Luiz Roberto Alves

22 de maio de 2019, 06h00

O presidente e suas muletas discursivas

Em novo artigo, Luiz Roberto Alves diz: “Jair Messias não tem direito a botar a culpa em ninguém. Nenhum de seus projetos, portarias e decretos tem a integridade que represente o Brasil real, amplo, diverso, pleno de diferenciações, complexo e repleto de injustiças”

Foto: Divulgação/PR

No próximo dia 26 os conterrâneos que ainda dizem ser alinhados ao pensamento do presidente Jair Messias terão, como massa eleitora, a última oportunidade para dar a impressão pública de que seu eleito tem a fala e a prática dos seus interesses.

Ora, quem irá às ruas? Provavelmente serão poucos a concordar com o fim de projetos e ações fundamentais para o país, como a pesquisa científica que é realizada nas universidades públicas, muitas vezes em colaboração com instituições internacionais e importantes para a saúde, o saneamento, a alimentação, a educação, as inovações tecnológicas e muito mais. Se os pais forem às ruas no dia 26, os filhos sairão às praças no dia 30 para tentar obstaculizar a infâmia de contingenciar o que não pode ser contingenciável, que é a ação educacional, coração do desenvolvimento humano, social e econômico.

Mas talvez no 26 ainda poderão gritar algo a favor do governante, embora seja inimaginável a ignorância em torno dos desatinos cometidos contra o meio ambiente, contra a vida indígena, a favor da comida repleta de venenos, do aumento da miséria e da pistolagem, ou contra a vida das crianças e adolescentes pobres e tudo o mais que já foi objeto de decretos, portarias e ordens do eleito desde o início de janeiro. Se assim o fizerem, novamente seus filhos, mais generosos, irão defender a vida e todas as suas faces ecológicas e sociais no dia 30 e nos demais dias, pois muitos dias de movimento serão necessários para fazer o senhor Jair Messias engolir a maldita frase de que nas ruas gritam os idiotas, os imbecis.

Será que os conterrâneos irão às ruas para defender filhos, sobrinhos, netos e amigos da fala do presidente sobre a imbecilidade da juventude? Ou para confirmá-la? Aí já será necessário um trabalho maior de psicanálise. De fato, não se esperou que os cinquenta e tantos milhões de votos garimpados pelo Sr. Jair Messias tenham sido sufragados por solitários no mundo.

Ah, dirão os conterrâneos, eles e elas irão às ruas para dar voz ao presidente! Noutras palavras, dizer o que ele não consegue fazer. Nos últimos dias o presidente está a distribuir nas redes o que ele nunca pôde fazer, isto é, frases orgânicas com sujeitos, predicados, complementos e adjuntos, que se realizam em orações coordenadas e subordinadas e criam argumentos mais complexos.

Jair Messias é uma pessoa tópica e, por isso, jamais pode debater com alguém, visto que o debate exige organização de frases explicativas e argumentativas com grande variedade de termos de orações e suas articulações. O presidente jamais foi capaz de realizá-las. Por isso, ele busca, inutilmente, fechar a boca de todos os brasileiros e brasileiras ao anunciar pela voz de um pastor desconhecido que Deus o elegeu para o governo. Isso significa que de modo algum foi uma parte do povo brasileiro que o elegeu, com suas diferenças. Quem o elegeu foi Deus, como novo Ciro, o libertador. Outra vez, além do horror da autocracia e da mistificação, Jair Messias demonstra total ignorância da história e da interpretação da Bíblia. Isaías revira no túmulo. O presidente jamais leu reflexivamente o capítulo 10 do profeta.

