quarta-feira, 23 set 2020
Publicidade

Pra não dizer que não falei aos céticos sobre o golpe

Antes de mais nada, o sentimento que se acumula em nosso coração, diante da morte de nossos conterrâneos, é a repulsa diante da total insensibilidade dos atuais donos do poder no governo central.

Repita-se: a História não se repete. No entanto, em países continuamente incapazes de solucionar o problema central das desigualdades econômico-sociais, os fenômenos de assalto ao poder instituído se realizam com grande similaridade.

Visto que o Brasil é campeão mundial em desigualdades, é possível extrair dos golpes contra o Estado e a Democracia discursos e tramas assemelhados. Tais semelhanças não podem ser imputadas somente aos que golpeiam diretamente, mas à multidão de bajuladores, convertidos de última hora, serviçais intelectualizados, oportunistas e massas-de-manobra pinçados das classes sociais, que sofrem ameaça de perda do mínimo de privilégio, ou expostas à fome e outras misérias.

É nessas águas que está a navegar Eduardo Bolsonaro, com os comentários vistos e ouvidos a respeito do “quando” ocorrerá a ruptura, que precisa ser chamada, adequadamente, de golpe.  

Veja-se, antes, que as similaridades dos golpes brasileiros são tão fortes quanto capazes de operar num processo que comporta vários álibis, em cuja essência opera a máxima negatividade dos atos “dos outros” justificadora dos golpes dos “uns” sobre aqueles. E tudo ocorre de modo rápido, pois quando o golpe não é célere, a oportunidade passa.

O deputado Eduardo Bolsonaro, cujo cérebro é ocupado em cem por cento por uma cartilha que despreza a real e longa história da Democracia, se imiscui nas suas franjas para transformar a rotina democrática em alimento para seus claríssimos alvos.

Pesca em águas turvas e produz insumos mitificados exatamente pelos seus contrários. Seu álibi principal consiste na produção e na reprodução favorecida pelas tecnologias das “ameaças à democracia” e dos “crimes praticados pelos outros” (STF, setores legislativos, cientistas, imprensa e lideranças) para então dar um “golpe democrático”.

Noutras palavras, o próximo golpe será o do direito de acumular mentiras à exaustão para justificar um golpe do tipo messiânico, supostamente redentor, no contexto da cartilha pensada internacionalmente, mas que tem melhor “chão” no campeão das desigualdades, este país que De Gaulle rotulou como não sério. Os rótulos são dispensáveis.

O discurso histórico para os golpes brasileiros (a despeito do espaço exíguo) revela que eles encontram similaridades, com a diferença das facilidades tecnológicas que tiveram, ou não, em mãos.

Em 1937, a ameaça real da eleição de um paulista e constitucionalista à presidência da República, Armando de Salles Oliveira, engendra intensa boataria (mentiras em contexto de baixa operação tecnológica) que remonta à revolução de 1932 e seus recalques paulistas, que inclui críticas ao pensamento “futurista” e comunista e muito mais.

Então, o golpe, que juntou toda aquela leva de gente acima citada e que, entre horrores, rendeu a CLT e alguns atos de comoção e drama nacionais conhecidos. As mentiras-boato trabalhadas à exaustão construíram a base do golpe.

Há similaridade em 1964. Nenhum estudioso sério viu qualquer anormalidade no processo democrático das multidões a exigir direitos e reformas (não revolução; somente reformas). Outra vez, de modo rapidíssimo, produz-se intensa mobilização para um apoio popular medíocre e limitado, mas fundamentado no forte conservadorismo das classes detentoras de algum privilégio e suscetíveis ao apelo religioso.

Veio o golpe, que os céticos e otimistas do “outro” lado imaginaram passageiro e que durou tempo demais, até sua completa corrupção e insolvência, então entregue aos civis. Novamente, a construção discursiva da suposta negação democrática no movimento das ruas, fortalecida pelos medos e temores dos “ismos” que vinham “de fora” foi levada ao limite e, em poucos meses, estava armada a mesa do golpe.

Como se viu, este texto não assume o uso de nenhuma palavra do universo do desgoverno presente e do seu aparato golpista. Nem o uso de direita e esquerda, sempre discutíveis. E assim deve ser, se quisermos ficar longe do campo de significações produzido pelo antigoverno, que merece a ira e o despreza dos 210 milhões de brasileiros somente pelo fato de ser anti-educativo e negar o exemplo mínimo de civilidade que uma geração adulta deve mostrar a toda a geração de crianças, adolescentes e jovens do país.

Este mau exemplo da cúpula administrativa (para ficar só na reunião de 22.04.2020) bastaria para que fosse reprovada de modo a botar fim ao seu governo.

Hoje, nem mesmo as ameaças “de fora” existem para justificar o golpe, depois da queda simbólica do Muro de Berlim. E não precisa haver, pois a armação tecnológica engendra a formação, desenvolvimento e expansão de uma moeda franca e comum: o simulacro, a falsidade, a mentira, palavras substancialmente melhores do que fake news, pois o intenso uso midiático desta última já a “normalizou” como conversa acalorada, bate-papo, discussão de boteco, coisa comum no Brasil e, pior, que pode ter um pouco de verdade.

