Luiz Roberto Alves

26 de novembro de 2019, 22h33

Uma coivara para iluminar a consciência do presidente

Luiz Roberto Alves: "O que de fato não acaba é a ignorância do homem eleito pelos portadores de ódio, pelos falsos evangélicos, pelos pastores aproveitadores e pelos representantes da bala e das armas"

Bolsonaro (Foto: Reprodução)

O senhor Jair Messias Bolsonaro é o homem brasileiro que menos entende de cultura, isto é entende nada. Dias atrás, para garantir a agressão dos seus amigos mineradores, donos de terra, grileiros, derrubadores de matas e similares afirmou que desmatamento é cultural e, por isso, não acabará.

O que de fato não acaba é a ignorância do homem eleito pelos portadores de ódio, pelos falsos evangélicos, pelos pastores aproveitadores e pelos representantes da bala e das armas.

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A ignorância se realiza em três planos: no do conceito, no da oportunidade da fala e no da gradação e manejo das florestas.

No plano conceitual, sua excelência chuta uma frase de senso comum e banal, ou seja, a história do desmatamento na Amazônia coincide com hábitos, atitudes, folks e mores da população. Ora, presidente, cultura é o que se constrói por acordo simbólico entre pessoas, grupos e instituições, mas que deve obedecer a direitos, deveres, leis e justiça. Os únicos acordos simbólicos permitidos na relação com a floresta são aqueles que levam à criação de equipamentos urbanos indispensáveis, desenvolvimento de pesquisa científica, estabelecimento de cultivos agrícolas integrados aos biomas e a velha atitude indígena da coivara. Jair Messias ignora o que seja a coivara indígena. Vamos a uma definição. Trata-se do fogo em ramagens e acúmulos de substâncias naturais do terreno com vistas a clarear o espaço para plantação, com aproveitamento pleno das cinzas e seu potencial de adubo e fomento agrícola. Ademais, os indígenas têm atitudes diferentes quanto à agricultura e suas terras são muito limitadas no mundo amazônico. Nada a ver com a barbaridade vista nos últimos meses. Para a qual as demais autoridades políticas e judiciárias fizeram cara de paisagem…

Jair Messias ouviu falar em cultura, se esqueceu de perguntar o que era e passou a fazer o que um estadista jamais deve realizar: chutes verbais sem razão e sem sentido. Ou ele pensa que está em terra de asnos?

Segundo ponto. No momento em que seu governo apresenta taxas bárbaras de desmatamento e proliferação de minas ilegais sobre o território, vem ele com tal estultícia. A única atitude digna de um estadista nessa hora seria aceitar as estatísticas e demonstrar que seu governo começa a impulsionar atitudes radicalmente novas e inovadores a favor da queda nos números reais mostrados. Para tal, deveria fazer convocação nacional da inteligência brasileira, que já pesquisou e muito ainda pode fazer para garantir os papeis nacional e internacional da Amazônia. Essa inteligência se encontra nos institutos de pesquisa e demais núcleos de trabalho dentro e fora das universidades públicas, as mesmas vítimas do deboche dele e do abjeto Weintraub.

Nesse chamamento, fosse ele estadista, residiria a criação de uma cultura nova para o sentido maior da Amazônia. Se ainda há criminosos a matar a floresta e suas riquezas naturais, uma nova atitude seria não somente uma cultura de resistência de um governo democrático como levaria ao terceiro ponto, o do manejo da floresta.

Como se conhece de Euclides da Cunha a Rondon e a Chico Mendes, a hileia brasileira é rica, mas delicadíssima como uma flor. Euclides esclareceu bem na obra À Margem da História que a natureza na região norte, das fronteiras acreanas à foz do rio-mar, não trabalha necessariamente a favor do país, exceto se for muito respeitada. O rio carrega terras para fora, mar adentro; parte considerável do terreno não se renova como noutros territórios e o ambiente construído sofre erosão brutal. A Amazônia é uma dádiva a ser bem tratada, obedecida na sua geografia e profundamente respeitada na sua delicadeza de bioma especial.

Deste modo, o antigo inferno verde pode muito bem receber o homem e seus equipamentos de trabalho, mas “cuidado com o andor, pois o santo é de barro”. Por que Jair Messias não lê um pouquinho da descrição do trabalho do Marechal Rondon ou de Chico Mendes, que entenderam a exigência do “empate” naquela região. Você introduz o seu corpo e alguma tecnologia apropriada ao mesmo tempo em que considera e avalia sistematicamente as respostas dos biomas. A Amazônia exige em boa medida ser a hileia humboldtiana, ser floresta, mas pode compartilhar, interagir e escambiar valores com os homens sob bases dignas e respeitosas.

Nada disso sabe e nada disso supõe o presidente quando chuta e vocifera: É cultural!!! Ora, cultural coisa nenhuma! Cultural é criar nova e revolucionária atitude de preservação e manejo dessa dádiva da natureza, que faz bem a nós e nos conecta ao mundo a favor do futuro.

Oxalá dê tempo quando tivermos um presidente, ou presidenta, estadista. E quando tivermos legisladores e ministros de tribunais melhores do que os de hoje, assim como eleitores e eleitoras.  Por ora, só sofrimento e ignorância.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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