Luiz Roberto Alves

14 de julho de 2019, 19h25

Os novos deputados do velho liberalismo capitalista

Poucos meses de discurso no processo associado à Previdência brasileira foram suficientes para igualar o Novo aos demais envelhecidos, pessoas e partidos secularmente no poder

Bancada do Novo em café da manhã com Bolsonaro (Divulgação/PR)

O autor deste texto esteve atento às falas e votos dos deputados federais do Partido Novo durante os debates e as votações da PEC da Previdência.  Antes disso, atentou para as entrevistas feitas com João Amoedo, líder partidário e leu com atenção informações do portal correspondente. A agremiação que se organiza há cerca de 10 anos sob ideal neoliberal/capitalista elegeu vereadores e deputados em grandes centros eleitorais, até porque nunca teve uma única palavra para o Brasil profundo. A primeira constatação é que o Novo segue a tendência comum de dividir o Brasil em pedaços, visto que a fala, componente da gramática partidária, não deixa ninguém impune. Se o Novo desconhece o país real, seus discursos revelarão o desconhecimento. Ademais, os representantes do Novo compõem a classe média alta do país e não poderiam falar de outro lugar. Nesse sentido, o partido é coerente.

Partamos, no entanto, da Previdência, cujo primeiro turno foi vencido. As falas dos jovens deputados/as se organizam por sintaxe antiga e rançosa, isto é, eles e elas reconhecem (sem conhecer) as dificuldades e mesmo a miséria dos pobres, mas em seguida apresentam as orações coordenadas seguintes como semanticamente superiores à inicial, isto é, a despeito da miséria de viúvas, trabalhadores idosos, professores etc., o alvo proposto pelo estudante de Chicago (na velha fase liberal da academia) é mais importante do que o sofrimento. Pior, o sofrimento dos pobres é indispensável na vitória da ideia do liberalismo. Talvez não saibam que aquele liberalismo já está, teoricamente, enterrado ou que não serve para nenhum país repleto de desigualdades.

Parecia, ao ouvi-los e ouvi-las, que tentavam desabridamente enfiar os conceitos de meritocracia e excelência, empreendedorismo e autonomia financeira, apreendidos e aprendidos nos cursos da GV ou nalgum workshop do Novo, às professoras adoentadas pela dura tarefa contemporânea de ensinar, aos trabalhadores das transumâncias brasileiras ou dos projetos de existência dos povos dos sertões e das florestas.

Era patético. Mas não soava mentiroso ou indecente o discurso. Algumas vezes eles iniciavam suas falas afirmando terem parentes e amigos entre aqueles violentados pelos petardos da “nova” previdência, mas a coerência liberal exigia deles oferecer ao Guedes o trilhão, garantia do Brasil novo. E lá iam novas carradas discursivas para desidratar o humano referido na primeira frase em favor da hidratação de um alvo econômico do Guedes.

Poucas vezes se viu no Congresso tamanha desumanidade na boca de gente jovem. Tal desumanidade, porém, tem coerência, pois o já envelhecido neoliberalismo dos anos de 1980 e 1990, que professam, assim também criava e desenvolvia seus discursos. Este colunista, que pesquisou na Europa o pensamento da OCDE e o mercado de trabalho das juventudes durante dois anos, encontrou e leu o mesmo modo de argumentar: o humano reconhecido como ponto de partida é incinerado na argumentação liberal dos textos intermediários e termina irreconhecível ao fim dos textos, quando os economistas da organização-suporte do G7 lançam suas admoestações, libelos e recomendações aos países-membros ou àqueles que pretendem comer na mesa dos mais ricos. Este pesquisador leu e analisou os documentos que trataram de educação, saúde e trabalho, bem como o texto analítico denominado Economic Outlook, publicado a partir de Paris, duas vezes ao ano.

É prá lá que Bolsonaro quer ir, atabalhoada e desengonçadamente. Imitando Trump e perdendo direitos comerciais. Sem conhecer, também ele, o Brasil real e profundo, no qual a má compreensão da diversidade natural e cultural  assassina a equidade e afirma a desigualdade como natural. É lá, obviamente, que o Partido Novo também deseja estar. Para não ir, teria que reaprender do Brasil, o que parece impossível no momento. A linguagem dos deputados federais nos lances da Previdência prova a impossibilidade.

Mas ainda cabe questionar: qual a diferença estrutural do comportamento dos representantes do Novo em face das velhas “cobras criadas” do Congresso?

Infelizmente, para os dirigentes do Novo, nenhuma.  Ombrearam-se ao relator da Comissão Especial e a todos e todas que usam discurso similar para seguir o poder executivo, simular mudanças e tentar manter no Brasil quistos e nichos de privilégios, que não são de policiais ou professores, assentados ou nações indígenas, mas sim de grupos de proprietários dos bens de produção, latifundiários, políticos, empresas de serviços educacionais e similares.

Poucos meses de discurso no processo associado à Previdência brasileira foram suficientes para igualar o Novo aos demais envelhecidos, pessoas e partidos secularmente no poder.

E os moços e moças do Novo pareciam tão avant-garde!…

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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