Manoel Herzog

26 de julho de 2019, 06h00

A terceira margem do tempo – Adri Aleixo

Manoel Herzog: “Adri Aleixo não faz aqui nenhuma tentativa de subordinar a poesia à imagem, antes a poesia dimensiona a imagem, registrada com notável competência por Lori Figueiró, mas requalificada pela lente da poeta, filtro apurado de uma margem invisível”

Foto: Reprodução

Quando Rosa, nas veredas do seu Grande Sertão, falou que o rio tem três margens (Primeiras Estórias, 1962) desconstruiu-se o Tempo. A história (prefiro assim, com hi) tem sim, e Milton Nascimento o confirmou com seu clube, uma margem da palavra, oculta, que só a alcança o iniciado na Literatura, oral que ela seja, não falo dos eruditos.

Adri Aleixo surpreende com seu recém-lançado Das Muitas Formas de Dizer o Tempo, Ed. Ramalhete, 2019, trazendo a essência das profundas geraes em palavras que engendra sobre a imagética do não menos brilhante Lori Figueiró, fotógrafo.

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A trajetória da poeta vem num crescendo desde publicação de seu livro de estreia, Des.caminhos, Patuá, 2014, seguido de participações em antologias pelo país afora e de Pés, segundo volume de poemas, também pela Editora Patuá. Professora de literatura em Belo Horizonte, cidade pródiga em poetas mulheres aguerridas, daquelas que não aceitam o epíteto de poetisa, talentos do calibre de Adriane Garcia, Ana Elisa Ribeiro, Simone Teodoro, Norma de Souza Lopes e tantas mais, Adri, que é do interior de Minas, traduz com competência a poesia destas minas por tantos séculos saqueadas a lombo de burro, desviadas suas riquezas pro mar ao Norte, Salvador, ou Sul, Paraty, Estrada Real.

É nas Geraes onde se consolidou o germe da cultura do Brasil profundo, que nasce literariamente no Rio com Machado e chega a Rosa, que nasce musicalmente com Villa Lobos e Tom, mas resulta no Clube da Esquina.

Como as canções, que têm suas letras criadas a partir do mote melódico, a fotos, ao que parece, aqui ensejam os poemas do livro. Encartado à fotografia de uma senhora idosa da pele toda sulcada vemos este poema tão sintético e absoluto:

ESTIAGEM

Ela traz um rio no corpo

e o rio dentro dela

só quer ser mais fundo

Idêntico processo, pra ficarmos em dois exemplos (faculto ao leitor a descoberta das demais epifanias do livro), a partir da foto de um daqueles oratórios barrocos dos lares: mineiros

ORATÓRIO

Estes pós

Estes santos

Foram netos, mães, meninas

Quando morre um anjo

Deixam-no assim suspenso

Entre preces e fitas

_ Todos os dias este oratório me ensina a partir

Muito se  tem falado em poesia visual, e mesmo as experiências dos pós-modernistas todas convergem a um direcionamento da poesia contemporânea agregado às mídias que a cada dia surgem. As próprias redes sociais constituem-se num locus poético bastante interessante, que ao gênero agregou uma popularidade jamais alcançada.

Adri Aleixo não faz aqui nenhuma tentativa de subordinar a poesia à imagem, antes a poesia dimensiona a imagem, registrada com notável competência por Lori Figueiró, mas requalificada pela lente da poeta, filtro apurado de uma margem invisível. Recomendo fortemente.

O livro pode ser adquirido no site da editora (http://www.editoraramalhete.com.br/) e nas melhores livrarias da capital mineira, notadamente a Ouvidor, da Savassi, pelo valor de R$ 35,00.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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