Marcelo Hailer

29 de julho de 2019, 19h07

Madame Satã contra o fascismo

Marcelo Hailer: “Madame Satã é uma peça obrigatória de se assistir, pois, une arte e política de maneira impecável e emocionante”

Fotos: Divulgação

Tudo começa na esquina da Rua Augusta, especificamente na calçada do Hotel Nova Jaraguá. Já são 21 horas, uma roda de samba se forma na rua, curiosos aglomeram, transeuntes não entendem nada, mas param para acompanhar a boa música e, ao mesmo tempo, olhares curiosos e repletos de interrogações: por que os músicos estão usando roupas do século passado?

Prostitutas e malandros começam a cantar, dançar, a cachaça e a cerveja correm solta. O tempo histórico se mistura, um misto da década de 1930 com 2019. O que era para ser apenas lirismo teatral acaba se tornando uma baita ironia: nos dois tempos históricos, tanto no século XX quanto no XXI, putas, bichas e travestis são perseguidas pelo governo e por suas ramificações fascistas no seio da sociedade.

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Mas o samba não se intimida com os olhares policiais, segue envolvendo os presentes, quem estava tímido, a essa hora já está na roda de samba. Ao casal de amigos, a prostituta avisa: “Faço homem, faço mulher e faço casal!”. Alguém não vai dormir nesta madrugada, porém, outros corpos irão tombar durante a música popular; e é assim que a roda de samba é interrompida: com uma travesti assassinada na frente de todos e todas. Ninguém fez nada, todos correram. A questão é que, aquele assassinato e o subsequente silêncio não são exceções, mas regra. Pessoas morrem diariamente, mas nem todas são merecedoras de luto e é neste clima de perplexidade e malandragem, que todos são encaminhados para dentro do bordel ou do teatro, como preferirem.

Fotos: Divulgação

Madame Satã: um musical brasileiro

Da calçada para o palco: é desta maneira que inicia a peça “Madame Satã: um musical brasileiro”, que está em cartaz no Teatro Jaraguá, premiado musical que já se apresentou em vários cantos do Brasil e está de volta à cidade de São Paulo, para uma curta temporada. O espetáculo é dirigido por João das Neves (in memorian) e por Rodrigo Jerônimo. A peça narra com sambas e poesias a vida de João Francisco dos Santos, popularmente conhecido por Madame Satã.

Madame Satã foi uma artista que viveu e se tornou lenda na primeira metade do século XX, na Lapa carioca. É muito difícil estabelecer uma narrativa convencional para se tratar da vida desta figura da arte brasileira, por conta do escasso material e registros. Ainda assim e a partir de uma densa pesquisa, o Grupo dos DEZ, responsável pelo espetáculo, apresenta as várias facetas de Madame Satã de maneira magistral e original. Satã é a puta, o malandro, o sambista, a bicha, a travesti, o amante, mas, acima de tudo, é um sujeito que luta para que o seu corpo não seja tombado pelo sistema heteronormativo.

O espetáculo ganha ainda mais potência política por conta do contexto sócio-político do Brasil neste século XXI. E, ao adentrarmos na vida de Madame Satã, ficamos com a sensação de que sim, no que diz respeito à perseguição aos corpos e às sexualidades dissidentes, o Brasil pouco avançou e hoje mergulha de cabeça na regressão histórica com a eleição de um governo, no qual representantes são declaradamente homofóbicos. Outro ponto alto da peça é a trilha sonora, que conta com um time de cantoras que faz todos se emocionarem nesta viagem densa e musical que foi a vida de Madame Satã.

“Madame Satã: um musical brasileiro” começa na calçada da Rua Augusta e não termina no palco, pois, como lembrado em vários momentos da peça – aliás, um roteiro que soube amarrar muito bem o tempo histórico passado com o presente -, as pessoas negras e LGBT seguem sendo assassinadas e perseguidas e pouco ou quase nada é feito a respeito. O sinal parece que está, sim, fechado.

Madame Satã é uma peça obrigatória de se assistir, pois, une arte e política de maneira impecável e emocionante.

Serviço: 

MADAME SATÃ – UM MUSICAL BRASILEIRO

Temporada: De 12 de julho a 8 de setembro de 2019. Sextas e sábados, às 21 horas, e domingos, às 19 horas. (Em setembro o espetáculo será apresentado de terça a domingo)

Teatro Jaraguá – Rua Martins Fontes, 71 – Consolação/São Paulo/SP). Telefone (11) 3255 4380.

Classificação indicativa: 16 anos. Capacidade: 274 lugares. Duração: 80 Minutos.

Ingressos – R$60,00 Inteira e R$30,00 Meia.

Acesso para pessoas com deficiência.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


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