Marcelo Hailer

13 de dezembro de 2019, 00h11

Viadagem Comunista

Marcelo Hailer: “Nós, corpos dissidentes, não temos tempo para ficar divagando sobre um tempo que, apesar de glorioso, está morto”

Foto: Reprodução

Existe uma treta um tanto nonsense que rola nas redes entre trotskistas e stalinistas. Obviamente, uma discussão tocada por uma imensa maioria de héteras que ficam horas disputando quem mata mais, quem deve ir para o Gulag…  mas, claro, longe da história, do fronte e estagnado de frente para a tela do computador gastando horas e horas de água e luz solar.

A real é: Lenin, Stalin e Trotsky eram três tiranetes e geniais. A primeira faleceu precocemente, a segunda foi ligeira, se livrou da geral opositora e cozinhou a Trotsky até chegar no México.

Não é sócio Fórum? Quer ganhar 3 livros? Então clica aqui.

A sério: Lenin era a teórica brilhante, a Trotsky era a melhor na análise de conjuntura e a Stalin foi a responsável pela, digamos assim, a idade de Ouro da URSS: tendo governado a União Soviética de 1927 a 1953. Foi a responsável por transformar um país fortemente agrário em uma potência em várias esferas. E claro: tornou a URSS a grande antagonista do capitalismo. Mas, óbvio, não fez isso sozinha.

Porém, isso, hoje, tem valor histórico e é necessário seguirmos adiante. Me causa espanto que muita gente ainda sonhe com a volta da URSS. Vamos lá: foi uma experiência histórica, que ainda pode ensinar muito para a gente. Todavia, pensar numa reedição desse modelo beira à sandice, pois, ignora a conjuntura global na qual estamos inseridos e o quanto da estratégia de dependência econômica imposta aos países da América Latina, África e parte da Ásia foi aprofundada.

O que nós devemos fazer, para conquistar novas mentes e corações, é retomar a discussão da economia planificada e pensá-la para o século XXI; colocar no eixo de uma “outra sociedade possível” as opressões contra LGBT, mulheres, negr@s e pessoas não brancas. Pois, nesse momento, quem está fazendo isso, e com destaque à América Latina, é a extrema direita teocrática e militarizada, que está convencendo inúmeras camadas da população de que sim: não se deve discutir sexualidade nas escolas, que as políticas de cotas são injustas e de que a bíblia é mais importante que a Constituição – lembram do recente golpe na Bolívia, né?

E aqui cabe um destaque: depois do ministro Moro, de acordo com o último DataFolha, a ministra Damares, responsável pela pasta Família e Direitos Humanos, é a segunda melhor avaliada pela população do Brasil, mais especificamente, 43%, é quase a metade do país apoiando temas como a “cura gay”, de que “o mundo ideal seria com as mulheres em casa cuidando do lar” e criminalização total do aborto. Na minha modesta opinião, esse é o número mais grave da referida pesquisa.

Enviadescer o projeto Comunista

Diante de um cenário tão horrendo, é necessário que avancemos na plataforma de um projeto popular, socialista com vias ao comunismo. Temos que enviadescer o comunismo: é necessário e urgente que setores da esquerda abandonem o tom raivoso frente às pautas “identitárias”.

Vamos lembrar do já malhado Manifesto Comunista (Marx e Engel, 1848): o nosso objetivo, juntamente com a luta de classes, é a emancipação dos 99%, mas, cabe lembrar, que dentro desse número surgiram vários novos grupos sociais que resolveram não mais ficar escondidos. Ou seja, a luta por uma sociedade não capitalista feat luta de classes se dá junto com as LGBT, negr@s, mulheres e povos originários.

Precisamos, também, jogar um pouco de verde nesse comunismo aí (claro, verde cannabis feat meio ambiente). E aqui é bom lembrar da literatura distópica: quem vai migrar para outro planeta é o 1% mais rico, nós permaneceremos fritando no caos e na miséria. Parece viagem, mas não é. E para tal, indico vivamente a leitura da trilogia “MaddAddão”, da escritora Margaret Atwood. No Brasil é vendida separadamente: Oryx e Crake (1), O ano do dilúvio (2) e MaddAddão (3).

Por fim, não se trata de impor regras sobre quais discussões devem ou não ser feitas nas redes e nas mesas dos bares, mas, é que estamos gastando energia e desfazendo amizades à toa.

Nós, corpos dissidentes, não temos tempo para ficar divagando sobre um tempo que, apesar de glorioso, está morto.

Nota do autor – Em alguns momentos do texto uso o artigo feminino para personagens masculinas: é proposital.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum