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25 de julho de 2018, 14h36

Lulu Santos ou a “bicha velha” na sociedade do Instagram

"O cantor Lulu Santos postou uma foto ao lado de seu namorado, assim, como quem deseja apenas compartilhar um momento de felicidade e pronto, foi o suficiente para acompanharmos o que há de mais triste na atual geração e aquela que se criou na década de 1990: ojeriza à velhice e preconceito com casais com diferença de idade"

Foto: Reprodução/Instagram

O cantor Lulu Santos postou uma foto ao lado de seu namorado, assim, como quem deseja apenas compartilhar um momento de felicidade e pronto, foi o suficiente para acompanharmos o que há de mais triste na atual geração e aquela que se criou na década de 1990: ojeriza à velhice e preconceito com casais com diferença de idade.

Todavia, ojeriza à velhice e culto a juventude eterna não são valores de agora, ganharam muita potência com a ascensão da publicidade a partir da década de 1970 e vivem agora um novo momento – só que mais potencializado – com as redes sociais e, em específico, com o Instagram. De um lado, alguns reagiram alegando que o cantor queria “biscoito” – gíria para quem deseja chamar atenção –, do outro lado, de que Lulu Santos estaria no ostracismo. Duplo engano.

Talvez os jovens com idade entre 16 e 25 anos nada ou muito pouco conheçam sobre a carreira de Lulu Santos, mas ele é considerado um dos maiores fazedores de hits da música pop nacional e hoje é um dos treinadores/ apresentador do programa “The Voice Brasil”; continua gravando músicas e hits… Ou seja, não está ostracismo. Mas isso não importa.

De nada adianta ocuparmos as redes e brigarmos por representatividade e escrevermos textos, produzir vídeos contra a hetero-normatividade e valores tradicionais se ainda reproduzimos o que há de pior em ambos. E aqui especificamente sobre os homens gays: não para, de um lado, pedir respeito e do outro apedrejar um cantor gay com 65 anos de idade que resolveu tonar pública a sua vida afetiva.

O problema da geração Instagram é que ela, em boa parte, desconhece história, e pior, a sua própria história. Se hoje há LGBT nas várias esferas da música brasileira é por que muita gente pavimentou essa estrada. Muito provavelmente a geração 90/00 não saiba, mas Lulu Santos fez parte da “geração desbunde”, aquela que veio logo após a ditadura e que, para muita gente era alienada, mas na verdade estavam vivendo tudo aquilo que lhes foi proibido. Há uma vasta bibliografia sobre.

É deplorável que um portal como o Põe Na Roda, que tem editoria voltada às questões LGBT, tenha dado a seguinte chamada para o namoro do Lulu Santos: “Lulu Santos posta foto com namorado e choca total de 0 pessoas”. É muito triste que um site com um amplo alcance entre as LGBT trate desta maneira um momento oportuno, por exemplo, para falar da vida bicha masculina na velhice, que ainda está fadada a solidão e esse tipo de “chamada” e “matéria” só reforça isso.

Como diria uma personagem do filme “Quase Famosos”: “ainda dá tempo de ser profundo”. Vamos melhorar, pois só derrubamos as normas quando paramos de reproduzi-las. Os corpos velhos, gordos e negros também são tesudos e maravilhosos. E o Instagram é uma edição mequetrefe da vida.


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