Marcelo Hailer

12 de novembro de 2019, 16h33

Novas paternidades?

Marcelo Hailer destaca que tratar das masculinidades e paternidades é uma discussão que passa pela estrutura e o sistema vigente e não pela vida de indivíduos

Foto: Agência Brasil

Felizmente, nos últimos dois anos, há uma explosão de discussão, debates e documentários sobre as masculinidades, se há um novo tipo de homem surgindo ou coisa do tipo. Porém, o tipo de discussão que tem ganhado espaço é pra lá de equivocado, um tanto festivo, a respeito do surgimento de um novo tipo de homem e que este, ora ora, cuida dos filhos, faz comida e lava a louça. Sério, gente?

Obviamente, não descarto e nem trato como algo supérfluo o fato de que homens participem da vida dos filhos e também do trabalho doméstico. Mas, quando tratamos de masculinidades não é possível que a conversa estacione por aí. Até porque, tenho profunda desconfiança sobre o surgimento do “novo homem” ou de “novas paternidades”. Basta ir à porta de creches ou de escolas destinadas ao primeiro ciclo do ensino fundamental que constataremos: 99% das pessoas presentes são mulheres. Cadê o novo homem?

Acho bem esquisito essa eclosão de conversas sobre novas paternidades em torno de trabalhos que nem deveriam estar na pauta. O pai cuidar dos filhos e lavar louça não está fazendo mais do que sua obrigação. Mas, por que será que tais personagens têm ganhado tanto destaque? Ora, porque vivemos numa sociedade profundamente masculinista e machista, aí, basta meia dúzia de homens carregarem os seus filhos no colo para estamparem capa de revista e ainda serem tratados como “revolucionários”.

Além de ser completamente falso a ideia de novas paternidades ou novo homem, caímos numa vala comum de tratar algo que faz parte da estrutura – masculinidade/machismo – como um fato da vida privada. Selecionamos alguns personagens e os transformamos como parte de um movimento, que simplesmente não existe. Se houvesse uma nova paternidade ou masculinidade em curso no Brasil, com certeza não teríamos eleito um presidente que defende uns tapas no filho gay para transformá-lo em heterossexual.

Falando nisso, me espanta que as pessoas não tenham vergonha em falar de novas paternidades ou masculinidades quando vivenciamos com os piores índices de violência contra as mulheres e LGBT. Quando ainda é fato cotidiano gays, lésbicas, travestis e transexuais serem expulsos de casa por conta de sua orientação sexual e identidade de gênero. E isso se dá em várias classes, mas, em especial nas mais abastadas.

A tal da nova masculinidade, que não tem nada de novo, é discutida pelos grupos feministas e LGBT desde a década de 1960, isso para ficarmos na história recente. De lá para cá quase nada mudou e o que avançou foi graças à luta insistente dos movimentos feministas e LGBT. Aliás, se na virada do século homens heterossexuais passaram a usar roupas mais coloridas e justas é por se tratar de um movimento político de fora para dentro. Ou seja, não foi uma articulação entre homens heterossexuais que proporcionou um pouco de respiro no guarda-roupa.

As mulheres não se tornam pessoas completas com a maternidade, nos ensinaram feministas e pesquisadoras, nos últimos 100 anos. E o mesmo mito não deve ser transferido aos homens: ninguém se torna um novo homem por conta da paternidade.

Tratar das masculinidades e paternidades é uma discussão que passa pela estrutura e o sistema vigente e não pela vida de indivíduos.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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