Monica Benicio

15 de fevereiro de 2019, 19h06

“É a carne negra que fez e faz história, segurando esse país no braço, meu irmão”

Monica Benicio, em novo texto para a Fórum, diz: “Não basta ser contra o racismo, nós temos que enfrentar o racismo e ser antirracistas em nossas práticas diárias”

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Enquanto mulher branca peço licença aos meus companheiros e companheiras negras para escrever sobre uma opressão que não me atinge diretamente. Compreendo que a luta antirracista é de todas nós e não dá para ficarmos em silêncio diante dos absurdos diários que exterminam a juventude negra no Brasil. Como afirma a militante e filósofa Angela Davis: “Numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”. Se hoje tenho como ferramenta uma coluna na Fórum, que seja de todas nós.

Pedro Henrique Gonzaga, um jovem negro foi estrangulado no mercado Extra no Rio de Janeiro, por um segurança que supôs/previu/achou/estigmatizou – e matou – que poderia ser um assaltante. Para os jovens negros, a sociedade racista só olha por esse paradigma e mesmo que o fosse, quando foi dada a cartada para justiça pelas próprias mãos?! Para o jovem negro ser lido como cidadão ele tem que ser trabalhador braçal. Só se esquecem esses “homens de bem”, que quem segura esse país no braço historicamente é a população negra.

Negros e negras foram sequestrados do continente africano no período colonial para o Brasil. Nos livros são romantizadas as figuras que retratam os africanos deitados ou com correntes apenas em seus pés. A verdade é que as mulheres e crianças eram mutiladas e estupradas, os homens violentados. Negros e negras morriam em navios de fome e de dor. Ao chegarem em solo brasileiro, eram separados de seus familiares e escravizados por brancos europeus. As igrejas afirmavam que pessoas negras tinham a cor escura por não possuir alma e o mito se estendeu dando “direito” aos brancos de tratá-los como não humanos.

Assim, por 318 anos se manteve o Brasil. Sim, a escravidão demorou mais de três séculos para ser finalizada. E pasmem, não há Princesa Isabel boazinha como contado para nós quando crianças e mantida em nossa memória fetichizada depois de adulta. Como escrito pela Juliana Gieppner: “A princesa branca representa a sociedade branca, a mesma que foi escravagista e que se beneficiou do sangue negro que correu no trabalho escravo. A branca princesa europeia representa a redenção para toda uma sociedade branca escravagista, ela ‘apagou’ os pecados da escravidão”.

Foto: Reprodução

Ainda há uma escravidão, uma colonialidade sobre os corpos negros com outros nomes. Um exemplo nítido é o jovem negro estrangulado no mercado, os mais de dez jovens negros assassinados na favela do Fallet semana passado, no Rio de Janeiro – uma verdadeira chacina –, as mulheres negras sub-remuneradas em empregos precarizados, sendo as principais vítimas de feminicídio e violências, o encarceramento em massa dos homens negros, a baixa escolarização e alta evasão escolar de crianças e adolescentes.

São esses os dados de realidade que a branquitude naturaliza, afinal é menos um. São as negras e negros que construíram o Brasil permeados de dor e revolta, com seus quilombos resistentes e pelas revoluções que a mesma branquitude não conta nos livros. São as negras e negros que são invisibilizados nas universidades, nos saberes, na cultura. São negros e negras que hoje disputam os espaços tidos de poder para que parem de matar seus filhos e filhas pela mão do estado racista e pela sociedade escravocrata, que ainda permeia em cada branco que não se importa com um corpo negro exterminado.

Não basta ser contra o racismo, nós temos que enfrentar o racismo e ser antirracistas em nossas práticas diárias. Olhar o outro e saber que herdamos a história que estigmatiza ainda hoje a população negra. É nossa responsabilidade se colocar em solidariedade e empatia com nossos irmãos e irmãs, reconhecendo que, muitas vezes, daremos passos atrás para que avancem. A reparação histórica será eterna.

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