Luiz Roberto Alves

01 de maio de 2019, 12h13

Paulo Freire, para negar o progresso do atraso

Luiz Roberto Alves: “Conforme o debate se desenvolver, poderemos vir a pensar que esse tempo de vida brasileira de fato não merece Paulo Freire, pois ele é o educador da sociedade livre e consciente”

Paulo Freire, símbolo da cidadania - Foto: Acervo Instituto Paulo Freire

O projeto recentemente apresentado ao Congresso Nacional para retirar Paulo Freire do patronato educacional do Brasil sinaliza a anticultura que avassala o país. Tal documento não seria produzido, ou aprovado, por quem tivesse lido com atenção ao menos dois livros de Freire. Ou quem tivesse amor à educação e pudesse conceituá-la na História. Pensemos juntos.

Nos anos de 1960, Paulo Freire enunciou um novo projeto cultural para o Brasil. Sua proposta de ação-reflexão-ação para educar os milhões de analfabetos reverteu o sentido de cultura e ação cultural. Alfabetizar-se na sociedade desigual e injusta para com as minorias seria a nova práxis da cultura. Uma práxis aprofundada na construção de direitos aos bens simbólicos e aos códigos então retidos pelas elites passariam a instituir os sentidos da cultura.

Até então, cultura brasileira era, sistematicamente, aquilo que pensavam ser cultura os grupos que se entendiam como elite, quer pelo nome tradicional, quer pelos recursos acumulados, ou ambos. Daí vêm preconceitos como cultos e incultos, cultivados e ignorantes, os que sabem apreciar ópera italiana e os que não passam do folclore. Ainda que não resistam à mais simples análise científica, tais preconceitos se colocaram como tabus e mitos sociais. Ao contrário, pela prática do novo caminho freireano, bens simbólicos como a educação, o fazer artístico, a melhor comunicação social, a expressão autônoma na sociedade e o acesso a melhores formas de trabalho seriam ampliados, mas não como favor ou dádiva e sim como conquista, como ato político, ato de consciência cidadã. Concomitantemente, os códigos brasileiros da língua e das linguagens, que se mostravam socialmente nos jornais, revistas, TV e também na criação artística ganhariam novos leitores, espectadores e, principalmente, analistas e críticos. Quem de fato aprende, critica.

Em nenhum outro momento do país monárquico e republicano enunciou-se um conceito mais criativo, construtivo e garantidor de direitos. Uma revolução pela cultura, cujas armas eram a explicitação de direitos, a dinâmica das palavras geradoras de diálogo e a consciência de que o círculo do aprendizado no bairro, na oficina, na casa rural, no sindicato, na garagem e na escola produzem, necessariamente, mudanças nas pessoas, nos grupos e na sociedade. Não precisa exigir muito das conexões históricas para ver nessa proposta de cultura o átomo das novas reivindicações sociais, a melhor compreensão dos problemas ecológicos com o esgoto a céu aberto, a revelação dos escondidos e esquecidos, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pessoas com deficiência, gente migrante, enfim, o nosso eu-outro a nos revelar as efetivas diferenças do país que somente andava bem para os “donos” dos bens e da cultura.

Invertia-se, pois, o conceito. Cultura não seria mais tudo o que se cria ou se transforma ou os produtos das artes e letras. Ao retirar das mãos exclusivas das elites proprietárias o antigo conceito, ele se associou à leitura gaguejada do homem e da mulher em rota de cidadania; por extensão, ajudou a disseminar a escola das crianças e adolescentes populares, como Freire denominou a escola pública. Sem criar um método, mas sim um conjunto harmônico de valores e estratégias pedagógicas, que atravessou livro a livro, palestra a palestra, curso a curso, esse pensamento calou fundo no coração e na consciência de educadores e gestores de diferentes graus e etapas da educação e do fazer cultural. Por certo, nessa conceituação não se nega a arte, até porque sua feitura e existência garantem novos símbolos e novos acúmulos de conhecimento e sua socialização. O leitor/a de poesia pode ser poeta. O leitor/a de jornais e de poesia pode ser trabalhador/a mais exigente e mais eficaz em seu ofício e também poeta ou exímio cozinheiro/a. Os novos direitos não iriam discriminar ou erigir preconceitos como antes, porque o próprio ato de educar pessoas ergue, na sua diversidade de tempo e espaço, a sociedade democrática.

