Marcelo Hailer

05 de julho de 2019, 17h34

Pelo fim da centralidade do trabalho

Marcelo Hailer: “Apenas em uma sociedade do lazer/saber é que podemos construir o caminho para superar o ódio às diferenças e pôr fim à sociedade de classes, calcada na hierarquia social, racial e sexual”

Foto: Agência Brasil

Ao mesmo tempo em que o Brasil vive uma profunda crise econômica e com ela 13 milhões de pessoas desempregadas, acompanhamos também a ascensão de trabalhos profundamente precários organizados a partir de apps. As funções organizadas por esses aplicativos oferecem a ilusão da autogestão da vida financeira, porém, para o lucro minimamente digno, necessita-se trabalhar, pelo menos, 10 horas diárias. Na outra ponta, acompanhamos, também, a regulamentação da jornada de 12 horas.

Precariedade e fim dos direitos trabalhistas, este é o horizonte do século XXI. Mas, não devemos discutir trabalhos melhores, mas, sim, o fim do trabalho enquanto questão e ocupação central de nossas vidas. Se queremos romper com o modelo de sociedade neoliberal, é preciso retomar o debate das jornadas de 6 horas. Mas, também é preciso resgatar as ideias sobre uma sociedade que não seja formulada em torno do laboro. Lazer, artes e ações criativas devem pautar qualquer modelo de sociedade não capitalista.

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Não se trata de tema novo. Há inúmeros livros e artigos que tratam da questão da centralidade do trabalho, principalmente nos países em que foram vítimas da colonização e que hoje continuam a ser alvos das mesmas nações colonialistas, que impõem políticas mercantis para manter os países latino-americanos e africanos em subdesenvolvimento. É neste sentido que, além da necessidade de rompermos com o trabalho enquanto tema central, é preciso ter em mente que tipo de ocupação trabalhista está no centro da vida das pessoas?

A precarização do trabalho no século XXI atinge milhões de pessoas. Porém, agora vem revestida de ações tecno-afetivas do tipo “troque a sua carteira de trabalho por uma máquina de débito”. Os capitalistas não dormem. Se por um lado a esfera digital proporciona um outro tipo de comunicação que permite o local e o global caminharem ao lado, na outra ponta é este mesmo espaço responsável por novos tipos de trabalhos; novos apenas no módulo, mas regressivos, pois, são ocupações que exigem o máximo do corpo humano e pior: são ocupações sem qualquer respaldo do Estado. Ou seja, se o trabalhador adoece, fica por sua conta.

Os trabalhos digitais, em sua grande maioria, devem ser lamentados e não comemorados como “novas” opções de ocupação laboral. Mas, este debate só vai adiante a partir do momento em que as principais instituições – partidos, sindicatos e centrais – passarem a questionar a centralidade do trabalho na vida das pessoas. Principalmente agora, quando o presidente da República diz que o trabalho infantil não faz mal.

Vivemos uma regressão social em tantas esferas que é impossível dar conta em apenas um texto, seria necessária uma tese.

Transição: da sociedade do trabalho, para a sociedade do saber/lazer 

Pessoas podem questionar: mas então não vamos mais trabalhar? E como teremos renda? Como vamos obter dinheiro para ter acesso aos bens materiais, cultura e lazer? Não se trata de acabar com o trabalho, mas, sim, com o trabalho alienante. Marx e Engels tratam dessa questão em suas obras – seja em parceria, seja separadamente –; a introdução das máquinas deveria servir para emancipar trabalhadoras e trabalhadores de ocupações alienantes e insalubres. Estes poderiam então ocupar as suas vidas com trabalhos criativos e não mais passar de 8 a 12 horas em atos repetitivos e, ao fim do dia, não aguentar sequer desenvolver aptidões.

Podemos fazer uma relação das máquinas tratadas por Marx e Engels com a introdução da esfera digital no mundo do trabalho no século XXI. Diariamente recebemos informações sobre inúmeras inovações do mundo da tecnologia, mas, por que as tais inovações não melhoram a vida da classe trabalhadora? Por que ao invés de emancipar e dar fim a certas ocupações insalubres e que colocam a vida do trabalhador em risco, estas tecnologias criam exércitos de desempregados, subempregos e precarização profunda na vida da classe trabalhadora? Ou seja, nem as máquinas e nem a atual inovação tecnológica são o problema, mas, sim, o fim a que são destinadas: tornar os ricos ainda mais ricos e os mais pobres ainda mais pobres. Essa lógica precisa ser invertida.

É preciso então organizar um projeto de sociedade onde o trabalho não seja mais central na vida das pessoas. Antes do trabalho, o exercício da criatividade, o lazer, o tempo verdadeiramente livre com os amigos, parceiros amorosos e com aqueles que consideramos família. O trabalho como conhecemos deve ocupar apenas uma parte de nosso dia a dia, digamos, umas 5 horas diárias. Assim, além de combatermos a alienação de trabalhos exaustivos e repetitivos, uma vida focada no lazer e no saber seria o melhor remédio para as doenças que são apontadas como “do século XXI”, tais como burnout, depressão, ansiedade. Males que levam cada vez mais pessoas a cometerem suicídio. Pois, na sociedade do trabalho, quando você não corresponde aos anseios capitalistas, você é transformado em um fracassado.

O modelo de sociedade na qual estamos inseridos está completamente esgotado. Mas, não nos enganemos. A transição de uma sociedade focada no trabalho para uma focada no lazer/saber também implica na substituição do modo de produção: do capitalismo para o socialismo (é fato que o socialismo do século XX também esteve focado nas forças produtivas, mas, ainda assim, foram regimes que deram destaque para o esporte, saber e lazer). Apenas em uma sociedade do lazer/saber é que podemos construir o caminho para superar o ódio às diferenças e pôr fim à sociedade de classes, calcada na hierarquia social, racial e sexual. Ou seja, é tempo de construir e espalhar uma ideologia que não enxergue mais no trabalho a única razão de ser.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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