Luiz Roberto Alves

19 de setembro de 2019, 18h11

Paulo Freire, patrono do futuro da educação brasileira

Luiz Roberto Alves, em sua coluna na Fórum: "Hoje Paulo Freire faria 98 anos. Em sua imensa generosidade, a aura freireana daria algum desconto ao que ocorre pela ignorância e pela prisão da consciência nas relações brasilienses de poder"

Paulo Freire (Reprodução)

Hoje o Paulo faria 98 anos. Sua silhueta na esplanada dos ministérios, chamada de feia por Jair Messias e Weintraub, vê o MEC e testemunha a confusão e os desmandos da área educacional do governo. Em sua imensa generosidade, a aura freireana daria algum desconto ao que ocorre pela ignorância e pela prisão da consciência nas relações brasilienses de poder. No livro À sombra desta mangueira (p.75), Freire discute o nosso inacabamento humano, nossa finitude; conclui a reflexão afirmando que os animais são adestrados, as plantas cultivadas e homens/mulheres se educam.

Conheci o educador brasileiro e mundial bem cedo, ainda na experiência de Angicos, em colaboração com os estudantes brasileiros. Dali não saiu um método de alfabetização, mas uma postura pedagógica que assume a confiança do aprendizado na comunhão educador-educando diante do mundo, da comunidade e de suas possibilidades de mudar a história. Para tanto, nenhuma ideologia fatalista cabe no trabalho educacional e sim as ações que buscam construir a autonomia e a liberdade (vide Pedagogia da Autonomia e Pedagogia da Indignação, pp.28 e 95). O pensamento freireano combinou bem autores cristãos e não-cristãos, de que derivam ideias claras sobre os atos de construir-se no mundo e ajudar a construir o mundo por meio de mudanças pessoais e coletivas.

Em 1984, quando publiquei o resultado de entrevistas com pessoas idosas e suas narrativas de contos e experiências de vida, Paulo se entusiasmou e fez o prefácio. Ali anotou “Eu imagino tudo isso quando algumas dessas Marias e desses Josés começaram a falar aos jovens pesquisadores com seus gravadores na mão. Começaram a contar essas histórias há muito guardadas, mas não esquecidas. E não esquecidas porque fazem parte de sua identidade de classe, de cultura de classe. Mas, eu imagino, quando começaram a falar da história guardada deve ter dado a essas Marias e Josés a sensação de que falar não é só um direito, mas é também um dever”. Quem lê o poema sem título de Paulo no início do seu livro publicado postumamente Pedagogia dos Sonhos Possíveis encontra a mesma posição pedagógica, pois a relação entre um “estrangeiro” e o “povo do vale” se dá como nós, os pesquisadores diante dos narradores populares. Carece-se de confiança, bem-querer, aproximação, o que leva em seguida a dizer o que se lê do mundo. Os aprendizados se realizam dentro de várias leituras do mundo, incluídos confrontos com o mundo. Aprender não é somente ouvir, nem ler, nem ver. É mais, como se depreende dessa pedagogia coerente, mas não imutável, que Paulo demonstra desde Angicos à morte um dia depois de um primeiro de maio. A pedagogia do mestre e amigo se voltava para ele, como educador e conferencista. Ao falar, fazia primeiro a crítica do tema proposto e problematizava o que ele mesmo ia dizer. Essa pedagogia jamais pode ser o ato de um sobre o outro.

Por isso ele se encontra com a política, porque não reconhece qualquer intenção libertadora no neoliberalismo, que chama de “malvadez” em várias obras. Sua crítica se realiza no fato de que qualquer forma de suposta educação neoliberal terá que adaptar o estudante ao projeto dos lucros e à necessidade do adestramento para o exercício de funções que interessam ao clube do poder econômico que detém a grande maioria dos bens sociais. Aí não há acordo (que tanto se lê na Pedagogia do Oprimido quanto na Pedagogia da Indignação e outras obras), pois os atos de educação do humano, que nasce inacabado, devem se dirigir para expressões de autonomia, de autoria, de criação e de liberdade, sem qualquer obstáculo para gênero, raça, fé, costumes, origem, lugar etc.

Paulo foi um entusiasta da humanidade infantil e juvenil. Algumas vezes me disse que no seu travesseiro já tinha indagado sobre as razões do medo e da vigilância que os autoritários tinham para com ele. Demonstrava não aceitar facilmente que a sociedade repleta de diversas formas de analfabetismo se negasse a fazer avançar muitos e inovadores projetos de alfabetização. Não lhe era suficiente dizer que todos os ditadores se horrorizam com projetos de alfabetização, até porque muita gente estudada, muitos cientistas e antigos humanistas se bandearam para o comodismo neoliberal.

Pode ser que no fundo de sua alma a ideia de que seremos inacabados, sempre, tinha algum lugar. A consciência de que eu sou somente quando o outro é parte de mim e que, juntos nos construímos, nós e a história, exige que nos dispamos de preconceitos, ojerizas, frases-feitas, linguagem precária, ainda que sejamos simples e pobres. A consciência que se desenvolve no cotidiano dos encontros e na admiração do mundo refaz em nós falas e gestos na direção de dizer o mundo, aprender dele, ensinar nele e ser nele de forma autônoma e cidadã.

Será que tudo isso está longe demais do capitão-presidente e do seu subordinado no MEC?

Se sim, dá para entender como eles tratam o educador amoroso, exigente e bem-pensante, que ficou feliz quando recebeu de uma tribo africana o único presente que ela tinha para lhe dar, um cacho de bananas. Retribuição por um tempo de exercício da pedagogia que continua a encantar o mundo, menos no Brasil.


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