Marcelo Hailer

11 de março de 2019, 17h59

A doença do capitalismo

Marcelo Hailer, em novo texto para a Fórum: “O Estado de São Paulo, governado há 26 anos pelo PSDB, está em calamidade pública por conta da forte chuva que caiu. O governo tucano corre para dizer que a culpa é da chuva, mas sabemos que não é”

Foto: Reprodução/YouTube

Diariamente saio para caminhar por volta das 7h/7h30, atualmente vivo em um bairro de classe médica falida na zona leste de São Paulo, a Vila Prudente, no caminho que faço para chegar até o parque onde realizo atividades físicas, passo por duas importantes avenidas que ligam a ZL com o resto da cidade de São Paulo: Av. Vila Ema e Av. Professor Luiz Ignácio Anhaia Mello. É simplesmente um cenário apocalíptico o estado dessas avenidas pela manhã – hoje em dia em qualquer horário – mas pela manhã se amontam carros, ônibus superlotados, muita buzina e fumaça… Tenho certeza que 99% das pessoas estão no meio desta barbárie obrigadas e o nome disso é capitalismo.

E hoje, segunda-feira real oficial pós-carnaval, a barbárie já se deu logo na porta de casa quando, pelo motivo de um carro subir a rua na contramão e o outro veículo que vinha na mão indicada pela placa teve um surto e começou e xingar o motorista que vinha na contramão. Fiquei imaginado o estado mental dessas pessoas logo cedo e o resto de seus respectivos dias, sejam aquelas que trafegam em veículos particulares, sejam aquelas que trafegam em veículos coletivos.

A cidade a construção da doença mental

Na Vila Prudente se dá o fato de ser um bairro muito antigo, estreito e que foi se planejando, ao longo de sua história, em torno de casas e de alguns parcos edifícios. Esta situação se inverteu nos últimos dez anos: as antigas casas foram demolidas e deram lugar a enormes construções/edifícios, porém, o bairro não comporta o número de pessoas que hoje vive por aqui, logo, caos e barbárie nas vias internas. Sem contar que, quando chove, enchente.

Esse processo não é exclusividade da Vila Prudente, ele também se dá com os bairros Parque São Lucas e São Mateus (ambos na zona leste); cabe lembrar que este mesmo processo destruiu bairros como o Tatuapé e Vila Alpina, enfim, toda essa gente desemboca parte na Av. Vila Ema e parte na Av. Professor Luiz Ignácio Anhaia Mello para poder chegar na região central ou Jardins da cidade de São Paulo.

O modelo de vida que o capitalismo produz nas cidades simplesmente não pode continuar, pois, ele vive de curar e adoecer as pessoas: vou ao médico, este me receita psicotrópicos para acalmar, desta maneira toda uma indústria ligada à questão da ansiedade e da depressão se retroalimenta desta situação barbárica das grandes cidades, mas que também começa a atingir as cidades de porte médio.

Mas como convencer os cidadãos de que terão de abandonar este modelo de vida se quiserem viver melhor?

Um novo modelo de sociedade

A extrema direita, e não apenas no Brasil, começou a ganhar espaço e entrou em ascensão quando apostou na vida cotidiana da classe média brasileira. Mas, a vida da classe média brasileira não melhorou e deve piorar ainda mais nos próximos anos. Soma-se a isso o fato de que vida na cidade se tornou insuportável por conta dos governos liberais e ruins e da política de gentrificação do espaço urbano, como relatado acima.

A questão é: o governo Haddad frente à prefeitura da cidade de São Paulo e depois, na sua tentativa de reeleição, tentou comunicar isso ao eleitor paulistano, mas não deu certo por N motivos. Porém, essa é uma tarefa que a esquerda – acadêmica, partidária, dos movimentos sociais, da cultura etc. – vai ter que realizar e fazer o cidadão médio entender que o modelo de vida atual só produz doenças mentais e trabalhos precarizados e que isso tem um nome: capitalismo.

E no momento em que encerro este texto o Estado de São Paulo, governado há 26 anos pelo PSDB, está em calamidade pública por conta da forte chuva que caiu sobre o estado paulista. O governo tucano corre para dizer que a culpa é da chuva, mas sabemos que não é. A culpa é da gentrificação da cidade que enfia carro em cima de carro, libera condomínios gigantescos em bairros antigos, acumula sujeira que as prefeituras e governo estadual não dão conta e que resultam nestas enchentes e tragédias que estamos acompanhando.

Não é a chuva, nem a ansiedade, mas sim o capitalismo que produz todo esse cenário de horror. É isso que precisamos traduzir para o conjunto da sociedade. O capitalismo, além de ser um modo de produção, é uma doença.

Nossa sucursal em Brasília já está em ação. A Fórum é o primeiro veículo a contratar jornalistas a partir de financiamento coletivo. E para continuar o trabalho precisamos do seu apoio. Saiba mais.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum