profundo e real. Que o ódio permaneça homiziado junto ao engano, à ilusão, à burla, à falta de razão e de significado.

Deste modo, provavelmente o ódio e seus (des)valores ficarão onde estão, por falta de vacina, mas onde estão deixarão de fazer sentido. Vão esgoelar, tuitar, legislar, mandar e escarnecer no vazio de suas próprias gargantas cheias do nada.

Mas a banda ruidosa do país desejado e exigido passará e ligará o país, pois ela será outra construção social! As brechas saudáveis do país terão o sentido do país como um todo.


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