domingo, 20 set 2020
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A esquerda brasileira foi abduzida?

Em menos de 12 horas o presidente Bolsonaro declarou que “o Brasil não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay. Temos famílias”. Posteriormente, em uma live ao lado de seu ministro da educação anunciou cortes de investimento nos cursos de humanas e que o dinheiro do contribuinte merece “respeito”.


São duas declarações que reafirmam o caráter totalitário do governo e de perseguição à pesquisa no campo das humanidades e da comunidade LGBT. Porém, o mais grave é o silêncio abissal dos partidos e sindicatos da esquerda brasileira. O candidato à presidência do Partido dos Trabalhadores (PT), na última eleição, que teve 47 milhões de votos, parece que desencanou de honrar esses votos e segue com posts irônicos. E as centrais sindicais que ainda possuem vínculo com a classe trabalhadora, o que estão fazendo?

Em vários grupos dos quais eu faço parte das redes o comentário geral é de que a esquerda desapareceu e que está todo mundo a deus dará. Me parece que os partidos de esquerda e as centrais sindicais encaram o governo Bolsonaro como mais um governo. Porém, erram profundamente. Não se trata de mais um governo inimigo de classe como no passado recente, é um nível acima: estes que se elegeram têm como missão eliminar o campo da esquerda do mapa brasileiro. Começaram por reescrever a narrativa histórica do Brasil e agora vão sufocar as pesquisas no campo das humanidades.

Mas, para a esquerda brasileira parece que está tudo bem. Porém, se continuar desse jeito, daqui a quatro anos não vai ter humanidades, nem oposição e nem movimento sindical. Alguns podem achar catastrófico, mas, infelizmente, todas as barbáries previstas estão se concretizando.

Ou a esquerda partidária e sindical acorda ou será tarde demais.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
Marcelo Hailer
Marcelo Hailer
Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).