Manoel Herzog

30 de maio de 2019, 06h00

RIP, Gabriel Diniz, por Manoel Herzog

A heroína Jenifer é levemente obesa, o que também desconstrói todo um império da beleza fitness inculcado a fórceps no imaginário popular. Jenifer é música de resistência, cantada com humor, com sabedoria, pelo jovem artista que tão precocemente nos deixou

Foto: Reprodução

Decorre da dominação norte-americana, que impõe aos colonizados brazucas a adoção da língua da metrópole em desprestígio ao português pátrio, a adoção de termo fúnebre “ripar”. Tem-se tornado muito comum hoje em dia o uso de “RIP, fulano”, sempre que passa ao lado de lá alguém famosinho. O “RIP”, que os ingleses usam tão bem, soa um tanto ridículo se usado por um brasileiro, mormente porque, via de regra, este não sabe o que está falando, sendo de maior proveito o velho “meus pêsames” (também poucos sabem o que sejam “pêsames”, ou “meus sentimentos”, “descanse em paz” etc.

RIP é, na verdade, uma sigla, e mesmo os da metrópole, influenciados por uma tradição judaico-cabalística, usam sintetizar em siglas várias de suas expressões idiomáticas. Exemplo: AIDS (acquired immunodeficiency syndrome). O RIP seria a coleção das primeiras letras da expressão “rest in peace” (descanse em paz, em bom inglês, mas há quem diga que na verdade a expressão é latina: ‘requiescat in pace”, o que não torna menos absurdo o seu uso nestas plagas. Eu tive um grande medo que algum iluminado se saísse com um “RIP, Beth Carvalho” em homenagem à madrinha do samba, que nos deixou há poucos dias, sem estardalhaço compatível ao seu valor imenso pra cultura nacional.

O estardalhaço foi visto nas exéquias a um outro artista, e confesso, atônito, não compreender o porquê de tanto furdunço. Esta semana ripamos o cantor Gabriel Diniz, morto de uma forma trágica e triste, no auge de uma juventude que ainda podia prometer algo de útil à música popular brasileira, a par do ceticismo de alguns velhos chatos que nem eu.

Confesso, não sem alguma vergonha, que eu não tinha ouvido falar do cantor, assim como até hoje não sei quem foi Cristiano Ronaldo (acho que era isso), um sertanejo universitário morto em condições análogas faz uns dois anos. Muito fui criticado por ambas as ignorâncias, mas progredi: se de Cristiano eu até então nada sei, nem o que ele cantava, do Diniz, cujo nome eu não associava à obra, eu tinha plena ciência de seu maior sucesso, Jenifer. E quero deixar claro que não há ironia alguma quando eu digo que gostei da música, ouvida na padoca onde tomo meu breakfast diário com pão integral e leite sem lactose. O hit, conforme apurei composto por nada menos que oito compositores, faz uma corajosa análise das relações amorosas, ainda pautadas pelo machismo secular da sociedade brasileira. O protagonista da canção está numa discussão com sua namorada “oficial”, que lhe toma satisfações sobre “quem é essa perua aí”. Ele, num arroubo corajoso e feminista, alega que é a Jenifer, que ele conheceu no Tinder, e que bem poderia ser ela a sua oficial, pois inclusive faz umas paradas que a oficial de fato não faz. Mais que isso, constatamos no videoclipe do megassucesso que a heroína Jenifer é levemente obesa, o que também desconstrói todo um império da beleza fitness inculcado a fórceps no imaginário popular. Jenifer é música de resistência, cantada com humor, com sabedoria, pelo jovem artista que tão precocemente nos deixou. A morte de todo homem me diminui, teria dito, se não me engano, João Danone, grande poeta sonetista inglês.

Não gosto de sertanejo, quando morreu o Cristiano Ronaldo pouco se me deu. Rogerio Skylab, um gênio, vaticinou que a morte não é, afinal, uma coisa ruim, pois levou Cazuza e Renato Russo. O acidente com os Mamonas Assassinas, uma banda de pop-rock-brega dos anos 90, me foi traumática. Eu os odiava. Faziam uma música machista, segregacionista, homofóbica, pequeno-burguesa e de um humor de gosto duvidoso, humilhando os pobres. Meus filhos adoravam, a exemplo de todas as crianças da época, aquela bosta. Sei de cor e salteado as músicas, obrigado a botar o CD pra rodar no carro pelos pequenos e com apoio da mãe deles – me sinto meio culpado pelo acidente que vitimou o grupo, acho que foi praga minha. Mais que isso, eu tinha (tenho ainda) um medo lascado de dormir sozinho. Assim, quando ocorreu o trágico acidente que fulminou a banda, fiquei numa perrengue: separado da mãe dos pimpolhos fui morar numa quitinete, onde, solitário, eu só dormia de TV ligada, de forma a simular alguma presença na casa pro meu medo de assombração. Naquela noite acordei e passava o velório ao vivo. Desci e passei a noite na portaria do prédio.

Enfim, eu que acho que a missão de cada homem na Terra é pré-estabelecida por uma força maior, me diminuo perante as mortes, em especial as prematuras e violentas. Há uma infinidade de artistas autodidatas que lutam contra a precariedade da formação musical e fazem, na medida de suas possibilidades, uma música pobre, sim, refém de um mercado canalha, sim, ditada pelo agronegócio que impõe essa gororoba sertanejo-bregapop aos ouvidos do povo, sim, mas fazem arte, e arte não se julga. Chorei a morte de Luiz Melodia e a de Beth Carvalho e lamento, do fundo do coração, a do menino Diniz, um talento ceifado sabe-se lá por que desígnio maior.

Jenifer (Junior Lobo / Thawan Alves / Thales Gui / Leo Sousa / Allef Rodrigues / João Palá / Fred Wilian / Junior Avelar)

Por Gabriel Diniz

 

Mas ela veio me xingando enchendo o saco, perguntando

Quem é essa perua aí?

Mas peraí, mas peraí

 

Você não paga as minhas contas

Já não é da sua conta

O que é que eu tô fazendo aqui

Mas mesmo assim, vou te explicar

 

O nome dela é Jenifer

Eu encontrei ela no Tinder

Não é minha namorada

Mas poderia ser

 

O nome dela é Jenifer

Eu encontrei ela no Tinder

Mas ela faz umas paradas

Ah que eu não faço com você

 

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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