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01 de agosto de 2018, 22h00

Marx seria um vilão mais cruel que Thanos

Essa semana saiu a versão em blu-ray de Os Vingadores: Guerra Infinita, filme que é, de forma cômica e trágica, uma nova manifestação de um discurso reacionário antigo: o controle populacional.

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Os filmes “tolos” porém pedagógicos de Hollywood, como os classificavam Ludwig Wittgenstein, continuam com a sua política ideológica pelo simples fato de fazer com que o seu discurso pareça apolítico. Essa semana saiu a versão em blu-ray de Os Vingadores: Guerra Infinita, filme que é, de forma cômica e trágica, uma nova manifestação de um discurso reacionário antigo: o controle populacional.

A estratégia de transformar o vilão em um homem sentimental foi fundamental para seduzir o telespectador a pensar: “de repente o que ele está falando tem sentido”. E assim ele se dobra a ideia malthusiana de que a população, quando não contida por catástrofes naturais ou pela fome e miséria, cresceria em progressão geométrica e os alimentos cresceriam, na melhor das hipóteses, em progressão aritmética.

Embora Thanos e Malthus tenham em comum esse raciocínio idealista, os dois apresentam soluções um tanto quanto distintas. Malthus é claro: “a abolição gradual e muito gradual das leis de amparo aos pobres”, o que hoje seria os programas sociais; e a “prudência no casamento, que é o único meio moral de evitar um excesso de trabalhadores em relação à demanda,”1 eram as suas propostas.

Outro fato é que para Malthus são os pobres que devem se controlar, porque, por serem amorais, quando “têm oportunidade de economizar, raramente a utilizam; mas, falando de maneira geral, tudo o que ganham acima de suas necessidades presentes vai para a cervejaria”.2

O discurso de Malthus seria um absurdo até para Thanos, pois o vilão do filme da Marvel pretendia eliminar aleatoriamente metade da população do universo, sem critério entre ricos e pobres. Já o economista do século XIX, pensava que o consumo gerado pelo crescimento dos mais pobres diminuiria o consumo de alimentos de uma ala da população mais valiosa:

“as leis inglesas de amparo aos pobres tendem a deprimir a condição geral dos pobres das duas seguintes maneiras. Sua primeira tendência óbvia é aumentar a população sem aumentar a comida para seu sustento. (…) Em segundo lugar, a quantidade de provisões consumidas nas casas de trabalho por uma parte da sociedade que não pode, em geral, ser considerada como a mais valiosa diminui a porção que, de outra forma, pertenceria a membros mais industriosos e valiosos e, assim, da mesma maneira, força mais gente a se tornar dependente”.3

Parece, portanto, que o nosso vilão é muito mais humano que o Malthus do século XIX. Mas existe uma questão interessante. Por mais que Thanos não diga que são realmente os pobres os culpados pelo estado de coisas, isto é, pelo excesso populacional, que acredita ser necessário transformar, nada impede que pensemos que o aumento da população seja de fato devido ao descontrole dos pobres (peço desculpas por reproduzir um raciocínio tão conservador) por se reproduzirem sem cautela. O filme não apresenta nenhum argumento que elimine esse raciocínio. Posso entender, portanto, a partir da suntuosa produção hollywoodiana, que toda a humanidade sofreu pelo aumento dos pobres, já que não existe o raciocínio oposto, de que o aumento da população se dá pelo aumento da riqueza.

Contudo, é exatamente isso que acontece. É o aumento do capital que exige uma maior quantidade de gente a seu serviço. O aumento dos investimentos em capital constante (máquinas, equipamentos etc) relativamente maior do que em capital variável (salários) na medida em que os capitalistas visam aumentar seus lucros reduzindo os custos (salários), faz-se necessário criar uma mão de obra supérflua que se submeterá a mais valia.

É como diria o bom e velho Bolsonaro, “menos direitos e emprego, ou todos os direitos e menos emprego”. Essa lógica só é possível quando há uma mão de obra supérflua, que aceita qualquer condição de trabalho para não morrer de fome.

Para Marx, a acumulação capitalista produz uma população “que ultrapassa as necessidades médias da expansão do capital, tornando-se, desse modo, excedente”.4 O capitalista, por exemplo, pode pagar ao trabalhador a quantia que bem entender, pois se este último não aceitar, há uma fila enorme de desempregados engalfinhando-se por uma vaga no mercado de trabalho.

Ou seja, a solução marxista para impedir o aumento desenfreado da população seria o fim do capital. Uma solução muito mais cruel que a de Thanos, pelo menos para a burguesia. Mas um filme de Hollywood jamais falaria isso. Um vilão desses seria um risco para os lucros dos mais variados estúdios dessa máquina de sonhos. Até porque, como diziam Adorno e Horkheimer, a indústria cultural tem “que se apressar em dar razão aos verdadeiros donos do poder”.

1 Thomas Robert Malthus. (1803) “Sobre as leis de amparo aos pobres”. In: SZMRECSÁNYI, Tamás. (org.) (1982) Thomas Robert Malthus. Coleção Grandes Cientistas Sociais nº 24, São Paulo: Editora Ática, p. 94.

2 Id. P. 78.

3 Id. P. 77.

4 Karl Marx. O capital: contribuição à crítica da economia política. Livro I. Vol. 2. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1980, p. 731.


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