Luiz Roberto Alves

24 de janeiro de 2020, 00h00

O holocausto, ele mesmo

Luiz Roberto Alves: "Ao contrário das suposições da ignorância e do desamor, um sentido forte e preciso do holocausto poderá ser raiz das melhores políticas de bem-comum na democracia"

Memorial do Holocausto, em São Paulo - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Ainda que a racionalidade do sapiens trabalhe por argumentos que comparam, julgam, escolhem, há princípios que alertam a práxis relativista em nome da vida suspensa por um fio, ou já decaída. Assim penso a atualização moral do holocausto, o fenômeno histórico que consumiu milhões de vidas em nome das diversas faces da estupidez. Construção do laboratório nazista.

Não foi a minha ida, há poucos anos, a Auschwitz Birkenau, determinante do pensamento-princípio, que prescinde de comparações. Nem o horror diante da mentira textual do campo: Arbeit macht frei. Nem mesmo a produtiva condição de estudante-pesquisador, nos anos de 1970, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Foi, sim, um conjunto de movimentos do pensamento e do coração impregnados pela poética, pela literatura, pela observação participante e pelo testemunho histórico.

A despeito da minha fé, desejo e esperança na instituição de dois estados, Israel e Palestina, nos termos da assembleia das nações de Oswaldo Aranha, o que se deu no ano em que nasci, a própria geopolítica do Oriente Médio provoca um infinito vociferar de controvérsias e comparações. Provavelmente gerações próximas à minha não verão a consecução dos dias e textos que animaram Aranha, mas a ideia de shalom persiste, pois a teleologia é de sua natureza. A paz – paz mesmo – só pode ser a integralidade e a comunhão de pessoas e povos.

São os campos semânticos pervertidos em torno do holocausto que estão a destruir a unicidade e o sentimento do conceito e a produzir desvãos, desvios e desvalimento do único sentido que deveria ficar em pé, o do horror como impacto e lição histórica, suficientes pois de inúmeras ações afirmativas do humano no mundo e na vida.

A banalização transformada em gestos e palavras, a descrença no que ocorreu entre nas décadas de 1930 e 1940 na Europa, a repetição de discursos em contextos sem qualquer direito histórico e as violências físicas e simbólicas em ascensão compõem os campos pervertidos de significação, signos de ignorância histórica, fim do diálogo social, ausência de valores garantidores da existência. Em decorrência, passamos a ter o direito de louvar os artífices do holocausto nazista, que é um lugar histórico preciso, real, cotidiano, fenomenológico e criador da única figura textual que lhe cabe, a da atrocidade que não pode ser negada, revivida e perpetrada. O holocausto não comporta metáfora, pois nele a vida se esvaiu e a vida é necessária para criar metáforas. Talvez caibam nele as figuras retóricas do ceticismo e do eufemismo, incapazes de ler o holocausto quando ele já medra e faz raízes.

Evidentemente o tabu em torno do holocausto daria munição à ignorância e ao ódio. Idem a sua banalização. A construção do sentido, no entanto, pode muito bem dar-se na harmonia de conhecimento histórico, leituras de sobreviventes, encontros com o melhor da literatura ficcional (Eli Wiesel, Primo Levi, Yehuda Amichai, Art Spiegelman, Anne Frank, Antonio Iturbe, Styron, Agnes Heller, imagens fortes de Jorge Luis Borges) e reflexões não ficcionais, como os relatos do casal Guimarães Rosa.

O holocausto preparado e feito pelo nazismo é, depois da inteligência harmonizada, um gigante ético para a juventude. Sua introjeção conceitual nas relações sociais não nega qualquer inteligência crítica, nem diminui a capacidade de formular inovações nos estudos históricos. A memória trabalhada do holocausto, aquele de que se trata, será uma disposição pela vida como bem indisputável e inegociável, e toda a história da inteligência dará razão ao ato de não negociar a vida.

A nova disposição haurida no sentimento do holocausto superará a retração diante do diz-que-diz-que sobre a riqueza desse ou daquele, os defeitos de tal e qual, os males do governo A ou B. Ora, toda a vida social sugere e merece a boa análise crítica, dentro da variedade de posturas, mas nada disso poderá banalizar o sentido do fenômeno no qual a vida foi feita um nada e no qual todo o discurso humanista de um continente foi trucidado.

Ao contrário das suposições da ignorância e do desamor, um sentido forte e preciso do holocausto poderá ser raiz das melhores políticas de bem-comum na democracia, pois cabe construir a equidade, transformar estruturas colonialistas, humanizar relações de trabalho, tirar qualquer freio à ciência, cuidar muito da adolescência e da juventude e fazer educação aberta e inclusiva para que fenômenos que lembrem o holocausto em sua ferocidade e seu horror sejam banidos da vida em comum. A vida é todo o bem. Este bem não será queimado ou dizimado. Shoah, nunca mais!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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