Monica Benicio

14 de fevereiro de 2019, 15h57

Marielle Franco, onze meses que a tiraram de nós

Monica Benicio: “Mês que vem completará um ano da execução da Marielle e do Anderson e faço um pedido: ocupem todas as ruas, rompam o silêncio, deem as mãos e vamos estar juntas exigindo justiça”

Foto: Carlos Latuff

São 11 meses sem ela. Onze meses que não consigo cozinhar, pois cozinhava pra ela com todo amor e, na noite de 14 de março, quando eu ainda preparava o jantar recebi a notícia que ela não iria chegar. São 11 meses em que, nos três primeiros deles, os calmantes não me deixaram ver passar. A culpa por estar viva me fez parar de comer ou fazer qualquer coisa que desse prazer, foram 11 quilos perdidos em apenas um mês. São meses em que dedico a minha vida exigindo justiça para Anderson e Marielle, minha esposa.

Nesses meses recebi solidariedade, amor, afeto, reconheci velhos amigxs, alguns que nem eram amigxs, mas demostraram todo seu potencial de amor por ela e por mim para garantir a continuidade da minha vida sem ela, quando eu não tinha mais nenhuma vontade de seguir. Conheci pessoas que me fizeram perceber que a luta não era só minha e que eu, por mais sozinha que possa me sentir, não caminho só. A palavra “semente”, tão usada nesses meses, passou a fazer sentido. Não existem outras Marielles, pois ninguém pode ser substituído. Existem milhares de pessoas pelo mundo que se indignaram frente à barbárie da noite do 14 de março e seguem comigo ressignificando essa tragédia para que nenhuma outra família sinta dor semelhante à minha, para que ninguém sinta a dor diária que sinto ao acordar sem ela.

Hoje, gostaria de pedir licença e dizer o que são esses meses pra mim. Muitas pessoas me veem em viagens, mesas expositivas, debates, entrevistas e acham que está superado. Me veem sorrindo e logo dizem “que bom você estar sorrindo”, e ainda tento compreender essa frase que me causa tanta angústia. Amigas, amigos e família se adaptaram a uma rotina diária de estar presentes e, ao mesmo tempo, respeitar o espaço de quando simplesmente não quero levantar da cama. Usar as redes sociais para postar lembranças nossas como uma das tentativas de manter nossas memórias e de dizer ao mundo que “sim, minha família existe e foi constituída com muito amor”. Idas semanais ao cemitério onde está toda a matéria que me interessava nesse mundo. Ter me mudado de estado para conseguir retomar aos poucos, mesmo que minimamente, uma rotina. Ser acusada de tantas coisas ruins e levianas quando, ao invés disso, poderia haver união para ressgnificar tudo isso e construir algo lindo, por ela, por nós. Lidar diariamente com fake news, que não só ferem a memória dela, mas dilaceram o coração de quem a ama.

Não é fácil. Expor a dor constante é difícil. Não há remédio, terapia, abraços, olhares que supram a ausência. O autocuidado que tanto exercia, hoje é mais uma autossabotagem que realizo para não encarar a realidade da falta. Pois, tudo mudou. Mudou sem me avisarem, eu simplesmente segui para não desistir de estar presente e porque a minha fé não me permite fazer de outra forma. Mesmo que, por muitas vezes, é o que eu gostaria. Quando me dizem “você é muito forte”, “você me inspira”, “de onde tira tanta força?”, “como você está hoje”, são frases que não consigo decifrar. Mas me inspiram e ajudam a seguir.

Muitas viúvas me mandaram mensagens de solidariedade e dizendo que a dor nunca vai passar, mas eu vou aprender a conviver com ela. Fará parte do dia a dia. Um dia a dia que ainda não chegou. Me causa arrepios viver como uma mulher de apenas 33 anos, pensar quão egoísta sou por tentar ser feliz novamente. Marielle e eu tínhamos problemas como qualquer casal. Nossa relação era de verdade. Tão verdadeira que foram anos sofrendo por lesbofobias até que, finalmente, estivéssemos residindo na mesma casa e vivendo de forma plena nossa família, nosso amor.

Se hoje compartilho esses sentimentos com vocês é para lembrar que estamos há 11 meses sem respostas da maior dor da minha vida que é dividida em vários corações, sem hierarquizar quem sofre mais, embora estar no local que ocupo hoje – na luta por Justiça – de certa forma seja uma privação do luto. A gente continuará seguindo, pois nos tiraram tanto que não podemos permitir que eles continuem celebrando com nossas perdas.

Mês que vem completará um ano da execução da Marielle e do Anderson e faço um pedido: ocupem todas as ruas, rompam o silêncio, deem as mãos e vamos estar juntas exigindo justiça. Nenhum passo atrás será dado. Por Ela, por nós!

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