Este autor retornou às entrevistas do presidente, desde a primeira no SBT até aquela horrível no programa Sílvio Santos, além dos textos e falas das redes e constatou: o Senhor Jair Messias joga frases, sempre retornando para iniciar uma nova, curta, quase sempre ausente de sequência e ausente de conclusão. Ele enuncia várias expressões, mas não produz enunciados. Geralmente sua conclusão é um muxoxo, um som inaudível ou uma exclamação brevíssima que nada denota, pois é expressão sem argumento. Ou ele termina com pergunta breve e desiste de argumentar, jogando o assunto para o interlocutor. A constatação aqui feita não é ato de hostilidade; basta ler e ouvir seus textos e falas. As falas do presidente são farrapos discursivos. E tais fragmentos representam o seu pensamento, seu modo de estar no mundo e no governo, suas atitudes no fazer político, seus documentos oficiais. O modo como ele fala também é o modo como dirige o país. O resultado é uma política que fragmenta e se fragmenta. É isso que vai ser defendido no dia 26?

Portanto, todo o país precisa saber que seu modo fragmentado de falar e escrever rebate sobre a real fragmentação do pensamento e as atitudes também fragmentam a vida social brasileira, racham e quebram as relações. A construção discursiva do senhor presidente é muito pior do que não saber regra de três simples. Mais nociva e perigosa. O presidente é escravo de sua linguagem e projeta essa escravidão sob a forma de um governo estraçalhado.

Para tentar salvar-se, nos últimos dias ele lançou mão de discursos com frases organizadas e argumentativas, que são de outras mãos, apresentadas como anônimas, atitude até então desconhecida da prática política presidencial. No entanto, talvez tenham alguma afinidade com ele, que não pode realizar tal linha argumentativa. E provavelmente serão tais argumentos os que serão defendidos nas ruas no dia 26, principalmente contra mitos do governante: a velha política, as corporações, as raposas da política, os grupos de interesses, os supostos defeitos do STF e do Legislativo. Ora, Jair Messias já fez parte de quase tudo isso: o exército, os grupos de deputados conservadores, os segmentos machistas, os clubes da bala, a família aproximada a pessoas enfim presas etc.

Por que, então, tal discurso disfuncional foi eleito? A questão central da última eleição é que a vitória nas urnas teria de caber ao grito, à anti-argumentação, aos xingamentos, aos tópicos vociferados como berros e nada da velha e boa educação e da fala racional. Uma média da consciência nacional imaginou que dirigir o país é igual a dirigir um carro, sua casa ou um armazém de secos e molhados. Mas é infinitamente diferente. Trata-se de pensar nas linhas fundamentais do Estado nacional e sua razão de ser, que é todo o povo. Todo e não parte.

Incapacitado de dizer, de organizar sua fala e vendo que seu discurso se projeta na fragmentação do país, o Sr. Jair Messias se agarra a discursos “dos outros”, a muletas de linguagem e, assim deprimido e limitado, espera a voz das ruas (embora afirme que já garantiu a de Deus!) para garantir alguma força para suas novas investidas na vida do país. Mas elas serão bagunçadas, deseducadas, reacionárias, disfuncionais, com os defeitos das investidas realizadas até agora, capazes de espantar o mundo e não somente os brasileiros.

Se algum sentido tivesse o movimento do dia 26 (considere-se que ele é totalmente incoerente com as ações da juventude chamada de imbecil) seria para dar um pito no seu presidente e dizer a ele que faça o que seu governo não fez, governe nos termos da sociedade democrática, com leitura democrática, com discurso democrático.

De preferência, com frases decentes e posturas dignas diante do Brasil, cuja fome aumenta, cujo desencanto avulta, cuja miséria impacta, fatos e fenômenos que não aceitam nenhuma desculpa a ser descarregada sobre Lula, Dilma ou Temer. Aliás, este último fez uma “ponte para o futuro”, que é o presente (des)governo.

Jair Messias não tem direito a botar a culpa em ninguém. Nenhum de seus projetos, portarias e decretos tem a integridade que represente o Brasil real, amplo, diverso, pleno de diferenciações, complexo e repleto de injustiças. Tudo o que foi até agora apresentado se assemelha a suas falas e seus textos, frangalhos.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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