Aqui reside o risco maior da midiatização a serviço do mal, até sem querer. Mentira e falsidade são o que são, etê significação maior do que fake news. E, para negar um dos ditados tontos que conhecemos, não se trata de que mentira e falsidade repetidas viram verdade como regra. Só vira verdade quando há terreno fértil para tal, quando a ignorância e a fraqueza do pensamento democrático se juntam a favor da simulações e mentiras exaustivas. Quando a fraqueza e a ignorância se tornam bucha de canhão dos armadores de golpe.

O Bolsonaro que falou o que falou, o fez como representante golpista. Essa representação está acelerada desde primeiro de janeiro de 2019, em meio a suas viagens para a construção mais adequada da cartilha do golpe.

O que se verá a partir de agora (a senha foi dada depois dos atos mais recentes do STF) é a fetichização de qualquer discurso efetivamente democrático revertido (pelo fetiche) à condição de negação da democracia.

Para fortalecer o fetiche, palavras “populares” e de baixo calão serão intensificadas, comuns a esses grupos educados pelo jargão baixo. Se o fetiche trabalhar a favor do mito da “democracia” de que o Brasil “precisa” (esse Brasil é o deles, evidentemente, projetado sobre a totalidade suposta do pais) então será a hora do golpe, que terá o nome de ruptura democrática.

Não nos atrevamos, pois, a confundir ruptura com golpe. Que se cuide também a mídia, especialmente âncoras, editores e comentaristas, que repetem muito e criam pouco em questões de linguagem. As rupturas são muitas e algumas delas positivas (como na arte e na estética), mas os golpes, em países ricos e vulneráveis para a exploração como o nosso, são sempre corruptos e corruptores na sua história.

A fala do presidente Bolsonaro contra o ministro Celso de Mello é exemplar do procedimento aqui descrito. Basta acompanhar as que se seguirão. E o contraponto, que vem do Sr. Augusto Heleno sobre “que não vai haver interferência, blá-blá-blá” é conversa para boi dormir. Não se pode contar como verdade, em absoluto. Somos tontos? Nascemos ontem? O senhor Heleno deseja que a nação fique refém de suas contradições discursivas.

Então, chegou a hora dos céticos e dos otimistas com reflexão limitada. Até por razões de conforto psicológico, multidões étnicas na história do mundo, grupos sociais, lideranças de toda a ordem e poderes constituídos tenderam a achar que “a coisa não é tão grave”, que “temos estruturas sólidas”, que alguma coisa vai impedir o pior.

Prefiro os que se parecem com gatos escaldados. Quem não conhece resultados que desconheceram tais falas?  Aqui se prefere não exemplificar para não melindrar grupos sociais que, com alguma razão, não desejam expor memórias infelizes e dolorosas. Però, para lembrar Galileu, que ocorreram coisas horríveis, certamente ocorreram. Uma espécie de escárnio ante o ceticismo e o conformismo.

Além do mais, há pouca resistência nos poderes. Com o devido respeito, como esperar dos presidentes da Câmara Federal e do Senado da República algo melhor do que têm feito, considerada sua formação política? Até o último dia, o senhor Alcolumbre e o senhor Maia buscarão desanuviar o ambiente. Ora, ora… Eles não são bombeiros, como diz a mídia. São “homens partidos”, como assinalou Carlos Drummond de Andrade sobre um tempo similar ao atual.

O fato é que há milhões de antigos e novos miseráveis no país, cujos movimentos não se pode prever, a despeito do otimismo de estudiosos e lideranças em sua capacidade organizatória. E, por sua vez, o grupo citado de bajuladores a oportunistas sempre se coloca de plantão, como exército de reserva das oportunidades.

Desse modo, para o fortalecimento e a expansão da democracia e sua efetivação como qualidade de vida para todos e todas, se carece de ampla mobilização social, por todos os meios possíveis, com focos simultâneos no desmonte dos fetiches (para que não virem mitos, que são ladrões da palavra democrática), no fortalecimento das comunidades organizadas, na celeridade dos procedimentos da justiça, na demonstração dos males perpetrados contra a juventude (educação e trabalho) e no fortalecimento da pesquisa e do ensino de parte de todas as ciências e saberes; enfim, proponham-se todas as melhores políticas de bem-comum e se mostre ao país que elas se opõem cem por cento ao pensamento dos armadores de qualquer tipo de golpe.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

Luiz Roberto Alves
Luiz Roberto Alves
Professor e Pesquisador Sênior da ECA-USP. Conselheiro Nacional da Educação (CNE) entre 2012 e 2016. Educador na área básica e pública por vinte anos. Tem escrito obras sobre educação, cultura brasileira, comunicação e políticas públicas.