Luiz Roberto Alves

17 de setembro de 2019, 22h44

O presidente na ONU: temas para um discurso verdadeiro

Bastará a ele alguma leitura de 2 ou 3 jornais, dados do IPEA, do INEP, do INPE e do IBGE. Se tiver fôlego, pode sugerir que lhe repassem resultados de pesquisas científicas, pois há milhões delas nas universidades públicas além do grafeno. Ato contínuo, seu discurso será, efetivamente, honesto, de fato bíblico.

Foto: Carolina Antunes/PR

Arauto do verso 32 do capítulo 8 de João, que trata da verdade negada aos pobres, às vítimas de preconceitos e aos perseguidos, Jair Messias, o presidente, pode ter a oportunidade de discursar na ONU com um texto que exprima o país real e profundo. O país verdadeiro, muito distante das mensagens das redes em língua portuguesa medíocre.

O presidente não precisará valer-se de conselhos de nenhum dos filhos ou do inominável de Virgínia, nem dos generais próximos e muito menos do chanceler que voltou há pouco do Heritage, EUA, onde nada de bom terá aprendido.

Bastará a ele alguma leitura de 2 ou 3 jornais, dados do IPEA, do INEP, do INPE e do IBGE. Se tiver fôlego, pode sugerir que lhe repassem resultados de pesquisas científicas, pois há milhões delas nas universidades públicas além do grafeno. Ato contínuo, seu discurso será, efetivamente, honesto, de fato bíblico.

O presidente deve se considerar um homem livre para dizer o que bem lhe aprouver, dentro da ideologia que o fez ganhar a eleição. Sim, mas non tropo, pois seu apoio já é, hoje, outro, o país concordou com e ratificou os documentos da ONU e a fala de um presidente deve ser, quando verdadeiro, sinal inequívoco do seu país real.

Visto que falará na casa das nações, a ONU, convém lembrar que essa casa definiu 17 objetivos para o desenvolvimento das nações, os quais, efetivamente realizados, serão capazes de sustentar as pessoas, as organizações e as instituições. Noutras palavras, segundo a ONU não há sustentação para suposto desenvolvimento de somente alguns setores das sociedades, como por exemplo o sistema bancário, as empresas multinacionais e as classes políticas. Sustentar é prover o digno e necessário para todas as pessoas da nação. Sustentar implica solidariedade e autonomia nas conquistas do humano e suas organizações.

Pois bem, digamos que o presidente não tenha tempo para trabalhar sobre os 17 itens da pauta da ONU e se decida a refletir sobre alguns deles. Talvez os indispensáveis hoje, dados seus enormes riscos, mas também exigências de compromissos com o futuro próximo do país e do mundo sejam o 1º, o 4º e o décimo quinto. Significam: erradicação da pobreza, educação de qualidade e vida sobre a terra (no caso a terra brasileira e sua relação com o mundo).

Sobre o ponto número 1, Jair Messias poderia lembrar que seu país tem antiga e competente pesquisa sobre a fome e a miséria, desde o trabalho do grande Josué de Castro às séries históricas das diversas instituições de pesquisa, passando por Celso Furtado e pela própria arte brasileira. No entanto, dirá o presidente, a fome e a miséria se aproveitam dos cochilos da democracia e da falta de políticas contínuas, como no caso do governo Temer, que fez o país sair de 6.6% de população faminta para 7.4%, segundo o IBGE. Pior, tratava-se de matar uma verdade do cotidiano brasileiro, pois em 2014 o país tinha saído do mapa da fome (menos de 5% a consumir calorias insuficientes), dirigido pela ONU-FAO. Neste momento, em seu governo, o país já está reentrando e não há sinais de mudança. Jair Messias deve discutir em Nova Iorque se o modelo econômico do senhor Guedes tem competência e performance para mudar o quadro.

De modo algum o senhor Jair Messias esquecerá da educação de qualidade, segundo ponto de seu discurso e eixo mundial da ONU para garantir a própria democracia. Sobre a educação como indutora central da democracia concordam o Papa Francisco, Nelson Mandela, Desmond Tutu, Paulo Freire, Malala Yousafzai, Anísio Teixeira e milhões de educadores/as do mundo. Conviria que o presidente se esgueirasse do assunto dos colégios militares, pois eles não têm nada a ver com a qualidade do ensino público das maiorias de meninos e meninas em verdadeiro processo de inclusão dos diferentes no país- continente. Não são assunto da meta 4 e não merecem 1 real de propaganda, nem 1 tostão do orçamento público para sua construção. Muito ao contrário, o senhor Jair Messias deveria converter-se publicamente na casa das nações, esclarecer que de fato esse “jabuti” de colégios militares foi um momento de volúpia e subversão diante dos 3 milhões de adolescentes fora da escola brasileira, dos orçamentos criminosamente contidos e declinantes para os 3 níveis da educação (enquanto o Weintraub estropia sons irreconhecíveis na gaita), das condições de encarceramento e falta de escola regular  dos meninos na experiência socioeducativa, da creche que não chega a 30% dos pequenos, do ensino médio em tempo integral em ritmo lento e submetido ao humor curricular de estados e municípios. Acima de tudo, que educação de qualidade não se concretiza na avaliação massiva e indiferenciada, muito menos na ordem unida, mas sim em pedagogia rica e aberta; do mesmo modo, as avaliações não podem seguir a taxonomia da OCDE ou de autores da moda e sim fazer-se em múltiplas avaliações, coerentes com o país diverso que formará, nesse processo diferenciado, jovens autores e pessoas autônomas.

Enfim, fora de questão que a Amazônia não pertença à terra brasileira (mas também colombiana e peruana etc), como também pertencem a Petrobras, os Correios, as Plataformas Marítimas, os Corais, os Parques Nacionais e Estaduais, as jazidas, as terras demarcadas nas melhores mãos do mundo, as indígenas, a fauna e a flora maravilhosas. Mas o presidente precisa dizer na ONU o que fez até agora, o que postou nas redes e que políticas públicas rigorosas está a traçar (não esquecer o investimento orçamentário!) para a garantia da vida e das riquezas do país. Para levar a sério o item 15 da ONU precisa listar os bandidos presos e processados por meterem fogo nas matas e na floresta. Precisa esclarecer (pois será cobrado) sobre o que foi o “dia do fogo” e a imensidão de galões de combustível encontrados em depósitos de fazendeiros da região amazônica, deixar claro o seu comportamento diante das terras indígenas e a exploração mineral, esclarecer definitivamente – com dados e fatos – sua crítica às ONGs amazônicas e revelar o que sabe sobre os povos tradicionais e sua relação simbólica e ritual com a terra. Assim sendo (bom seria se o senhor Jair Messias distribuísse o discurso a todos os seus ouvintes, com antecedência) o seu discurso será evangélico e suponho que seus eleitores ficarão felizes com um presidente que não simplesmente vocifera sobre a verdade, mas a manifesta com os dados conhecidos e vividos da pesquisa brasileira e internacional. Estaremos atentos, com ouvidos de ouvir e olhos de ver.


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