O primeiro erro dantesco dos golpistas de 1964 e dos “filósofos” da boca suja de sempre é de caráter geopolítico. Essa gente não foi inteligente para ver que um processo pedagógico aberto, presente nas obras de Freire, que se nega a ser método estrito e se realiza segundo as possibilidades culturais concretas do lugar onde se instala o círculo de aprendizado, pode chegar a exigir, pela nova consciência, direitos nunca garantidos no país, mas não tem competência para construir comunismo ou marxismo cultural. A própria diversidade do país gigante dilui saberes políticos. Para exemplificar de outro lado, raras pessoas ficaram mais patrióticas por causa das aulas de educação moral e cívica ou organização social e política do Brasil durante a ditadura. O país continente serviu de esponja e detergente para as doutrinas insertas naquelas aulas e o que restou foram alguns dados e certos julgamentos do período.

Se Freire não fosse enxotado pelos golpistas e depois, no retorno em 1979, menosprezado por cultural-funcionalistas e autoritários de diversos talantes, nossa Constituição de 1988 seria mais enxuta (pois não careceria de minúcias), os governos seriam mais bem escolhidos, a força do movimento ecológico não permitiria as centenas de venenos que nos matam pela boca e pelo nariz e nos levam aos corredores do SUS; do mesmo modo, o alunado na universidade seria muito maior do que os 8 milhões de hoje, com professores dignificados e os empregos seriam atrativos, solidários e criativos, pois o Brasil teria feito uma leitura melhor do próprio mundo em movimento de globalização. A questão chave da pedagogia freireana implica em ler melhor o mundo e a palavra, a palavra e o mundo, sem estreiteza ou sectarismo em pensamento e prática. Bah, quanto perdemos!

O segundo erro, que envergonharia Aristóteles, é o que considera a política. O fato de que a política restou em poucas mãos e grupos, que digladiaram em torno dela como em ritual de lobisomens, levou-a à mesquinharia, como também sucedeu à cultura. Ora, um suporte conceitual alucinado facilmente rebate sobre os textos de Paulo quando chama a educação de ato político.  Enquanto meu amigo e mestre pensava num velho e bom conceito de política como fenômeno da cidadania, do direito à cidade e ao campo, do direito à terra e seus bens-comuns, os ouvintes-participantes do festim politiqueiro aplicavam à política o papo de bordel, emporcalhado pelas viciadas ideologias. E dado que essa política da boca suja tinha muita gente proeminente no seu bojo, a de Paulo passa a ser vista como o mal, o inferno, a vermelhidão do fogo esquerdista.

Houve e há outros erros e preconceitos, que somente a inteligência de boca limpa poderá debater, refletir, julgar. Resta, porém, uma verdade: Freire esteve e está longe da escola brasileira e da burocracia do MEC. Os que o veem por aí, a dominar o pensamento educacional, devem estar em desertos culturais, onde as miragens confundem a visão. Ou nada mais leram nos últimos 25 anos. Ou, pior, são portadores de completa má-fé. Seria bem hora de subirmos o nível de nossas falas e discursos, pois o jargão da boca-suja e a brutalidade da ignorância não têm mais nada a oferecer. Essa condição é um ponto de partida para ler melhor a palavra e o mundo em que nos colocamos como país grande, diverso, desigual e injusto.

Se o projeto for aprovado, teremos revelada a perversão ético-cultural dos poderes da atual sombra republicana; se não, poderemos acreditar que há uma centelha, ou aura de esperançamento na representação popular. Conforme o debate se desenvolver, poderemos vir a pensar que esse tempo de vida brasileira de fato não merece Paulo Freire, pois ele é o educador da sociedade livre e consciente.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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