Marcelo Hailer

19 de novembro de 2019, 15h55

Amor e liberdade no capitalismo

Marcelo Hailer reflete: “O amor seria/está aprisionado numa relação de reprodução e casamento; a liberdade é transformada em um objeto de fetiche a ser almejado por todos, porém, isso nunca acontece, pois, no capitalismo amor e liberdade simplesmente não existem”

Karl Marx - Foto: Wikimedia Commons

Amor, liberdade e felicidade são três questões que estão presentes em praticamente todas as áreas do saber, em específico nas humanidades, mas não só. E isso não apenas no Ocidente, mas também em outros continentes. Porém, vamos focar no Ocidente. Sobre as três questões, é bem difícil datar quando elas emergiram nas discussões e desde quando passaram a pautar o cotidiano de nossas vidas. O fato é que nunca tiveram o mesmo valor e, com a ascensão do sistema capitalista desde o século XVIII, foram completamente desfigurados de qualquer valor ético.

Porém, encontramos a discussão sobre amor e liberdade em vários grupos antes do Ocidente ser organizado pelo capitalismo e seu poder social. Se pegarmos, por exemplo, os grupos heréticos – que eram muitos – havia entre eles discussões profundas sobre o amor e a liberdade. No primeiro, figurava uma relação de amizade, independente da questão sexual ou de orientação sexual; também não estava ligado ao fator reprodutivo, isto será introduzido no modo de produção capitalista e, principalmente, a fase final do colonialismo.

Não é sócio Fórum? Quer ganhar 3 livros? Então clica aqui.

A liberdade, esta era uma das principais questões dos grupos heréticos. Principalmente, com o avanço dos cercamentos e do início do Estado moderno, seus aparelhos de repressão aliados ao poder da igreja católica. Estes poderes, liberais e capitalistas, passaram a perseguir os hereges por vários motivos, mas principalmente porque havia entre eles uma concepção de mundo libertário que não coadunava com a visão de mundo católica e capitalista. Foram perseguidos e massacrados. Para quem tiver interesse em aprofundar esta questão, indico dois livros: “História noturna”, do Carlo Ginzburg, e “Calibã e a Bruxa”, da Silvia Federici.

O fato é que o amor e a liberdade ganhariam outros contornos com a Revolução Francesa, do Haiti e dos Estados Unidos. Estas três revoluções, que se deram no fim do século XVIII, colocariam em questão a liberdade, a igualdade e o amor, sim, pois, nunca podemos esquecer de que o amor, pelo menos nessa época, tratava-se de algo revolucionário. Como, posteriormente, nos diria Karl Marx, além da luta de classes enquanto motor da história, o amor também deveria estar presente, mas não o amor burguês – que é individualista – mas o amor ao próximo – não confundir com o amor cristão – e à liberdade. Amor e liberdade só seriam possíveis, na visão de Marx, quando todos estivessem libertos dos grilhões do capitalismo. Sobre este tema indico o livro “A Sagrada Família”, de Marx e Engels.

No final do século XIX e começo do XX, as revolucionárias soviéticas também refletiram sobre a questão do amor e da liberdade. Além de pautarem a questão da dupla jornada e da desvalorização do trabalho das mulheres no regime capitalista, as revolucionárias colocaram em questão a tutela das relações sob o Estado. Para elas, o Estado não deveria, a partir de contratos judiciários, dizer quando começava e terminava o amor e a liberdade, estes deveriam ser um ato concreto e histórico entre pessoas sem a necessidade de autenticações estatais. Para este tema, indico um texto e um livro: “O amor camarada”, de Alexandra Kollontai, e a “A revolução das mulheres”, várias autoras.

Porém, todas essas maneiras de refletir e praticar o amor serão soterradas com a ascensão global do modo de produção capitalista. O amor e a liberdade, que deveriam ser relações de ética e amizade em todas as esferas da vida, são capturados pela ideologia capitalista e transformados em valores de troca. Ou seja, o amor seria/está aprisionado numa relação de reprodução e casamento (civil ou religioso); a liberdade é transformada em um objeto de fetiche a ser almejado por todos, porém, isso nunca acontece, pois, no capitalismo amor e liberdade simplesmente não existem.

Sob o modo de produção capitalista a felicidade e o amor se transformam em um instrumento para fazer a pessoa acreditar, assim como Sísifo, que vale a pena, todos os dias acordar e carregar uma enorme pedra até o topo da montanha, pois, este é o sentido da vida: ser feliz e amar alguém incondicionalmente. Mas a pedra rola montanha abaixo todos os dias e nós acordamos com a vã esperança de que seremos felizes e de que encontraremos o amor da nossa vida.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum