Marcelo Hailer

06 de novembro de 2019, 17h09

Muito meme e pouca resposta política

Marcelo Hailer alerta que memes e cards estilosos não vão impedir a prisão da ex-presidenta Dilma Rousseff e nem a destruição do que ainda resta do Estado de bem-estar social brasileiro

Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes - Foto: Marcos Corrêa/PR

Nada tenho contra os memes ou os cards estilosos que circulam pelas redes socais, aliás, gosto muito e acho que, em muitas vezes, informam e explicam questões que textos longos não dão conta e a ansiedade atual impede a leitura. Porém, me parece que estacionamos nessa disputa semiótica e um tanto humorística.

As últimas notícias desta terça-feira (5) devem acender todos os sinais de alerta da esquerda como um todo: o pacote ultraliberal apresentado pelo governo federal, que tem por objetivo sucatear ainda mais o SUS e a educação pública em todos os níveis, e a mais nova operação da Lava Jato, que tinha por objetivo prender a ex-presidenta Dilma Rousseff. A situação está muito grave e ela não cabe em memes e cards estilosos.

Além desses dois fatos para lá de grave, temos uma rearticulação da extrema direita, que pode desembocar em um novo partido – e alguém tem dúvida de que Bolsonaro e seus partidários vão conseguir as assinaturas para criar uma nova legenda? Sem contar que há um trabalho incessante de imposição sobre a narrativa da história recente do Brasil. Por mais que achemos um absurdo a ideia de que os governos do PT queriam impor o comunismo no Brasil, essa ideia pegou, assim como pegou a ideia de que a corrupção começou com os governos petistas. E mais uma vez: memes e cards não dão conta de contra-argumentar essa tese. É preciso mais.

E há um outro complicador que faz parte da estratégia da extrema direita brasileira: de um lado um núcleo que vai garantir a aprovação de todas as medidas ultraliberais no Congresso Nacional e do outro, o núcleo do terror, ou seja, a todo momento jogando ao vento ameaças contra a imprensa, de intervenção militar, daí surge o presidente para jogar água fria nos planos autoritários e ainda arremata “eu nunca defendi o controle social da mídia”. Nem os governos do PT, porém, a verdade dos fatos perdeu lugar no atual momento histórico.

Estamos vivendo um momento um tanto inédito na história recente: a burguesia se apoderou por completo do Estado brasileiro; quando escolheu Bolsonaro em detrimento de Alckmin, mirava não o futuro presidente, mas sim Paulo Guedes, que trazia a tiracolo as teses econômicas elaboradas pela época Thatcher-Reagan, ou seja, destruição dos direitos trabalhista, dos serviços públicos e perseguição implacável aos sindicatos e aos partidos de esquerda.

Se quisermos reverter tal quadro, não será com chuva de memes e cards estilosos. É preciso reinventar a maneira como a esquerda dialoga com a população, buscar novas vozes, retomar os trabalhos de base e mirar a juventude com idade entre 16 e 25 anos, que, neste momento tem certeza de que pode ser patrão de si mesma, empreendedora, autônoma e todo esse misticismo criado pelo neoliberalismo.

Memes e cards estilosos não vão impedir a prisão da ex-presidenta Dilma Rousseff e nem a destruição do que ainda resta do Estado de bem-estar social brasileiro.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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