Manoel Herzog

08 de outubro de 2019, 15h25

Terrorismo

Manoel Herzog: “A língua, essa entidade viva e dinâmica, tende hoje a associar o termo ‘terrorista’ a algo de santo; todo terrorista que se preza é um criminoso, mas um criminoso ‘do bem’”

Foto: Reprodução/YouTube

Policiei-me bastante esta manhã, depois de ver a notícia de um ano atrás, o terrorista de Las Vegas que atirou de um trigésimo andar matando cinquenta num show de música country, o sertanejo estadunidense. A palavra terrorista é neologismo de poucas décadas. Serve, criação de uma imprensa tendenciosa, pra qualificar pessoas que em outros tempos seriam denominadas guerrilheiro, revolucionário, revoltoso, insurgente. Todos estes termos envolvem o agente de uma aura de justiça, de messianismo, de ira santa e, portanto, chamar terrorista, demonizar aquele que luta violentamente por uma causa, foi a estratégia dos detentores do poder pra lançar pecha nos que se rebelam.

Tem algo de tiro pela culatra: a língua, essa entidade viva e dinâmica, tende hoje a associar o termo “terrorista” a algo de santo; todo terrorista que se preza é um criminoso, mas um criminoso “do bem”. O palestino tem porque explodir judeus sionistas, o estado islâmico tem todo o direito de querer destruir a sociedade ocidental cristã etc. Um latino-americano de esquerda tinha o dever moral, e ali a moral se chocava com a lei, de sequestrar um embaixador ou de explodir um banco nos tempos da outra ditadura. Assim, a atitude extrema, condenável e punível, vem revestida de uma razão nobre, qual seja, a de que um estado de coisas tirano encoberta um criminoso pior que aquele que o terrorista combate.

Pois bem: um maluco estadunidense, armado conforme lhe faculta a lei de seu país, sobe ao alto de um edifício com um fuzil e detona tiros numa população indefesa, que curtia seu sertanejo universitário numa boa. É atitude que causa inequívoco terror, ou seja, o sujeito é um terrorista, mas a imprensa o considera: psicopata; desajustado; maluco – não terrorista. Tem todo o perfil de um eleitor de Trump, um sulista estadunidense típico, armado e medroso e raivoso e perigoso. Mas quero arrogar a este homem (que, aliás, tombou em combate) o qualificativo de terrorista, sim. Ele não sabe, mas luta por uma causa, a causa da boa música, que o mesmo stablishment que mantém a imprensa golpista ajuda a destruir. Na sua loucura, no seu crime horrendo, o terrorista de Las Vegas nos grita que o capitalismo está acabando com a arte.

Imagino-me no alto de uma torre, em Barretos, com minha espingardinha de chumbo Rossi, da qual eu, cidadão de bem, detenho o porte com as bênçãos governamentais. Dois gordos de cavanhaques horrendos, gritando, um no violão outro na “sofona”, mato-os incontinenti. Na plateia rapazes do cabelinho “arrupiado” e tatuagem no braço, com moças cantando a música dos dois gordos de cavanhaque a toda altura sobre os ombros, metralho sem dó. Enquadro na minha mira aquela linda jovem, Paulinha, pei! Vou pro lado, lá tá Fernando, do lado dele Sorocaba, do lado dele Cristiano Ronaldo, pei, pei pei! Mudo de ponto, amiro, aponto, tá ali Marina Mendonça, Sionara & Sionysta, Eduardo nas Costas, pei pei pei!

Sou terrorista ou não sou? Psicopata não. Por um mundo com mais Justiça & Paz. Aqui é Bacurau com Tarantino, meu.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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