Monica Benicio

27 de abril de 2020, 18h30

Acusações contra Bolsonaro precisam ser investigadas com seriedade e celeridade

Em novo artigo, Monica Benicio questiona: “Que espécie de chefe de Estado se faz de vítima o tempo todo? Até quando vai ficar usando o episódio da facada para desviar a atenção da sujeira em que se meteu?”

Marielle Franco - Foto: PSOL

Os últimos acontecimentos deixam nítido que Jair Bolsonaro não possui envergadura moral para ocupar o cargo mais importante do país. A fala do presidente em relação à Marielle não só ofendeu a mim e a todas e todos os brasileiros que querem justiça, como também nos deixou extremamente preocupados.

Que espécie de chefe de Estado se faz de vítima o tempo todo? Até quando vai ficar usando o episódio da facada para desviar a atenção da sujeira em que se meteu?

Todo atentado é lamentável sim, seja contra alguém que ocupa a cadeira presidencial ou qualquer pessoa. Mas o caso envolvendo Jair Bolsonaro foi devidamente investigado e concluído pela Polícia Federal. Não é porque não teve o resultado que ele gostaria que muda o fato de ter sido, sim, investigado e encerrado.

O que não é razoável é que ele queira tecer comparações com o assassinato de Marielle e Anderson. A execução de Marielle é uma grave violação de direitos humanos. A não elucidação desse assassinato coloca a nossa democracia em altíssimo risco.

Mas ninguém pode dizer que foi enganado por Bolsonaro, e os que se interessaram por conhecer um pouco mais sobre sua vida pregressa já sabiam que poderia se tornar essa vergonha nacional e um risco para a vida dos brasileiros e brasileiras. Em 30 anos de vida pública, esse sempre foi seu modus operandi: mentiras, manipulações e desapreço pela vida. Era apenas uma figura política conhecida por seus pronunciamentos desprezíveis. Falas racistas, misóginas, machistas, LGBTfóbicas.

Bolsonaro mente ao dizer que houve mais interesse da Polícia Federal no caso Marielle do que na história da facada. Inclusive, porque o acusado foi detido e está internado em hospital de custódia psiquiátrico. E, até hoje, não sabemos quem mandou matar Marielle nem o porquê.

Finge não saber que o caso Marielle não é de competência federal, uma vez que a investigação cabe ao Ministério Público do RJ e à Polícia Civil. A PF realizou o que foi conhecido como “a investigação da investigação” para averiguar se, na ocasião, havia interferências diretas que atrapalhassem ou manipulassem os resultados. O trabalho foi concluído e o caso segue correndo sob a competência do MP-RJ e da Polícia Civil.

Foi um desrespeito enorme a forma como Bolsonaro desqualificou a figura humana e política que Marielle representa, usando um caso que abalou a democracia brasileira para desviar a atenção sobre o real motivo que levou seu governo a uma crise aguda: a interferência presidencial nos inquéritos da Polícia Federal.

Interessa-me muito saber quais são as motivações de todo o esforço de Bolsonaro para desqualificar o caso da Marielle. Que Bolsonaro tem medo da Marielle não restam dúvidas. Eu gostaria de saber por que a imagem dela incomoda tanto o seu clã.

A intenção de Bolsonaro é transformar a PF em uma polícia política a serviço de sua família e interesses pessoais. O noticiário recente afirma que filhos seus figuram entre acusados de corrupção, calúnia e difamação, para além de toda relação que a família conserva com a milícia.

Isso explica o desejo do presidente de interferir em diversos inquéritos ligados à sua família no Supremo Tribunal Federal e, também, no tocante ao caso Marielle, como o “Episódio da casa 58”, que levantou suspeitas a respeito da relação da família do presidente com Ronnie Lessa, acusado de ter executado os disparos que tiraram a vida de minha companheira. 

São gravíssimas suas intenções em avançar em suas interferências no caso Marielle. Desde sua execução, o então candidato Jair Bolsonaro sequer proferiu um pronunciamento sobre o assassinato e assim seguiu ao longo de seu mandato.

Pelo contrário, foi omisso, e agora insiste numa narrativa que desumaniza Marielle, como demonstrou em seu pronunciamento, por exemplo, quando comparou: “a vida de um presidente tem um significado”. A de Marielle também tem. E digo “tem” no presente, porque diferentemente de Bolsonaro que irá para o esgoto da história, Marielle é atemporal, é semente. Agora, reconhecida mundialmente por sua grandeza. Ao redor do mundo, Marielle hoje é o que, pra mim, sempre foi: GIGANTE.

Assim como as vidas de todas as Marias e Silvas do nosso país, todas as vidas importam e têm, sim, um significado. É, no mínimo, prepotência e muita desumanidade acreditar que algumas vidas têm mais valor do que outras.

Bolsonaro utilizou um dispositivo do racismo ao desumanizar uma mulher negra, negando o significado de sua vida e sua história. É apenas um covarde sem valor algum.

Marielle era parlamentar eleita! Reivindico que as acusações do ex-ministro Sérgio Moro sejam devidamente apuradas e exijo respeito à memória da minha companheira. Peço que cada um e cada uma se engaje ainda mais e com mais força na campanha #QuemMandouMatarMarielle. Não há democracia sem essa resposta.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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