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23 de julho de 2018, 14h24

Militares de esquerda: uma história que não deve ser esquecida

Ao contrário do que muitos podem pensar, não foi a ala conservadora do Exército que sacudiu a história do Brasil. Muito pelo contrário. Foram justamente aqueles que não eram tão simpatizantes assim do Duque de Caxias que fizeram a verdadeira história

Capitão Carlos Lamarca, que abandonou o exército para se dedicar à luta armada durante o regime militar (Reprodução)

As reivindicações dos soldados-cidadãos são as da social-democracia, de todos os partidos revolucionários, dos operários conscientes. O ingresso dos soldados nas fileiras dos partidários da liberdade, sua passagem para o povo assegurará com o triunfo das suas próprias reivindicações a vitória da causa da liberdade.

Lenin

 

No início, o exército brasileiro resumia-se a meras forças locais, a chamada Guarda Nacional, que tinha o objetivo de estabelecer a ordem nas províncias. Era o braço armado dos fazendeiros que pretendiam calar os movimentos de resistência e a insatisfação dos que estavam indignados com o poder estabelecido. Segundo Ricardo Salles, o exército brasileiro só se estabeleceu com a Guerra do Paraguai, quando foi necessária a modernização da instituição.

A partir do conflito pela hegemonia da região platina, o Exército se tornou uma força com grande prestígio no Brasil, e é a partir dele que surgem algumas reivindicações progressistas, como o fim da escravidão, por exemplo, já que se percebeu que o negro poderia ser um bom combatente, além do fato de que aqueles que voltaram da guerra ficarem reconhecidos, ao lado de outros Voluntários da Pátria, como Heróis Nacionais.1

Ao contrário do que muitos podem pensar, não foi a ala conservadora do Exército que sacudiu a história do Brasil. Muito pelo contrário. Foram justamente aqueles que não eram tão simpatizantes assim do Duque de Caxias que fizeram a verdadeira história.

Na primeira experiência brasileira de uma eleição direta, em 1879, dois militares concorreram no Rio de Janeiro à Câmara dos Deputados. Foram Sena Madureira e Cunha Matos, que lutaram pelo direito dos militares de livre manifestação do pensamento, o que desenrolou em todo o imbróglio que levaria a Proclamação da República.2

O movimento de fuzileiros navais pelo fim dos castigos corporais, dos baixos soldos, da má alimentação, etc. que deu início à Revolta da Chibata que, por sua vez, atormentou a cidade do Rio de Janeiro no ano de 1910. Esses amotinados foram parcialmente anistiados, mas acabaram sendo novamente perseguidos, dessa vez na Ilha das Cobras. Mas a luta desses guerreiros era muito mais ampla que a superação dos maus tratos. Perceberam que “não adiantaria esperar dos oficiais alguma solução: eles tinham de criar e expor as propostas de mudança”. De acordo com o historiador Álvaro Pereira Nascimento, “era fundamental conquistar a cidadania para exigir melhores condições de trabalho, sem perder o que desejavam para si mesmos nas relações estabelecidas dentro e fora da Armada”.3

A República se estabeleceu por meio do controle das oligarquias na política, e foi o tenentismo, movimento militar, a única força na década de 1920 contra o arranjo político excludente que se estabeleceu. Organizado em colunas, embora pouco sistemático, esse movimento deu origem ao maior líder comunista da história do Brasil: Luís Carlos Prestes.

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Em 1961, através da Campanha da Legalidade, Brizola conseguiu mobilizar o general sulista Machado Lopes, comandante do III Exército, “a mais poderosa grande unidade do exército brasileiro”, como coloca Daniel Aarão Reis, professor da UFF.4 Cabe lembrar a importância de um dos maiores historiadores do Brasil, Nelson Werneck Sodré, que ficou preso por dez dias por se opor a tentativa de golpe em 1961 que queria impedir a tomada de poder de Jango após a renúncia de Jânio Quadros, o mesmo evento que levou Brizola a movimentar o sul do país em prol da legalidade. Sodré escreveu livros importantes para a história militar do Brasil e para a história da imprensa. Verdadeiros clássicos.

Sodré ingressou jovem na carreira militar e chegou, inclusive, ao generalato. Marxista, dedicou-se à análise materialista da sociedade brasileira e, embora suas teses de um passado feudal no Brasil estejam ultrapassadas, foi de grande importância para movimentar a intelectualidade de seu tempo.

E o que falar do capitão Carlos Lamarca, que abandonou o Exército para dedicar-se à luta, ao lado dos seus companheiros da Vanguarda Popular Revolucionária e, mais tarde, do MR-8, contra a ditadura implantada em 1964? Após iniciar uma guerrilha contra o Estado autoritário acabou sendo morto ao lado do seu companheiro, Zequinha, na sombra de uma árvore na Bahia.

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Esses militares que lutaram por cidadania são, de fato, os que deveriam ser lembrados como heróis e não os que defenderam a escravidão, como Duque de Caxias, ou os que mantiveram as oligarquias no poder, como Marechal Deodoro, ou os que se dedicaram a entregar o Brasil aos interesses norte-americanos, como os militares golpistas de 1964. Hoje, o alto oficialato das Forças Armadas está em conluio com o governo Temer para consolidar a política de entrega do país aos interesses do capital internacional, subjugando o seu povo ao aumento da miséria, da mortalidade infantil, do desemprego etc..

Contudo, a história – não a contata pelas forças dominantes – mostra a resistência de ícones militares que devem ser resgatada e servir de inspiração para os militares de hoje que, enganados pela história oficial, a História com “H” maiúsculo, são atraídos para os setores conservadores que nunca fizeram nada para tirar o país das condições deploráveis que o povo se encontra. Inclusive, uma figura tão caricata, como Bolsonaro, representando o exército (principalmente as patentes mais baixas), chega a ser ridículo para uma instituição que forneceu grandes pensadores (tanto de direita quanto de esquerda).

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Cabe às esquerdas a mobilização e conscientização desses militares submetidos à exploração, tanto fora quanto dentro da instituição militar. O caso da polícia militar no Rio de Janeiro é emblemático, onde uma política de guerra contra às drogas, que só cria mortos para todos os lados, precisa ser revisada. E, nesse sentido, o PSOL e o PCB apresentam propostas muito interessantes, atraindo, inclusive, parte desse setor.

Não é possível pensar um novo Brasil, mais justo e soberano, sem a participação dos militares, que querem o progresso de sua nação, mas acabam sendo seduzidos por um discurso conservador contundente que quer a manutenção da submissão do país ao capital estrangeiro.

 

1 SALLES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 74.

2 LEMOS, Renato. A alternativa republicana e o fim da monarquia. In: GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo. (orgs.) O Brasil Imperial. V. III. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 421

3 NASCIMENTO, Álvaro P. “Ordem e liberdade”: proposta da marujada cidadã. In: CARVALHO, José Murilo de. (org.). Nação e Cidadania no Império: novos horizontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 471.

4 REIS, Daniel Aarão. Ditadura e sociedade: as reconstruções da memória. In: ______, REDENTI, M. e MOTTA, Rodrigo Patto Sá. (orgs.) O golpe e a ditadura militar: 40 anos depois (1964-2004). Bauru: EDUSC, 2004. p. 31.


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