Luiz Roberto Alves

17 de junho de 2019, 06h00

Que país é esse?

Que país é esse, no qual parlamentares, ministros, empresários e economistas supõem ser possível impor o Liberalismo sobre uma humanidade brasileira tão desconhecida em sua profundidade social quanto sempre submetida a leis, normas e decretos injustos que mais ainda a tornou invisível?

Foto: Marcos Côrrea/PR

As frases poéticas de Renato Russo/Legião Urbana devem voltar às ruas para exercer sua missão de consciência crítica, ao lado do refrão que Miúcha imortalizou: O Brasil SOS Brasil/O Brasil não conhece o Brasil.

Ao ouvirmos as frases odiosas da família Bolsonaro, os discursos de congressistas de Brasília que estufam o peito para assumir um tal de Liberalismo, a vociferação de baixo calão dos comentaristas de artigos e senhores de twitter, o sistema do direito estranho à justiça, bem como o ilusionismo da maioria dos âncoras da Tv brasileira, as frases da nossa poética se encaixam e se tornam sinais do Brasil que se desconhece. E enquanto este país for desconhecido, pragmaticamente desconhecido, nenhum avanço econômico, cultural ou político será possível. Tudo o mais será jogo de poder, burla discursiva e volúpia da mais-valia, isto é, um país sempre pior, a despeito de sua grandeza e seus muitos recursos.

Ver e ouvir os desconhecedores do Brasil leva imediatamente a ligar os territórios da vida, os fenômenos históricos, a arte brasileira e a fragilidade da política no coração do povo e principalmente da maioria de seus representantes.

Desconheceu-se o Brasil quando a equipe de Mário de Andrade, ao lado de Lévi-Strauss, revelou as falas, imagens e sinais de outros muitos brasis, dos povos do Brasil, metáfora perfeita do país-continente, longe daquele que ainda se bastava na costa onde chegaram as caravelas da predadora posse portuguesa. Desconheceu-se o povo brasileiro a despeito do brilhantismo da narrativa nordestina, que revelou a morte, os desejos e a solidão em Graciliano, Jorge, Lins do Rego, Rachel, Ariano, João Cabral e a caudalosa literatura popular em verso e prosa. Manteve-se desconhecido o povo-país a despeito de Portinari, Tarsila e Di Cavalcanti e ainda desconhecido a despeito da riqueza da música brasileira que nos embalou há não poucas décadas. A oitiva dos citados no parágrafo 2 deste texto anuncia, de modo fulminante: desconhece-se o país e sua gente. E há pouco interesse em conhecê-los, pois isso causaria algum compromisso com as multidões empobrecidas, humilhadas e ofendidas.

Mas a atitude epistemológica do conhecer exige melhor explicitação. Não se conhece a gente e o país sem o adequado movimento de teoria e prática, ambas acumuladas em confrontos e esforços sinceramente éticos para interagir/comungar com a vida do outro/outra que habita os territórios que nos são próximos e aqueles que nos são distantes. Essa atitude que garante o conhecimento é a base de todo o trabalho educativo, que a educação brasileira também desconhece (e Weintraub muito mais!}, embora tenha sido proposta por Paulo Freire, que raras pessoas, entre as citadas acima, leram. Nada leram, nem gostaram.

Dado que o país sempre se afirmou cristão, o conhecer evangélico é a porta de entrada para o amor, como se depreende dos encontros de Jesus, o Cristo, nas andanças por Galileia e Judá, com destaque para as belas cidades de Jericó e Jerusalém. O amor, então, solda o conhecimento. Portanto, a verdade evangélica exige o conhecimento, como o amor; daí se entende o atual governo do país, agarrado a pastores midiáticos: uma combinação do absurdo e do autoritarismo, a que se soma a ausência de linguagem organizada e a falta básica do conhecimento do Brasil real. Uma soma de caóticos, dirigida por outro que vive fora do país.

Que país é esse, no qual parlamentares, ministros, empresários e economistas supõem ser possível impor o Liberalismo sobre uma humanidade brasileira tão desconhecida em sua profundidade social quanto sempre submetida a leis, normas e decretos injustos que mais ainda a tornou invisível? Talvez seja possível pensar em dimensões liberais em partes do território dos Estados Unidos e algumas nuances do regime nos modos do empreendedorismo como se vê em territórios como Nova Zelândia e Canadá. Mesmo assim, o Estado se encontra muito presente (menos com Trump, que nada conhece) para garantir saúde, educação, transportes, saneamento, cultura a todo o território social.  O liberalismo capitalista que faz estufar peitos no Brasil implica a divisão brutal do país, amplia seu desconhecimento social e sentencia de morte aqueles que não conquistaram ainda as bases do direito e da justiça para viver. Será que isso não é obvio para os congressistas que estão desesperados para meter 1 trilhão nas mãos do senhor Guedes? Reformar a previdência social sem alterar profundamente, ao mesmo tempo, todo o sistema de cobrança de impostos, arrecadação, investimento e auditoria isenta do sistema é sinal do desconhecimento do Brasil e, por que não, é blefe, burla e ardil.

Que pais é esse em que se pensa e se faz segurança armada e se desarma, ao mesmo tempo, do pleno incremento da cultura e da educação de qualidade em cada cantinho das cidades, dos estados e do país, incluídos aí todos os tutelados pelo Estado nas prisões e nos espaços sócio-educativos? Talvez não seja mais produtivo somente criar memes de pessoas ignorantes do Brasil, como Witzel, Moro e outras personagens deste governo e poderes correlatos, pois talvez não possam mais aprender. O que vale é botar fé, como fez Gonzaguinha, na juventude que se constitui e recria um conhecimento novo do país por via dos necessários confrontos, os quais educam e criam comunhão social.

Que país é esse em que o âncora Bonner chama de criminosos vazamentos de dados oriundos do caos e do narcisismo de agentes do Estado obrigados a fazer somente justiça? Causa revolta ver que nos condenados de agora, quando detêm algum poder, projeta-se o horror maior das condenações de milhões de pobres sem culpa formada e sem direito a apelações, comum em nossa história. Pior é que esse senhor guindado a âncora, isto é, poder, joga no rosto de milhões o discurso mentiroso do crime sem ter qualquer sensibilidade diante do fato de que muitos dos seus telespectadores conheceram na vida de familiares e amigos, hoje e antes, esse tipo de justiça caótica e narcisista. Ademais, que crime é esse que muda de nome e de sentido segundo a circunstância? Vazamentos criminosos já foram vazamentos virtuosos, não?

Que país é esse em que poderes se mancomunam para criar pactos por isso ou aquilo como se fosse possível pactuar tremendas divergências de pensamento, função e significação? Ou pactuar sem sustentação social? Por que não sugerem instrumentos de consulta mais dignos, como consultas, referendos etc? Outra vez a ignorância e o narcisismo, desta vez na cúpula dos poderes.

É provável que o círculo dos odiosos não leia nada, nem gibi. Mas, como sugeriu Manuel Bandeira, carece-se de trabalhar com as palavras mal começa a manhã, organizando-as sob confrontos que nos eduquem e eduquem as comunidades. As vozes da história, da música, do teatro, do cinema, da literatura, da pintura e da escultura estão vivas, narrando coisas belas e tristes do Brasil, ponto de partida para o conhecimento e deste para a educação. As vozes da arte se integram às vozes das gentes deste país lindo, trigueiro e brutalizado pela ignorância e pelos interesses exclusivistas. Apesar de muitos, amanhã vai ser outro dia.


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