Luiz Roberto Alves

30 de outubro de 2019, 16h21

Sim, a revolução, sem chifres e fraudes

Luiz Roberto Alves: “Os encontros, os diálogos, as passeatas, as novas linguagens da liberdade e da paz, as marchas voltaram e ficarão, para o bem da América Latina. A despeito das línguas fraudulentas e dos discursos de bocas-sujas”

Foto: Reprodução

Ahavtáh col dibrei calah leshon mirmáh (Tu amas palavras corrosivas, língua fraudulenta!) – Salmo de David, 52.6

O colunista acompanhou grupos de chilenos, peruanos, uruguaios, bolivianos, argentinos e brasileiros oriundos de distintas tradições ecumênicas durante as marchas do povo do Chile, que persistem. Durante dias e noites não se leu nem se ouviu um por cento da meleca linguística em que se transformou o Brasil na onda moribunda do atual governo. De fato, analisou-se o real e foram indicadas soluções inteligentes para um novo tempo de efetiva participação nas tomadas de decisões em todas as políticas públicas.

Fica evidente que convém aos supostos poderes da América Latina dobrarem-se diante de algo que não conhecem: a revolução democrática, feita com base na cultura e da educação. E que não façam como o presidente Piñera, que foi do discurso do terrorismo ao aprendizado de que o povo chileno nas ruas tinha inteira razão diante da sociedade neoliberal que se criara na esteira de Pinochet.

Melhor será reconhecer, de imediato, a seriedade dos movimentos que ocorrerão, pois o que está encastelado nos poderes só pode servir a alguns grupinhos de bilionários e certos funcionários que têm as brechas das leis a seu favor. Mais ninguém. Da miséria às classes médias, o sofrimento é a regra, regra essa que vai diminuindo as exceções, inclusive no mundo dos letrados, cultos, formados e especializados. Paulo Freire, que espanta (por ignorância) Rogério Marinho e todos os seus iguais e semelhantes no governo, repetiu, não poucas vezes seu horror diante da “malvadez neoliberal”.

Cabe reconhecer o movimento da grande mudança social e não tentar enganar pela língua fraudulenta denunciada no Salmo, como ainda pretende Piñera e sua tropa no Chile. Por isso, os grupos das redes estão brilhantemente ativos e os movimentos continuarão. Importante é não ler as mensagens dos ignorantes de boca-suja, nem ouvi-los mais, pois dali nada pode vir, nem valer.

Voltemos à linguagem suja e autoritária. O Brasil se transformou num lugar de asco linguístico e as pessoas estão atrás desse grande grupo pouco alfabetizado e nada educado, em parte com gula das novidades e fuxicos cotidianos, em parte porque também gostam de xingar e fazer da língua a fraude da educação.

De seu lado, a pobre mídia rica brinca sobre retirar as crianças da sala. O que se tem de retirar da sala é o discurso desnecessário da deseducação das novas gerações, traição efetiva da proposta de Roquette Pinto para a mídia. O mestre das emissões radiofônicas há quase um século não sugeriu a pureza elitista da fala, mas a vocação fundamental da mídia como veículo da cultura e da educação das gerações. Proposta que se perde hoje na ignorância do boca-sujismo.

Por que esta reflexão? Porque a linguagem linguística significa o ser humano e o constrói, ou destrói. O que estamos vendo e assumindo no país é a destruição das identidades humanas na corrupção da cultura, via linguagem, visto que a formação do povo é realizada pela cultura e sua dimensão sistemática, a educação. O que se vê, hoje, é a realização do vale-tudo da ignorância, sempre útil à imposição do autoritarismo.

As falas da família Bolsonaro, do Queiroz, dos engalfinhados nas disputas de poder do congresso e nas reações de twitter e comentários de xingações dos gurus brutais de plantão não constituem notícia como ainda supõe a mídia; de fato são movimentos de mentiras que criam ambiente para as notícias não reveladas, que lemos e ouvimos nas redes chilenas e latino-americanas, isto é: a falsidade das reformas do trabalho, da Previdência, da política tributária e quaisquer outras no modelo turbo-liberal em vigor.

Não haverá nenhuma alteração das concentrações de riqueza, da distribuição das migalhas, e, portanto, do aumento dos miseráveis, da artimanha injuriosa entre executivo e setores do judiciário, da negação educativo-cultural, da criatividade nos modos de fazer corrupção, da justificativa banal de alguns acadêmicos e mídia para detalhes marginais das reformas que, de modo algum, poderão produzir justiça, visto que não é de sua natureza fazê-lo.

É isso que a América Latina está a discutir e é sobre isso, com diversas linguagens, que se moverão as bocas e os gestos do povo. Nessa hora, toda a linguagem sexista, machista, salvacionista e outras istas cessará, pois se constituem língua fraudulenta. Também não terão a importância que esperam ter os políticos populistas, “cuidadores” ou pseudo-salvadores de seus países, cuja arrogância deverá submeter-se a ser uma voz nas multidões. E não mais que isso.

Há, porém, algo que os setores desinformados do país, hoje em milhões, incluídas suas lideranças legislativas, executivas, religiosas, sindicais e judiciárias, não conhecem. O doce, honesto e rigoroso Paulo Freire tem um desenho dessa revolução construída nas bases da educação e da cultura em seu livro “Pedagogia do Oprimido”. Mas não nas traduções e sim no manuscrito que Paulo fez e deixou nas mãos de Jaques Chonchol em 1968, recuperado pelo Instituto Paulo Freire.

No desenho de próprio punho, à página 157, Paulo constrói a teoria da ação revolucionária e a da ação opressora. Na primeira os povos interagem pelo diálogo e fazem de sua subjetividade um lugar objetivo de humanidade, o qual transforma a realidade vivida no cotidiano. O resultado é aquele que toda verdadeira educação realiza: autonomia e liberdade para novas tomadas de decisões. Na segunda, opressora, a realidade existe para ser mantida pelos que lucram e se aproveitam dela. Os oprimidos jamais chegam a ser sujeitos de direitos, mas sempre objetos. O que há de mais objetivo nela é a manutenção da opressão, pouco importando o discurso sobre mudanças e reformas feito de cima para baixo.

Na noite antes de morrer, Paulo estava feliz por assistir um vídeo sobre marchas de trabalhadores no primeiro de maio. Os encontros, os diálogos, as passeatas, as novas linguagens da liberdade e da paz (Shalom), as marchas voltaram e ficarão, para o bem da América Latina. A despeito das línguas fraudulentas e dos discursos de bocas-sujas.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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