Amor e liberdade no capitalismo

Marcelo Hailer reflete: “O amor seria/está aprisionado numa relação de reprodução e casamento; a liberdade é transformada em um objeto de fetiche a ser almejado por todos, porém, isso nunca acontece, pois, no capitalismo amor e liberdade simplesmente não existem”

Amor, liberdade e felicidade são três questões que estão presentes em praticamente todas as áreas do saber, em específico nas humanidades, mas não só. E isso não apenas no Ocidente, mas também em outros continentes. Porém, vamos focar no Ocidente. Sobre as três questões, é bem difícil datar quando elas emergiram nas discussões e desde quando passaram a pautar o cotidiano de nossas vidas. O fato é que nunca tiveram o mesmo valor e, com a ascensão do sistema capitalista desde o século XVIII, foram completamente desfigurados de qualquer valor ético.

Porém, encontramos a discussão sobre amor e liberdade em vários grupos antes do Ocidente ser organizado pelo capitalismo e seu poder social. Se pegarmos, por exemplo, os grupos heréticos – que eram muitos – havia entre eles discussões profundas sobre o amor e a liberdade. No primeiro, figurava uma relação de amizade, independente da questão sexual ou de orientação sexual; também não estava ligado ao fator reprodutivo, isto será introduzido no modo de produção capitalista e, principalmente, a fase final do colonialismo.

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A liberdade, esta era uma das principais questões dos grupos heréticos. Principalmente, com o avanço dos cercamentos e do início do Estado moderno, seus aparelhos de repressão aliados ao poder da igreja católica. Estes poderes, liberais e capitalistas, passaram a perseguir os hereges por vários motivos, mas principalmente porque havia entre eles uma concepção de mundo libertário que não coadunava com a visão de mundo católica e capitalista. Foram perseguidos e massacrados. Para quem tiver interesse em aprofundar esta questão, indico dois livros: “História noturna”, do Carlo Ginzburg, e “Calibã e a Bruxa”, da Silvia Federici.

O fato é que o amor e a liberdade ganhariam outros contornos com a Revolução Francesa, do Haiti e dos Estados Unidos. Estas três revoluções, que se deram no fim do século XVIII, colocariam em questão a liberdade, a igualdade e o amor, sim, pois, nunca podemos esquecer de que o amor, pelo menos nessa época, tratava-se de algo revolucionário. Como, posteriormente, nos diria Karl Marx, além da luta de classes enquanto motor da história, o amor também deveria estar presente, mas não o amor burguês – que é individualista – mas o amor ao próximo – não confundir com o amor cristão – e à liberdade. Amor e liberdade só seriam possíveis, na visão de Marx, quando todos estivessem libertos dos grilhões do capitalismo. Sobre este tema indico o livro “A Sagrada Família”, de Marx e Engels.

No final do século XIX e começo do XX, as revolucionárias soviéticas também refletiram sobre a questão do amor e da liberdade. Além de pautarem a questão da dupla jornada e da desvalorização do trabalho das mulheres no regime capitalista, as revolucionárias colocaram em questão a tutela das relações sob o Estado. Para elas, o Estado não deveria, a partir de contratos judiciários, dizer quando começava e terminava o amor e a liberdade, estes deveriam ser um ato concreto e histórico entre pessoas sem a necessidade de autenticações estatais. Para este tema, indico um texto e um livro: “O amor camarada”, de Alexandra Kollontai, e a “A revolução das mulheres”, várias autoras.

Porém, todas essas maneiras de refletir e praticar o amor serão soterradas com a ascensão global do modo de produção capitalista. O amor e a liberdade, que deveriam ser relações de ética e amizade em todas as esferas da vida, são capturados pela ideologia capitalista e transformados em valores de troca. Ou seja, o amor seria/está aprisionado numa relação de reprodução e casamento (civil ou religioso); a liberdade é transformada em um objeto de fetiche a ser almejado por todos, porém, isso nunca acontece, pois, no capitalismo amor e liberdade simplesmente não existem.

Sob o modo de produção capitalista a felicidade e o amor se transformam em um instrumento para fazer a pessoa acreditar, assim como Sísifo, que vale a pena, todos os dias acordar e carregar uma enorme pedra até o topo da montanha, pois, este é o sentido da vida: ser feliz e amar alguém incondicionalmente. Mas a pedra rola montanha abaixo todos os dias e nós acordamos com a vã esperança de que seremos felizes e de que encontraremos o amor da nossa vida.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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