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15 de março de 2018, 13h00

Marielle Franco: a ousadia de tentar contrariar as estatísticas

Em novo artigo, Joselicio Junior analisa a morte de Marielle Franco. “O abatimento, a tristeza da perda, o medo, o sentimento de incapacidade, de impunidade são inevitáveis, mas temos a obrigação de continuar”

A morte de Marielle é a demonstração mais dura do quanto a democracia brasileira é frágil e seletiva – Foto: Reprodução/Facebook

Marielle Franco foi assassinada por ser quem ela é, mulher, negra, lésbica, favelada, socióloga, defensora dos Direitos Humanos que ousou ocupar a política, que transformou o seu mandato em uma trincheira de luta, de denúncia da violência praticada pelo estado nos morros, que teve coragem de falar abertamente o quando a intervenção militar no Rio de Janeiro é ação desastrosa e eleitoreira.

Marielle tentou contrariar as estatísticas, mas o racismo é implacável, 130 anos após a falsa abolição os corpos negros permanece descartáveis pela estrutura do poder desse país.

Em uma entrevista  ao Jornal Brasil de Fato, em março de 2017, foi indagada sobre a denúncia  em sua rede social sobre o racismo que sofreu no aeroporto e perguntaram  “Como é ser mulher negra no Brasil?”.

“Ser mulher negra é resistir e sobreviver o tempo todo. As pessoas olham para os nossos corpos nos diminuindo, investigam se debaixo do turbante tem droga ou piolho, negam a nossa existência. Isso que passei no aeroporto foi uma vivência que muitas mulheres negras já passaram. Poderíamos fazer uma pesquisa objetiva perguntando quantos homens e mulheres brancos já tiveram os seus cabelos revistados; a resposta seria nenhum. Estamos expostos e somos violentados todos os dias. Para que a discussão se amplie é fundamental compreender que estamos em um lugar de tratamento diferente. É preciso reconhecer o racismo”, afirmou Marielle.

A morte de Marielle é a demonstração mais dura do quanto a democracia brasileira é frágil e seletiva. Que a estrutura do Estado serve para proteger e beneficiar o 1% mais rico e massacrar o restante da população, particularmente os historicamente excluídos, as mulheres, os negros, os periféricos.

Queremos investigação, punição aos culpados, mas sobretudo queremos mudanças estruturais, queremos ter o direito à vida, à cidadania, à dignidade.

O abatimento, a tristeza da perda, o medo, o sentimento de incapacidade, de impunidade são inevitáveis, mas temos a obrigação de continuar, pois nossa luta é secular. Estamos aqui fruto da luta e resistência de nossos ancestrais e temos a obrigação de lutar por uma sociedade melhor para os que estão e virão. Marielle Franco Presente, Agora e Sempre.


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