Marcelo Hailer

25 de novembro de 2019, 21h35

Masculinidade e capitalismo

Marcelo Hailer diz que se torna inócuo falar do fim do machismo enquanto o capitalismo existir, pois a violência contra as mulheres, LGBT e pessoas negras é fundante do modo de produção capitalista

Foto: Agência Brasil

Você deve estar se perguntando: “Nossa, mas qual é a relação do modo de produção capitalista com a formatação da masculinidade?”. E eu respondo: tudo! Porém, para que isso fique claro, se faz necessário uma volta no tempo para que possamos compreender, com profundidade, como o desenvolvimento do capitalismo e a imposição de um modo de vida – o burguês – estão intrinsecamente ligados à misógina e ao machismo.

O primeiro momento histórico onde se dará uma implacável perseguição a modos de vidas – masculino e feminino – que não o reprodutivo e pautado pela dominação de um pelo outro é na Idade Média, especificamente entre 1.200 e 1.600. Hoje, há excelentes livros que tratam disso, mas aqui destaco dois: “História noturna”, de Carlo Ginzburg, e “Calibã e a Bruxa”, de Silvia Federici. Em ambas as obras, nos é apresentado como, a partir da cruzada católica, se dará a perseguição aos grupos classificados como pagãos, mas era mais do que isso.

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À época, estava em disputa a hegemonia pela organização da sociedade europeia. Nessa disputa estava envolta a dominação tanto das mentalidades quanto do poder político, pois não podemos esquecer que nesse tempo a igreja era um poder político, inclusive sobre reis e rainhas. Os grupos heréticos eram por demais populares e com outras formas de organização e crenças. Para se ter uma ideia, em vários deles existiam grupos que se pautavam pelo vegetarianismo e pregavam uma convivência com os animais, e outros que não viam problema algum nas relações homossexuais.

É a partir desses valores morais e éticos que a Igreja Católica vai pra cima dos hereges e passa a chamá-los de “adoradores do satã”, com dedicação especial às mulheres que dominavam as ciências médicas e aos homens que mantinham relação com outros homens. Portanto, aqui já demos dois fatores que perduram até os nossos tempos: a expulsão das mulheres do mundo do saber e a condenação das relações homossexuais. Esses dois valores não serão exclusividade da moral católica, outras religiões também seguem e praticam regras semelhantes.

O desenrolar dessa história nós sabemos: os grupos heréticos foram massacrados e homens e mulheres que não se pautavam pela visão católica, queimados nas fogueiras.

O Novo Mundo

No meio dessa guerra contra os movimentos heréticos temos a chegada das navegações europeias na América, que à época será tratada como o “Novo Mundo”. A descoberta de um continente gigante como o americano terá uma série de implicações. Aqui destacamos algumas: o mundo não mais territorialmente limitado à Europa, parte da África e Ásia, o início da globalização colonial e a destruição de culturas americanas.

A partir da colonização da América, vai nos dizer Anne McClintock, surge o que ela denomina enquanto Homo Conquistus, ou seja, um tipo de masculinidade que vai se pautar pela violência e pela dominação. A imagem construída por estes homens, de que a América era uma “terra vacante”, ainda que milhões de pessoas já vivessem por aqui, vai ser transferida para a construção de um novo tipo de organização social que se espalha pela configuração do lar, dos poderes políticos e, claro, do capitalismo incipiente.

Assim como na transição do Feudalismo para o Capitalismo, na Europa, todos os grupos e formas de organização social que não correspondessem ao modo nuclear/familiar que surgia foram destruídos. O mesmo se dará com os povos que viviam na América. A antropóloga Maria Lugones possui uma vasta pesquisa sobre isso. Ela nos mostra como, em uma aliança entre homens colonizadores e homens americanos, mulheres foram destituídas de seus poderes e toda a cosmovisão dos povos americanos também seria contaminada pela violência da masculinidade dos colonizadores.

Lugones nos revela que a divisão do trabalho dos povos americanos, que não se pautava pela verticalidade e pelas genitálias, passa a ser eliminada. Dessa maneira, os homens passam a ditar as regras e a se pautar pelo modo de organização masculino colonial. Isso trará graves consequências para o futuro (presente) dos povos americanos. Por exemplo, a relação homossexual, que não era uma questão para a maioria dos povos americanos, passa a ser; o mesmo se dará com a monogamia obrigatória, juntamente com a imposição da fé católica e, em algumas regiões, da protestante. O resultado disso nós já sabemos.

Ou seja, a América vivenciou uma dupla movimentação: a colonização que dizimou povos inteiros e a imposição de uma organização social pautada pela reprodução e o homem como o centro do poder.

Masculinidade e capitalismo  

Posterior a toda essa movimentação histórica teremos o advento da Revolução Industrial e o estabelecimento do modo de produção capitalista, a essa altura completamente dominados por homens e pela ideologia masculinista e configuração do lar tendo a “dona de casa” como o símbolo maior. Mas, cabe destacar que essa mulher a cuidar do lar e expulsa do mercado de trabalho se dá, principalmente, na classe mais rica, pois a proletária sempre existiu.

Porém, o homem proletário é também pautado pela ideologia masculinista desenvolvida pelos conquistadores e pelo capitalismo. Engels, no seu livro “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, trata disso. Ao entrevistar homens desempregados e que dependem do salário da esposa, reúne uma série de declarações onde estes homens se sentem humilhados. Porém, o próprio autor coloca que sim, a presença das mulheres nas fábricas desestabiliza o lar e diminui o salário dos homens. Posteriormente, Engels muda de posicionamento, mas isso revela para nós o poder social do capitalismo para além da economia e do modo de produção, mas como ele também organiza o modo de vida e atinge, também, mentalidades masculinas que atuam no campo da esquerda e dos movimentos revolucionários.

É por conta de tudo isso que se torna inócuo falar do fim do machismo enquanto o capitalismo existir, pois a violência contra as mulheres, LGBT e pessoas negras é fundante do modo de produção capitalista. Claro que isso não impede, enquanto o capitalismo persistir, que avancemos no debate, mas é necessário ter no horizonte que, para destruir a masculinidade tal como a conhecemos, é preciso juntamente destruir o modo de produção capitalista.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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