Monica Benicio

09 de março de 2020, 18h19

A quem interessa a imagem da viúva oportunista?

Monica Benício: “O discurso que edita e silencia a complexidade representada por Marielle e o significado político de nossa aliança só favorece àqueles e àquelas que se ancoram e fortalecem no ódio”

Marielle Franco - Foto: Mídia Ninja

A noite do 14 de março devastou a vida de muitas pessoas: a da família biológica de Marielle Franco; a minha, sua companheira e grande amor; a de tantas e tantos amigos dela; e a de muitas e muitos militantes. Desde a execução de Marielle, a luta diária de todas e todos mudou radicalmente. Comigo não poderia ser diferente. E, no meu caso, além das mudanças impostas pela sua ausência e pelo consequente fortalecimento do pensamento ultraconservador, me deparei com desafios complexos, alguns com requintes de crueldade.

Lutar contra o apagamento que sofri como companheira de Marielle, inclusive dentro do campo progressista, e seguir na busca por justiça para sua execução brutal me exigiu mais do que uma entrega, o abandono de mim mesma. Abri mão das minhas vidas pessoal e profissional e mergulhei na luta por justiça sem jamais buscar um protagonismo midiático sobre isso. Vivi situações de precariedade, na precariedade da sobrevivência eu escolhi a luta. E dentro da luta eu jamais abrirei mão dos meus direitos. Foi preciso denunciar as muitas manifestações lesbofóbicas e me descolar cotidianamente e de maneira incisiva da alcunha de oportunista.

Em investida difamatória recente, na última sexta-feira (06/03), o site UOL, replicado por outros veículos, publicou fake news de que eu haveria recebido R$ 2 milhões pela série ficcional sobre a vida de Marielle. Novamente me vi tendo que recorrer a toda a minha rede de afeto e militância para reagir. Por ironia do destino, soube do ocorrido quando participava do debate “Vidas lésbicas importam”.

É importante destacar que Marielle tem duas herdeiras legais, sua filha e sua esposa. No entanto, a imagem de Marielle é pública e seus direitos não são privados. Inclusive, defendo que seu legado é coletivo para que mais pessoas conheçam sua trajetória e reivindiquem justiça nas ruas, lugar onde Marielle foi forjada e onde seguimos. 

Fui atacada por fake news por conta da produção da série ficcional, o que me exige este posicionamento público.

Em primeiro lugar, são duas produções diferentes, uma ficcional e outra documental. Participarmos – familiares, amigos e parlamentares – de um documentário sobre Marielle, que será lançado na próxima semana pela Globoplay. Nenhum valor foi recebido por mim para tal participação. Em dois anos de luta, a minha prioridade sempre foi a preservação da memória e a busca por justiça, apesar de não ser contrária ao recebimento por direitos. Há acordos diferentes para cada situação.

Dar máxima visibilidade à história e à execução brutal de Marielle é fundamental para que o apelo social do caso seja mantido. Uma resposta para esse assassinato representa a defesa da democracia e um passo no combate à lógica que vulnerabiliza corpos pretos, pobres, LGBTs.

Viajo o mundo buscando apoio e denunciando o crime, ainda que tenha sido necessário investir recursos próprios e recorrer a empréstimos para fazê-lo. Dentro de minhas possibilidades, filtro e exerço a influência que me cabe nas demandas que surgem. As verbas da venda das blusas que uso da Puta Peita, por exemplo, são destinadas a duas ocupações de Curitiba.

Sobre a série ficcional, também elaborada pelas Organizações Globo, quero destacar que esta nota não pretende reivindicar o protagonismo no debate sobre as escolhas da produção. Primeiro porque não seria correto com aquelas e aqueles que estão mobilizando a discussão. E, em segundo lugar, porque tais decisões não passam pelos familiares. O que não posso deixar de frisar é que considero importantes e urgentes todos os questionamentos sobre memória, legado, reparação histórica e necropolítica. E que certas narrativas fortaleceram o discurso fascista e contrário às pautas defendidas por ela. Isso é inegável, não pode ser romantizado ou ignorado.

No que diz respeito à minha relação com a produção da série ficcional, quando a proposta é feita aos familiares, ela discute nossas participações e questões, não necessariamente a composição ou formação do corpo técnico. Não é necessário solicitar autorização da família para a produção da série porque assim a lei permite. Aos familiares é colocado não obrigatoriamente, e nesse caso foi, o espaço de liberação de direitos próprios e consultoria no sentido da construção de uma narrativa mais fiel e a possibilidade de resguardar a memória da biografada.

As tratativas sobre a concessão do uso da minha própria imagem e acervo ainda estão em andamento, e umas das exigências à priori é acompanhar de perto o processo de criação da narrativa para que seja feito com o máximo de respeito não só à memória da Marielle como também às suas lutas. No entanto, repito, outros direcionamentos não são gestados pelos familiares. E, além de haver uma série de fatores colocados em pauta, não discute-se nada próximo do valor apresentado pelo UOL como destinado a mim, a única familiar citada na matéria, vale ressaltar.

Me entristece o fato de que tenham escolhido uma única pessoa para direcionar essa fake news, justamente aquela que ainda não fechou o acordo: a viúva. Entristece, mas não espanta. Afinal, não se trata de uma infeliz coincidência.

A quem interessa a dissimulação do verdadeiro interesse em questão? O discurso que edita e silencia a complexidade representada por Marielle e o significado político de nossa aliança, firmada em vida e levada adiante a cada dia de meu ativismo, só favorece àqueles e àquelas que se ancoram e fortalecem no ódio. Só beneficia quem deseja anular a história e a vida daquelas e daqueles que rompem com os padrões e, por isso, representam uma ameaça.

Não me abalarei, seguirei lutando por respeito à minha família, à nossa luta e à nossa história.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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