Luiz Roberto Alves

26 de dezembro de 2019, 13h22

Paulo Reglus Neves Freire, o presente que o Brasil rejeitou (1)

Luiz Roberto Alves: "Por ter acompanhado a formulação da Base Nacional Comum e vivido boa parte da vida nas salas de aula da escola pública periférica em São Paulo, afirmo a total ausência de Freire da educação brasileira

O educador Paulo Freire - Foto: Reprodução/TV UFMG

É tempo de Advento.

É sabido que, ao lado de outras e outros formuladores de propostas didático-pedagógicas, Freire é uma dádiva rejeitada, pois nunca experimentada na educação pública e escolar do Brasil. Portanto, Paulo jamais teve a ver qualquer coisa como o Enem, o Pisa, o Ideb e quaisquer outros exames de massa, nacionais e estrangeiros. Respeitáveis, mas estranhos aos projetos de Paulo. A posição do Brasil nos rankings está a anos-luz do autor de Educação e Mudança.

Do mesmo modo, ele jamais teve qualquer atuação no MEC e o Conselho Nacional de Educação (órgão de Estado ligado ao MEC) refletiu sobre a obra dele somente em 2013, pela primeira vez. Aqui e ali foi trabalhado por mestres alfabetizadores, brasileiros, africanos e doutras bandas do mundo, embora seja estudado na universidade brasileira e nos programas de educação de universidades do exterior. Qualquer conversa sobre a influência de Freire na educação pública brasileira significa falta de história e ato explícito de má-fé.

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Portanto, Freire é um regalo, um presente, uma dádiva rejeitada. Mas é nosso, lambuzado pelos sabores, saberes e suores do Nordeste.

Na manhã deste Natal ocorreu-me um fato curioso. Caiu-me aos olhos um vídeo de um senhor Rodrigo Constantino que, soube depois, é economista e escreve no jornal regional Gazeta do Povo, Curitiba. Constava que ele iria massacrar o Paulo com textos do próprio, uma espécie de apoio à tese energúmena do Sr. Jair Messias, atual presidente.

Fiquei curioso. Ouvi e vi três vezes, por dever do ofício de pesquisador. Esclareceu-me o senhor Rodrigo que iria usar vários livros do autor de Pedagogia do Oprimido para o massacre. No entanto, usou somente um, de 1996, ao qual nominou “Pedagogia da Anatomia”. Caí de queixos e, ao consultar minhas dezesseis obras do Paulo, não a encontrei. Joguei nos buscadores e somente me veio a Pedagogia da Autonomia no lugar da Pedagogia da Anatomia, que não existe. Talvez o senhor Rodrigo tenha lido a última obra publicada em vida do educador, embora sua entonação me sugerisse que lia outra coisa, pois até um palavrão saiu de sua vociferação, o que não fui educado a repetir, nem Freire.

Talvez o Sr. Rodrigo tenha tentado fazer uma “anatomia” da obra de Freire; certamente não um massacre, pois ele não acrescentou um ceitil bíblico à realidade, quer sobre o conhecimento do mestre, quer sobre a violência diária que ele sofre no Brasil. Ou talvez tenha somente desejado destilar seu ódio a algumas coisas e pessoas e, entre estas, mesmo àqueles que conhecem Raymond Aron e demais construtores intelectuais da modernidade. Também Freire combina nos seus textos Merton, Marx, Piaget, cantadores populares nordestinos e outros igualmente importantes para as tomadas de decisão autônomas na contemporaneidade.

Para compensar o horror protagonizado pelo Sr. Constantino, vi outro vídeo do Youtube sobre a obra Pedagogia da Autonomia com o jovem Vinicius Reccanello de Almeida, objetivo, sensato, claro e rigoroso, cuja aula teve mais de 311 mil visualizações.

Por ter acompanhado a formulação da Base Nacional Comum como conselheiro junto ao CNE e vivido boa parte da vida nas salas de aula da escola pública periférica em São Paulo, afirmo a total ausência de Freire da educação brasileira, a qual sempre foi eclética, copiadora rápida de modas europeias e americanas, produtora ocasional de decalques e via-de-regra com dificuldade para aprofundar propostas consistentes. Talvez aí, e na falta de melhor formação inicial e continuada de professores, a par da falta de avaliação sistemática do ensino no processo de inserção das camadas populares na escola pública, residam os resultados ruins da nossa educação. Sobre isso já escrevi em várias obras, mas sempre vale lembrar.

No entanto, o tema desta coluna está a exigir resposta, o que se dará em 3 sequências. Trata-se de oferecer reflexões de Paulo Freire para o trabalho de construção curricular das unidades escolares, principalmente para que não se aceitem imposições de pedagogias agarradas na última hora de suas traduções em forma de apostilas, algo bem comum no trabalho de treinamento do magistério desde o início da ditadura civil-militar.

  1. “Jamais entendi, desde criança, como é possível conciliar a fé no Cristo e a discriminação social, de classe, de nação. Como é possível ‘caminhar’ com o Cristo, mas chamar as classes populares de ‘malcheirosa’ ou ‘gentalha’. (À sombra desta mangueira. São Paulo: Olho D’Água, s.d. p. 86).
  2. “A tolerância é a maneira aberta, pós-modernamente progressista que, enquanto convivo com o diferente, me faz aprender com ele a lutar melhor contra o antagônico”. (Idem, p. 36).
  3. “A história não é feita por indivíduos; ela é socialmente feita por todos nós e a cidadania é o máximo de uma presença crítica no mundo da história por ela narrada”. (Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: Editora Unesp, 2001, p. 129).
  4. (Competências do Professor) “A prática de ensinar envolve necessariamente a de aprender a ensinar. A de pensar a própria prática, isto é, a de, tomando distância dela, se aproximar para compreendê-la melhor. A prática de sua formação teórica permanente” (Idem, p. 205).

Paulo foi professor de Português e Filosofia. No interior de seu pensamento e suas influências, não poderia ficar para trás o perfeccionismo linguístico e a reflexão dialética do pesquisador e educador. Nas demais colunas, pelo menos mais dez obras de Paulo serão citadas para a leitura crítica dos que educam cotidianamente adolescentes e jovens. Serão trechos sugestivos de leitura da obra inteira.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

 


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