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17 de outubro de 2017, 12h18

Não se combate a fome com ração humana

Para além dos absurdos apresentados por especialistas, tal medida desastrosa revela mais uma vez o perfil e a visão de mundo, arrogante e elitista, do atual governante da capital paulista.

Para além dos absurdos apresentados por especialistas, tal medida desastrosa revela mais uma vez o perfil e a visão de mundo, arrogante e elitista, do atual governante da capital paulista.

Por Joselicio Junior*

Como se estivesse apresentando uma solução mágica, revolucionária para erradicar a fome na cidade de São Paulo e até mesmo do Brasil, o marketeiro e também prefeito João Doria apresentou uma parceria com a empresa Plataforma Sinergia para produzir um granulado composto de alimentos, perto do vencimento, para serem distribuídos dentro do Programa Alimento Para Todos.

A medida foi duramente criticada por especialistas em nutrição como o Conselho Regional de Nutricionista da 3ª Região, contraria os programas nacionais de segurança alimentar, também fere os preceitos da dignidade humana que estabelece o consumo de produtos “in natura”, em detrimento de produtos processados para o combate à fome, enfim, uma enormidade de posicionamentos contrários à medida.

Para além dos absurdos apresentados por especialistas, tal medida desastrosa revela mais uma vez o perfil e a visão de mundo, arrogante e elitista, do atual governante da capital paulista. Com muita promessa de gestão e de mudanças extraordinárias hoje o prefeito é refém do seu próprio marketing, seus índices de aprovação estão despencando, seu precipitado projeto de candidatura à presidência não decola e a cidade de São Paulo está cada vez mais caótica, muito longe de acelerar como propagandeava o “Gestor”.

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Os retrocessos nacionais de corte nos programas sociais, nos programas de segurança alimentar, o aumento do desemprego, rebatem diretamente na maior capital do país. Basta andar pelas ruas de São Paulo para saltar aos olhos o aumento das pessoas em situação de rua, os comentários nas famílias de pessoas desempregadas, a diminuição do poder de compra, restrição no acesso ao crédito e endividamento das pessoas. Enquanto “especialistas” falam de melhora e recuperação da economia, essas mudança não chegaram para a maioria da população.

Estamos presenciando a piora das condições sociais das pessoas, aumento da violência, com números alarmantes de mortes de jovens negros, aumento brutal do encarceramento, sobretudo de mulheres, e voltamos a falar de fome e aumento da miséria. Para essas questões não há soluções mágicas, muito menos soluções que reduzem, inclusive, a dignidade humana, o ato de comer, de se alimentar para além do aspecto fisiológico é um ato cultural, é um ritual, impedir que as pessoas possam sentir o sabor, a textura dos alimentos naturais é desumano e um brutal retrocesso nas políticas de segurança alimentar das últimas décadas.

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Não podemos fugir do debate do desperdício de alimentos, com índices alarmantes em nosso país e no mundo, assim como a produção de alimentos recheados de agrotóxicos, além da produção, em larga escala, de comida processada de baixa qualidade, mas nem de longe isso justifica a proposta apresentada por Doria. Existem formas bastante concretas para melhorar a alimentação e dar acesso a quem precisa, como por exemplo a formação de banco de alimentos, restaurantes populares, estimular a produção de hortas comunitárias, incentivar a agricultura familiar, em maior escala garantir acesso à renda, geração de emprego, ou seja, a saída é dar dignidade para a pessoas.

A repercussão do proposta foi tão negativa e rechaçada que o governo se viu obrigado a recuar dela na última segunda-feira, 16 de outubro.

*Joselicio Junior, mais conhecido como Juninho, é jornalista, presidente estadual do PSOL-SP e militante do Círculo Palmarino, entidade do movimento negro.

Foto: Divulgação

 


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