Manoel Herzog

04 de julho de 2019, 06h39

A delicadeza rude da poesia de Adriane Garcia, em “Garrafas ao Mar”

Da ilha da Poeta saem mensagens de dor, de revolta, de agonia, dos abismos profundos de que é feita a Literatura. Particularmente, um tributo ao movimento das mulheres, um dos mais resistentes nestes tempos de machismo e estupidez brabos que vivenciamos

Foto: Divulgação

Quem note as duas semanas que não colaboro aqui na Fórum há de questionar se andei doente, insatisfeito ou atarefado com outras inutilidades literárias. Quisera fosse: não tenho condição, e não é a primeira vez que o tento, de escrever sobre a obra da Adriane Garcia. Não fosse ela minha amiga-confidente-mestre desde tempos imemoriais talvez o fizesse sem problemas, afinal, um resenhador sem lastro faz o que bem entende. Gilberto Gil certa feita, instado a dizer o que pensava de Elis Regina saiu-se com a resposta de que o apaixonado não tem condição de falar nada certo sobre objeto de sua paixão. La Garcia e eu trocamos impressões sobre nossas mútuas literaturas, difícil sair livro meu ou dela impresso que já não tenha sido lido no original pelo outro. De um tempo pra cá agregamos à nossa confraria o companheiro dela, Tadeu Sarmento, grande escritor de quem ainda vou falar por aqui. Já resenharam coisas minhas, o casal, ela até fez um generoso comentário numa orelha (de livro, frise-se), tem mais capacidade de abstração que eu mas, como aqui não é coluna de crítica literária, conforme expliquei diversas vezes, me permito falar afetivamente sobre os bons livros de meus escritores diletos. E aqui o tento, destarte, com perdão do preciosismo.

A voz de Adriane é faca, feito a adaga que sai da boca apocalíptica do Filho do Homem na Bíblia, que a gente intui ser metáfora muito rica, coisa divina que não se viu mas que se sabe. A Poeta usa da palavra com precisão e afiadamente, diz pouco e direto, num estilo que batizei delicadeza rude. Premiada no concurso da Biblioteca do Estado do Paraná, a poesia de Adriane Garcia surgiu no cenário da literatura alternativa com força a partir de então, malgrado já fosse um sucesso entre a seita feicibuqueana, sucedâneo natural da Geração Mimeógrafo, confraria que ganhou força inimaginável pra uma rede social que privilegiaria, em tese, apenas o exercício egoico. Por curioso que seja, o fenômeno das redes veio a alavancar a leitura de poesia no Brasil, anote-se o fato de um livro de poemas de Leminski ter alcançado posto entre os mais vendidos depois de décadas de ostracismo do gênero.

Agora publicada pela combativa Editora Penalux, lança o volume Garrafas ao Mar, compêndio de sua melhor produção. O título é autoexplicativo, não fazem outra coisa os poetas que lançar mensagens incertas a um leitor futuro na esperança de compreensão, ou de resgate da ilha, do isolamento que é a puta desta vida nossa. É certo que apenas outros náufragos haverão de ler um dia, nossas garrafas boiam de ilha em ilha, na mesma incerteza que a bosta boia na água, e são colhidas só por outros poetas náufragos. Mas é isso que nos salva uns aos outros. Triste é morrer ao sol numa ilha paradisíaca, num Caribe de solidão, a classe média indo a uma Cancún fake tomar mojitos pra esquecer dos furacões.

Da ilha da Poeta saem mensagens de dor, de revolta, de agonia, dos abismos profundos de que é feita a Literatura. Particularmente, um tributo ao movimento das mulheres, um dos mais resistentes nestes tempos de machismo e estupidez brabos que vivenciamos. Eu, que já fui duramente criticado pela amiga (leia-se “já tomei sérias comidas de rabo”) por conta de um machismo recorrente ao melhor estilo Lupicínio, que ainda insisto em professar, não posso me furtar a fazer um derradeiro comentário, em público, que já fiz a ela: Adriane é a herdeira mineira de Cecília. Digo e repito, e se me contestam vão procurar a ode que fez à sua BH, onde vive, tão ao sabor do Romanceiro da Inconfidência.

A poesia brasileira é dominada por um triunvirato incontestável, dizem os especialistas: Bandeira, Drummond e Cabral. Eu digo que é um quarteto na verdade, porque até os Três Mosqueteiros de Dumas eram, na verdade, quatro. Aos três varões sagrados da poesia nacional podemos sem medo somar Cecília Meirelles, esquecida do pódio por sua condição de mulher. Adriane luta também por isso, e merece lugar de destaque no cenário poético da atualidade, no meio dos grandes Poetas, que esse negócio de poetisa não existe.

Excerto:

Poema sem maracatu

Minha tetravó não era nenhuma rainha na África

Minha tataravó veio num cavalo negro de morte que

Andava sobre as águas

Minha bisavó ficou livre depois dos sessenta e chorou

De tristeza até poder ficar

Sinhazinha deu beliscões roxos nela e ela sorriu

Desdentadíssima

Minha avó, muito antes, já fora tirada roubando leite

De suas tetas

Fugiu cedo e foi tornada catadora de papel

Minha avó abandonada abandonou minha mãe

E eu escrevi este poema.

 

Serviço: Garrafas ao Mar, poesia, Adriane Garcia, Editora Penalux, preço R$.40,00


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